Escolha.
Ele andava pela calçada daquele jeito meio slow motion, ou era minha cabeça, não sei. Eu observava, não escondida, não, eu apenas estava lá e ele não podia me ver ali, por acaso. Era o destino que, com seus tentáculos de polvo, colocava as pessoas nessas situações ridículas e descabidas. Se parar pra pensar direito, era pra eu estar em outro lugar, num metrô no Japão, me sentindo estranha e diferente demais. Pois eu virei a esquina errada e mudei de ideia várias vezes, passei um tempo desnecessário observando as pessoas no café, desisti do táxi, atravessei a ponte e de repente, estava ali fitando longamente, sendo seduzida por seu jeito de andar. Era inexato, calmo e seguro, de uma grandeza complexa e desinteressada do mundo, um deus impiedoso por entre os mortais rápidos demais. Ele carregava um livro e eu queria saber desenhar para rapidamente rascunhar seu perfil contra a parede de tijolos e colar na porta da geladeira. A noite esbofeteou minhas duas faces e percebi que já era tarde. Parece que é sempre tarde demais pra mim.