Como o “criança viada” virou militância, motivo de histeria reacionária e um crime

Iran Giusti
Sep 15, 2017 · 7 min read

Por Iran Giusti

Em 2012, eu, Iran de Jesus Giusti, criei um Tumblr chamado “Criança Viada”, nele postei fotos minhas e de amigos próximos em poses “bem pintosas”. A ideia surgiu a partir da legenda de um amigo que trocou seu avatar para uma foto na infância por conta do dia das crianças, como muita gente faz próximo a data.

A ideia era simplesmente reunir momentos fofos, tanto da minha infância quanto a de amigos e amigas. Logo no dia seguinte, o Tumblr viralizou, e muitas pessoas começaram a mandar fotos e pedir que eu fizesse legendas.

Em uma semana foram cerca de 2 milhões de acessos e logo resolvi transformar o Tumblr em um projeto sazonal, que teria postagens apenas próximo ao dia das crianças. Nesse post, no meu blog, expliquei detalhadamente os motivos, mas resumindo: piada repetida cansa e não queria que isso acontecesse.

Cainho, um dos meus melhores amigos e uma das primeiras imagens do Tumblr

A parte boa é que, além das risadas vindas de crianças fabulosas que estão sendo crianças, e melhor, crianças que não estão nem aí para os papeis de gênero que a sociedade obriga a gente a assumir, acabou rolando um debate sobre homossexualidade na infância.

Veja bem, ninguém se importa quando fala-se sobre crianças, que “ele já tem uma namoradinha” ou então “ele é muito novo pra ter uma namoradinha” , partindo sempre do pressuposto de que aquela criança é heterossexual. A grande questão é a gente entender a heterossexualidade como um padrão e perguntar ou negar que ela tem “uma namoradinha” não implica que ela está sendo sexualizada ou então que ela tem afetividade romântica, por exemplo.

Porque então dizer que aquela criança é uma criança viada significa sexualizar a criança?

Porém a sociedade sempre faz algumas leituras das crianças e muitas pessoas LGBT sofrem muitas violências na infância e na adolescência, muito antes de ter contato com a própria sexualidade, inclusive.

Com o Tumblr eu descobri que essa LGBTfobia na infância/adolescência acomete também heterossexuais: meninos que ao crescerem se entenderam heterossexuais, mas que eram considerados sensíveis ou delicados demais, sofriam homofobia sistemática e enviaram suas fotos para mim. O mesmo aconteceu com mulheres que eram lidas como masculinizadas.

Retornei o projeto em 2013 e 2014, quando decidi encerrá-lo oficialmente. Vários perfis falsos estavam sendo criados e usando a terminologia “Criança Viada” para bullying e achei que já tinha gerado o debate que tinha para gerar.

Muitas coisas rolaram no tempo que o Tumblr ficou na ativa: algumas celebridades postaram, o Drauzio Varela citou o projeto em uma palestra, alguns estudantes usaram o termo em trabalhos universitários e a artista plástica Bia Leite me mandou uma mensagem no dia 13 de janeiro de 2013 as 11:52 mostrando o trabalho que vinha fazendo: pinturas com as fotos e frases do Tumblr. Achei massa e autorizei ela a usar as frases e o nome.


O Tumblr ficou lá quietinho, o termo se popularizou e fui seguindo a vida enquanto a obra da Bia ia sendo exposta. Até rolar a QueerMuseu, exposição no Santander Cultural em Porto Alegre. Demorei a ver o que estava rolando e quando percebi veio o baque: a obra da Bia vinha sendo colocada como apologia à pedofilia. O meu texto, o termo que dava nome ao meu projeto chamado de pedofilia.

Muito já se falou sobre o QueerMuseu, sobre as manifestações que foram realizadas à favor e contra a exposição, então não vou reproduzir aqui todos os links sobre o tema e seguir com as decisões relativas ao Tumblr Criança Viada.

Diante da repercussão decidi retornar com o Tumblr até o dia 8 de outubro, data em que seria finalizada a exposição. Além disso, no dia 8, faremos também uma mesa de conversa na Casa 1, um centro cultural e de acolhida de LGBTs expulsos de casa pela família.

24 horas após a reativação do Tumblr a conta foi suspensa:

Hello,

We’ve terminated your Tumblr account. As per the policies you agreed to when creating a Tumblr account, we do not allow inappropriate content involving minors.

Creating new blogs or accounts with this same subject matter or content will result in immediate account termination.

Please note that the possession and distribution of child pornography is not only a violation of Tumblr’s policies, but it is also a very serious crime, and convicted offenders may face severe penalties, including fines and incarceration.

Tumblr Trust & Safety

Em uma tradução livre: Olá, nós encerramos sua conta Tumblr. De acordo com as políticas que você concordou quando a criação de uma conta Tumblr, não permitimos conteúdos inapropriados envolvendo menores. A criação de novos blogs ou contas com este mesmo assunto ou conteúdo resultará no cancelamento imediato da conta. Por favor, note que a posse e distribuição de pornografia infantil não é apenas uma violação das políticas do Tumblr, mas também é um crime muito grave, e os infratores condenados podem enfrentar penas severas, incluindo multas e prisão. Assinado Equipe Tumblr

Imediatamente fiz um post no Facebook onde pedi contatos de pessoas que trabalham no Tumblr aqui no Brasil. Descobri então que não existe mais operação no país e passei a conversar com a equipe do Yahoo Brasil, que acionou o time jurídico para dialogar com a equipe dos Estados Unidos. Depois de algumas horas o Tumblr voltou ao ar, porém em menos de 24 horas foi deletado mais uma vez.

Entrei em contato novamente e em menos de duas horas voltou ao ar, porém nada de pedido de desculpas por me enviar uma mensagem dizendo que eu estava distribuindo pornografia infantil.

Hello,

We’ve reviewed your blog and determined the suspension was made in error. Your account has now been restored. We’re sorry that this happened, and will do our best to make sure it doesn’t happen again.

Please let us know if there’s anything else we can help you with.

Thanks,
Tumblr Trust & Safety

Em uma tradução livre: Olá, analisamos o seu blog e determinamos que a suspensão foi um erro. Sua conta foi agora restaurada. Lamentamos que isso tenha acontecido e faremos o nosso melhor para nos certificarmos de que isso não aconteça novamente. Por favor, nos diga se há alguma coisa que podemos ajudá-lo.

Respondi o e-mail solicitando um pedido de desculpas formal.

Em paralelo à tudo isso entrei em contato com o time de pride do Facebook Brasil. Queria solicitar a verificação da página. Infelizmente ela não garantiu que a página não seria derrubada, mas mostraria um suporte da plataforma. A recusa foi quase imediata e a resposta do time foi para seguir o padrão. Na hora de apoiar a parada e criar bandeiras e filtros de apoio à comunidade LGBT ninguém demora não é mesmo?

Parti então para empresas: busquei marcas que apoiam publicamente a comunidade para que financiassem a publicação do conteúdo em um site: não queria rios de dinheiro, só o suficiente para contratar um programador e uma hospedagem. Queria principalmente o apoio de marcas e empresas que usam a bandeira do arco-íris como um produto. Também não rolou.

Decidi então entrar com um processo contra o Tumblr e o MBL, que acusaram publicamente o Criança Viada de pedofilia. O Tumblr pelo e-mail e o MBL nas 90 postagens no Facebook (contabilizadas até a publicação dessa matéria) relativas à exposição QueerMuseu e a obra da Bia Leite que conta com textos meus.

Tentei contato tanto com o Tumblr quanto com o MBL, mas até a publicação dessa matéria não tive retorno.


Em paralelo à tudo isso, dois casos me chamaram a atenção. O primeiro a carta do diretor-presidente do Mackenzie, uma instituição de ensino para o Santander, afirmando repudio a iniciativas como a exposição QueerMuseu, incluindo ameaçando a instituição bancaria .

Em contato com a assessoria de imprensa do Mackenzie tive a seguinte resposta:

Caro Sr. Iran,

A mensagem ao Banco Santander é verdadeira.

Por se tratar de correspondência privada entre dois presidentes de duas instituições privadas, esperamos seja respeitado o sigilo do conteúdo.

Não podemos desrespeitar este princípio do direito.

Sempre às ordens!

Cordialmente,

José Inácio Ramos.

Quando perguntei se tinham conhecimento de como a nota estava em várias redes sociais, a assessora de imprensa respondeu com um simples “Não”.

Também fiquei surpreso com a presença do CEO do Santander no Fórum de Diversidade organizado pela AMCHAM, a Câmara Americana:

No site oficial do evento não consta o nome do CEO, porém em contato com a assessoria de imprensa da AMCHAM confirmei a presença de Sergio Rial no evento.

Ainda é cedo para saber o que mais vai acontecer, porém é importante lembrar que esse é um acontecimento que diz muito sobre a forma como a nossa política, educação e cultural são tratadas no Brasil, e principalmente como as falas de empresas e marcas é muito mais uma fala do que uma política.

    Iran Giusti

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