Espera
A grande farsa passando na tv, a fila não anda, o senhor à minha frente cheirando a algodão doce e vontade de partir, os ventiladores num ritmo tão enfadonho quanto essa vida que tem tardes, não passa. Queria despistar os pensamentos que compunham uma valsa sobre nós dois, o café da esquina na xícara mais delicada, o jornal de um dia qualquer de 1996 que não dissesse nada mais importante que a tirinha da Re Bordosa, queria ser outra pessoa andando apressada nas ruas do centro escaldante, qualquer uma, aquela com o sorriso pendendo nos lábios e os chinelos deixando sujar a barra da calça jeans. A senhora chega exibindo orgulhosamente gotículas de suor no buço e na testa, dirigindo-se imponente ao guichê, balançando o cartãozinho como um juiz de futebol exaltado, quase feliz, vitoriosa. Eu era apenas a mulher de meia idade carregando livros, as primeiras marcas de expressão na testa e olhos, ondas de calor deixando as faces meio rubras - vestígios mal disfarçados da valsa estridente tocando na minha cabeça - eu, quase ninguém sob o peso dos ponteiros do relógio incansável dando eternas voltas nessa tarde que não passa.