Como o “criança viada” virou militância, motivo de histeria reacionária e um crime

Por Iran Giusti

Em 2012, eu, Iran de Jesus Giusti, criei um Tumblr chamado “Criança Viada”, nele postei fotos minhas e de amigos próximos em poses “bem pintosas”. A ideia surgiu a partir da legenda de um amigo que trocou seu avatar para uma foto na infância por conta do dia das crianças, como muita gente faz próximo a data.

A ideia era simplesmente reunir momentos fofos, tanto da minha infância quanto a de amigos e amigas. Logo no dia seguinte, o Tumblr viralizou, e muitas pessoas começaram a mandar fotos e pedir que eu fizesse legendas.

Em uma semana foram cerca de 2 milhões de acessos e logo resolvi transformar o Tumblr em um projeto sazonal, que teria postagens apenas próximo ao dia das crianças. Nesse post, no meu blog, expliquei detalhadamente os motivos, mas resumindo: piada repetida cansa e não queria que isso acontecesse.

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Cainho, um dos meus melhores amigos e uma das primeiras imagens do Tumblr

A parte boa é que, além das risadas vindas de crianças fabulosas que estão sendo crianças, e melhor, crianças que não estão nem aí para os papeis de gênero que a sociedade obriga a gente a assumir, acabou rolando um debate sobre homossexualidade na infância.

Veja bem, ninguém se importa quando fala-se sobre crianças, que “ele já tem uma namoradinha” ou então “ele é muito novo pra ter uma namoradinha” , partindo sempre do pressuposto de que aquela criança é heterossexual. A grande questão é a gente entender a heterossexualidade como um padrão e perguntar ou negar que ela tem “uma namoradinha” não implica que ela está sendo sexualizada ou então que ela tem afetividade romântica, por exemplo.

Porque então dizer que aquela criança é uma criança viada significa sexualizar a criança?

Porém a sociedade sempre faz algumas leituras das crianças e muitas pessoas LGBT sofrem muitas violências na infância e na adolescência, muito antes de ter contato com a própria sexualidade, inclusive.

Com o Tumblr eu descobri que essa LGBTfobia na infância/adolescência acomete também heterossexuais: meninos que ao crescerem se entenderam heterossexuais, mas que eram considerados sensíveis ou delicados demais, sofriam homofobia sistemática e enviaram suas fotos para mim. O mesmo aconteceu com mulheres que eram lidas como masculinizadas.

Retornei o projeto em 2013 e 2014, quando decidi encerrá-lo oficialmente. Vários perfis falsos estavam sendo criados e usando a terminologia “Criança Viada” para bullying e achei que já tinha gerado o debate que tinha para gerar.

Muitas coisas rolaram no tempo que o Tumblr ficou na ativa: algumas celebridades postaram, o Drauzio Varela citou o projeto em uma palestra, alguns estudantes usaram o termo em trabalhos universitários e a artista plástica Bia Leite me mandou uma mensagem no dia 13 de janeiro de 2013 as 11:52 mostrando o trabalho que vinha fazendo: pinturas com as fotos e frases do Tumblr. Achei massa e autorizei ela a usar as frases e o nome.

O Tumblr ficou lá quietinho, o termo se popularizou e fui seguindo a vida enquanto a obra da Bia ia sendo exposta. Até rolar a QueerMuseu, exposição no Santander Cultural em Porto Alegre. Demorei a ver o que estava rolando e quando percebi veio o baque: a obra da Bia vinha sendo colocada como apologia à pedofilia. O meu texto, o termo que dava nome ao meu projeto chamado de pedofilia.

Muito já se falou sobre o QueerMuseu, sobre as manifestações que foram realizadas à favor e contra a exposição, então não vou reproduzir aqui todos os links sobre o tema e seguir com as decisões relativas ao Tumblr Criança Viada.

Diante da repercussão decidi retornar com o Tumblr até o dia 8 de outubro, data em que seria finalizada a exposição. Além disso, no dia 8, faremos também uma mesa de conversa na Casa 1, um centro cultural e de acolhida de LGBTs expulsos de casa pela família.

24 horas após a reativação do Tumblr a conta foi suspensa:

Em uma tradução livre: Olá, nós encerramos sua conta Tumblr. De acordo com as políticas que você concordou quando a criação de uma conta Tumblr, não permitimos conteúdos inapropriados envolvendo menores. A criação de novos blogs ou contas com este mesmo assunto ou conteúdo resultará no cancelamento imediato da conta. Por favor, note que a posse e distribuição de pornografia infantil não é apenas uma violação das políticas do Tumblr, mas também é um crime muito grave, e os infratores condenados podem enfrentar penas severas, incluindo multas e prisão. Assinado Equipe Tumblr

Imediatamente fiz um post no Facebook onde pedi contatos de pessoas que trabalham no Tumblr aqui no Brasil. Descobri então que não existe mais operação no país e passei a conversar com a equipe do Yahoo Brasil, que acionou o time jurídico para dialogar com a equipe dos Estados Unidos. Depois de algumas horas o Tumblr voltou ao ar, porém em menos de 24 horas foi deletado mais uma vez.

Entrei em contato novamente e em menos de duas horas voltou ao ar, porém nada de pedido de desculpas por me enviar uma mensagem dizendo que eu estava distribuindo pornografia infantil.

Em uma tradução livre: Olá, analisamos o seu blog e determinamos que a suspensão foi um erro. Sua conta foi agora restaurada. Lamentamos que isso tenha acontecido e faremos o nosso melhor para nos certificarmos de que isso não aconteça novamente. Por favor, nos diga se há alguma coisa que podemos ajudá-lo.

Respondi o e-mail solicitando um pedido de desculpas formal.

Em paralelo à tudo isso entrei em contato com o time de pride do Facebook Brasil. Queria solicitar a verificação da página. Infelizmente ela não garantiu que a página não seria derrubada, mas mostraria um suporte da plataforma. A recusa foi quase imediata e a resposta do time foi para seguir o padrão. Na hora de apoiar a parada e criar bandeiras e filtros de apoio à comunidade LGBT ninguém demora não é mesmo?

Parti então para empresas: busquei marcas que apoiam publicamente a comunidade para que financiassem a publicação do conteúdo em um site: não queria rios de dinheiro, só o suficiente para contratar um programador e uma hospedagem. Queria principalmente o apoio de marcas e empresas que usam a bandeira do arco-íris como um produto. Também não rolou.

Decidi então entrar com um processo contra o Tumblr e o MBL, que acusaram publicamente o Criança Viada de pedofilia. O Tumblr pelo e-mail e o MBL nas 90 postagens no Facebook (contabilizadas até a publicação dessa matéria) relativas à exposição QueerMuseu e a obra da Bia Leite que conta com textos meus.

Tentei contato tanto com o Tumblr quanto com o MBL, mas até a publicação dessa matéria não tive retorno.

Em paralelo à tudo isso, dois casos me chamaram a atenção. O primeiro a carta do diretor-presidente do Mackenzie, uma instituição de ensino para o Santander, afirmando repudio a iniciativas como a exposição QueerMuseu, incluindo ameaçando a instituição bancaria .

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Em contato com a assessoria de imprensa do Mackenzie tive a seguinte resposta:

Quando perguntei se tinham conhecimento de como a nota estava em várias redes sociais, a assessora de imprensa respondeu com um simples “Não”.

Também fiquei surpreso com a presença do CEO do Santander no Fórum de Diversidade organizado pela AMCHAM, a Câmara Americana:

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No site oficial do evento não consta o nome do CEO, porém em contato com a assessoria de imprensa da AMCHAM confirmei a presença de Sergio Rial no evento.

Ainda é cedo para saber o que mais vai acontecer, porém é importante lembrar que esse é um acontecimento que diz muito sobre a forma como a nossa política, educação e cultural são tratadas no Brasil, e principalmente como as falas de empresas e marcas é muito mais uma fala do que uma política.

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