Vitrola de ficha

O valentão entrou no bar com passadas firmes, determinado. Andava com os olhos arregalados e virava-se de um lado para outro. Subitamente parou, de frente a uma mesa onde estava sentado um homem diante de um copo.

- Eu não disse que você não ia parar de beber? Você é um cabra sem palavra!

Pouca gente prestou atenção naquele sujeito que entrou no bar. O ambiente, um bar em uma região de muitos cabarés, já tinha sido palco de cenas inusitadas, como a mulher que veio, gritou e arrastou o marido bêbado pra fora, a fim de aplicar-lhe uma surra. De vez em quando, alguém subia em uma mesa pra fazer discursar e ver alguém apagar por cima de copos e garrafas era algo corriqueiro.

O Bar do Tomé tinha um grande salão com velhas mesas, sujas e mal cuidadas. Ninguém conhecia o homem que havia chegado, mas o bêbado com quem ele falava era freqüentador assíduo. Costumava chegar no começo da noite e tinha o hábito de ficar contando histórias e piadas mesmo quando ninguém prestava atenção. Era fácil saber quando estava bêbado, porque passava a reclamar de tudo, da mulher, da sogra e do cachorro. Nesses dias de bebedeira, saía de lá de manhã, depois de dormir afundado em almofadas abarrotadas largadas num sofá em um canto da cozinha.

- Não vai dizer nada? Não vai se defender, cínico?

O homem falava dando safanões no ombro do bêbado, que até tentou levantar-se pra protestar, mas não segurou o corpo. Caiu sentado na cadeira e tentou fazer de conta que não era com ele. Balançou o tronco pra um lado e outro, olhou o copo vazio e pôs-se a correr os olhos pelo salão procurando o garçon.

- Mais uma, garçon!

Silêncio. O clima era tenso e ninguém ousava dizer nada, porque a cena já atraía os olhares. Num canto, um homem baixinho tentava se esconder atrás das garrafas largadas em uma mesa. O dono do bar levou as mãos à cabeça prevendo quebradeira. Não era a primeira vez que isso aconteceria.

O murmúrio despertou a atenção da cozinheira, lá no fundo do salão, até então concentrada preparando os petiscos da freguesia. Acostumada ao vozerio, às gargalhadas que se misturavam à musica da vitrola de ficha, ela logo sabia quando as coisas estavam caminhando para a desordem. Abriu uma brecha na cortina de plástico que separava o seu ponto de trabalho e pressentiu o pior. Foi embaixo da pia e pegou um pedaço de pau.

- Se esses beberrão forem brigar, acabo rapidinho com esse chafurdo.

Não se pode dizer que era preocupação à toa. O homem que entrou no bar estava determinado a impressionar. E era claro que queria dar uma lição no amigo, se é que se pode chamar assim.

O freguês encharcado de cachaça nem se tocou quando, com surpresa, todos viram o valentão subir numa cadeira e preparar-se solenemente para um discurso. Ele, que chegou sem qualquer sutileza, encheu os olhos de lágimas, tremeu os lábios, e disse com jeito de quem deixava a emoção tomar conta.

- Eu estou aqui em nome da família deste rapaz pra fazer um pedido: Ele tem que parar de beber. A bebida ta controlando a vida dele…

- É verdade! Aqui todo mundo só bebe socialmente — disse um homem magro, na mesa ao lado, tentando conquistar a confiança de quem mandava.

O bêbado alvo de toda confusão continuava alheio a toda movimentação.

- Garçon, ei Garçon! Outra dose…

Atendimento pronto e rápido, porque, afinal naquele clima de tensão, contraria qualquer um poderia precipitar a quebradeira. O garçon veio e deixou o copo quase cheio de cachaça. Fez tudo sem desgrudar os olhos do valentão, que, como se submetendo ao costume da casa, já estava em cima de uma cadeira.

- A paz de uma família não pode ser destruída pelo álcool. A mulher e os filhos desse meu amigo estão em casa, tristes esperando que eu leve ele de volta… E vou fazer isso por bem ou por mal!

Desceu e voltou ao tom agressivo de antes. Arrastou a cadeira e sentou de frente para o bêbado, a quem pegou pela camisa, puxou pra junto de si, olhou bem dentro dos olhos e o devolveu ao seu assento, com um empurrão forte.

- Cabra sem palavra!!

O valentão estava agora de pé, olhando para todos com ar superior. Dono da situação, vetor dos bons costumes. Homem de bem! Se ajeitava pra começar de novo sua lição de moral quando uma pancada forte atingiu sua nuca. Uma porrada certeira, única. Nem teve tempo de ver a cara de sua agressora, a cozinheira, que segurava com as duas mãos um pedaço de pau junto ao peito, com leve sorriso nos lábios, as gordas bochechas brilhando…

Por um instante no bar não se ouvia nada. Parecia haver apenas o eco da pancada, fora o rangido do velho ventilador de teto. No chão, o valentão debruçado, com a cara largada no piso sujo, um filete de sangue desenhando um caminho aleatório no chão.

Nem demorou muito e, na vitrola, alguém colocava uma ficha e pedia sua música. Num canto e outro, os copos iam enchendo de bebida, garrafas eram esvaziadas. Sem que ninguém mandasse, três homens vieram e arrastaram o corpo do valentão para um pé de parede. Aos poucos, o murmúrio ia aumentando, o bar ganhando de novo um movimento animado.

A cozinheira, satisfeita, voltou devagar pro seu posto de trabalho. Antes de atravessar a cortina, deu uma última olhada geral no salão. Não conseguiu esconder a alegria. O ambiente era, de novo, só alegria. Suspirou aliviada. Finalmente, tudo voltava ao normal…