Louca.

A loucura veio pela manhã e decidi ficar em casa fumando um cigarro e depois outro até o fim do dia, entre doses de vodca e mais drogas em forma de programas da tv aberta. Eu precisava parar de dissertar dentro da minha cabeça sobre o mesmo maldito tema e me esvaziar, me preencher com qualquer porcaria que não fossem palavras, que fossem só imagens sem significado. Andei nua pela casa, me vesti com roupas estranhas, tatuei as paredes com seus dragões, rezei em línguas, discuti em francês e em alguns momentos não era eu, era ele. E eu olhava por seus olhos e me via tão magra e pálida com as cicatrizes todas aparecendo, um horror. Que se eu fosse descoberta e todas minhas ilusões aparecessem, veriam que meus ossos estão envoltos por elas e meu coração emaranhado às heras e folhagens que cresceram desordenadas. De dentro de mim eu ouvia meu choro silencioso e doía como se mil lanças me espetassem a garganta e não era eu, era ele, curvado sobre si mesmo, ora atirando gritos convulsivos angustiados, ora balbuciando palavras antigas como se alguém vivo nesse mundo pudesse entender. As palavras, eu não queria ouvir, eu não queria saber, eu queria esquecer cada maldito fonema, cada fragmento de língua, a língua, tua língua tocando a pele e queimando com o veneno do que pensei que podíamos ser.