Como produzir conteúdo sem ofender ninguém

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Vários temas passaram pela minha cabeça para começar a escrever aqui, a maioria deles eram relativos a comunicação então resolvi criar uma série de textos sobre como produzir conteúdo de uma forma que não seja excludente ou ofensiva. Obviamente no meio do caminho vão ter coisas óbvias e até questões que você discorda e por isso minhas redes sociais estão disponíveis para quem quiser debater e trocar idéias.

Ao contrário do material que geralmente encontramos que são recheados de termos técnicos e referencias complexas, aqui vou falar de forma simples e com base nas minhas experiências. Borá lá?


Se pode ofender alguém, reescreva

Provavelmente em algum momento da sua carreira você já se deparou com um material que não tinha certeza se devia ou não ser publicado. Na maioria das vezes o problema é só um termo, ou uma única frase.

Nessas horas o “fator vai dar merda” deve ser acionado. Caso você termine de escrever ou criar algo e pense “que bosta, o mundo tá chato demais”, é hora de sentar e refazer.

Sim, o mundo tá chato, chato pra caralho. E não adianta se fazer de polido e dizer que não, que na verdade o mundo sempre foi preconceituoso e hoje em dia as coisas estão expostas. Vivemos em um mundo novo, onde vozes, opiniões e ataques são amplificados com uma velocidade feroz. E, ainda que alguns estejam lutando pela mudança efetiva, muitos se interessam apenas em apontar erros e julgar a produção do outro.

Porém, não se pode ignorar também que o mundo, e grande parte dos nossos veículos de comunicação, agências de publicidade e produtores de conteúdo são sim muito excludentes, preconceituosos e irresponsáveis na hora de produzir seus materiais.

Por isso é preciso entender que parte do seu, do nosso trabalho, é rever tudo que foi produzido com um olhar crítico para que seja ajustado, e só então, publicado.


Quem define o que é ofensivo é o outro, não você

Se você está produzindo algo, consequentemente está criando para alguém, e é esse alguém que vai definir o que é ofensivo ou não.

Tendo isso em vista, é preciso antes de tudo identificar qual é o seu material e o seu público. Caso você esteja produzindo algo sobre a comunidade LGBT por exemplo, é preciso primeiro identificar os pormenores: procure manuais de redação sobre o tema, encontre ongs especializadas, ou apenas converse com amigos que dominem a temática.

Existem também casos menos claros, como por exemplo a criação de uma campanha onde o público alvo é masculino, mas de alguma forma as mulheres estarão sendo representadas. Nesse caso, não somente os homens devem ser consultados, mas também as mulheres. A falta dessa avaliação feminina é muito evidente nos nossos comerciais de cerveja por exemplo.

E se homem ou mulher encontrar problemas no material, por menor que seja, refaça.

Não é difícil, e ao começar a produzir esse material você deve contemplar esse tempo de consulta e de adaptação do conteúdo.


Construa seu repertório e um acervo de materiais

Com o tempo, a prática do conteúdo responsável vai fazendo parte da sua dinâmica de trabalho e um repertório vai sendo construído, mas se você notar que o processo está sendo mais longo do que o desejado busque fontes e cursos que possam acelerar a sua produção.

Uma boa opção é também ficar atentos às suas redes: caso veja a reprodução negativa de um material busque entender o que deu errado e anote. Com os erros se aprende muito.

Agora se você se deparar com um material que vem recheado de elogios separe imediatamente e guarde em uma pasta de referências, elas podem ser de grande ajuda na hora de criar seu próprio material.


Você não dá voz a ninguém, você apenas ecoa

É muito comum a gente ouvir falar sobre como uma pessoa, veículo, marca ou empresa só queria “dar voz” a certo público e é ai que começa o erro.

Nós não damos voz a ninguém, a única coisas que fazemos sendo produtores de conteúdo é ecoar voz de determinada pessoa ou grupo.

Caso você esteja criando uma matéria ou campanha sobre ou para negros por exemplos, as suas palavras devem ser mínimas. Nesse caso o seu papel é ouvir, organizar e relatar o que lhe foi dito por pessoas negras.

O mesmo vale para LGBTs, mulheres, deficientes físicos, refugiados, orientais e por aí vai.

Essa questão é abordada pelas militâncias como “lugar de fala”. Em um mundo ideal todas as agências e veículos de comunicação deveriam ter profissionais de diversas classes sociais, gênero, orientações sexuais e culturas mas na prática o que vemos é uma massa branca, heterossexual de classe média e alta. Por isso a importância em sermos amplificadores das vozes e demandas das minorias enquanto lutamos por mais diversidade nos nossos locais de trabalho.


Não tenho medo dos seus privilégios

Você pode até discordar, mas a real é que você teve e tem muitos privilégios na vida: educação formal, oportunidades de trabalho, estabilidade financeira e muito mais e isso não é problema.

A gente tem uma ideia de que privilégio é alguma coisa que se ganha de forma desleal e incorreta mas na verdade privilégio é, na maioria das vezes, só uma vantagem que você teve, ou que conquistou, sobre a maioria das pessoas.

Quando falamos em produzir conteúdo sem ofender ninguém precisamos ser muito conscientes dos nossos privilégios, pois só identificando o que temos é que vamos entender o que falta no outro, o que fere o outro, o que ofende o outro.

Então ao terminar de ler esse texto faça um exercício: liste o que você é interna e externamente. Coloque no papel sua escolaridade, profissão, renda, cor, gênero, orientação sexual e tudo mais que se lembrar.

Depois disso se pergunte como vivem os que são diferente de você, pesquise qual é a média salarial do seu estado, quantos crimes envolvem pessoas com um perfil diferente do seu, e claro, se pergunte se você gostaria de viver a vida daquela pessoa. Se você for homem se pergunte se gostaria de ter caras gritando pra você na rua todo o tempo, que te apertassem na balada, de ganhar 30% a menos que o sexo oposto.

Empatia é uma coisa muito importante para quem vive comunicação


Leia também: Política de não humilhação na produção de conteúdo

Iran Giusti é formado em Relações Públicas pela FAAP, atuou como gestor de redes sociais e gerente de projetos em agências de RP e Social Mídia e como jornalista foi repórter do canal de conteúdo LGBT do Portal iG e do BuzzFeed Brasil. Atualmente se dedica a projetos de militância LGBT e produção de conteúdos em que acredita.