O Alienista - Uma adaptação narrativa da PEC 241

Tô aqui sentada, olhando pra página em branco, pensando se é possível explicar a PEC 241 com figuras de linguagem. O exercício de usar metáfora para explicar atrocidades legislativo-financeiro-orçamentário é possível?

Comparações com orçamento doméstico? Administração de condomínio? Nenhum deles tem quantidade suficiente de personagens e insanidades possíveis de elaborar. Vamos então de Machado de Assis, tentar um realismo feito o tapa na cara que estamos levando diariamente. Desculpaê Machado de Assis, mas tá todo mundo doido mesmo.

Adianto as desculpas pela comparação vulgar. Eu sei gente, eu deveria tratar do jeito correto, mas considere doido o que bem entender, beleza? Não quero desrespeitar ninguém e nem filosofar sobre as doenças psíquicas. Podia ser uma casa de dança. Uma escola de inglês. PODIA SER LINGUAGEM TÉCNICA. Então, não me amole.

Temos então a Casa Verde, um manicômio lotado de doidos e em crise financeira. A situação atual é mais ou menos a seguinte, 500 pacientes e 100 funcionários (médicos, psicólogos, enfermeiros, fisioterapeutas, técnicos de enfermagem, funcionários da limpeza, segurança e uma equipe de professores), as contas não fecham, o dinheiro extra que tinha, acabou. É preciso fazer alguma coisa para que continue funcionando.

Cada paciente paga uma mensalidade (tributos), independente do nível da doidice ou da sua situação econômica. O tratamento é igual para todos, como explica o Dr. Bacamarte (Diretor do Hospital) sorridente e orgulhoso:

Todos pagam uma mensalidade igual para garantir uma estrutura mínima. Claro, quem quiser — SÓ SE QUISER — pode pagar um “a mais” para ter alguma comodidade, NADA DEMAIS. Sabe, para ter conforto, é preciso pagar. De resto, todos são tratados igualmente, nós garantimos.

A explicação dada é que as comodidades são pagas “por fora”, porque se fosse para todos, seria muito caro e muitos pacientes não poderiam pagar, o que seria injusto, correto? Desse jeito “garantimos que os 490 pacientes pobrinhos” recebam o tratamento mínimo (serviços públicos), o resto é luxo para poucos.

O Zé Doidinho é pobrinho e dorme sem lençol, fazer o quê? Mas tem uma cama pra dormir. A Dona Bia Glória dorme num quarto sozinha e tem enfermeiro só pra ela, porque paga por fora, ela pode, fazer o quê?

Cá entre nós, um passarinho contou que a Dona Bia é paciente antiga e paga só 50% da mensalidade (isenção fiscal) e uns quebrados são pagos diretamente pro profissionais que a atende ou dividido entre os chefes. Parece que ela é irmã da cunhada do primo do chefe da psiquiatria, que ajudou muito na última obra que teve na Casa Verde. Faz parte né, a vida é assim. Vão negar um confortozinho pra Dona Bia? Ela até conversa com os doidinhos quando tá de bom humor.

Vamos às resoluções da crise: o Dr. Bacamarte está em reunião com os chefes dos setores e principais médicos para decidir como vão fazer para manter o lugar funcionando, agora não existe mais nenhum terreno pra vender e o aumento de salários dos chefes dos setores tava contando com esse recurso. Além disso tem que terminar a obra da sala de fisioterapia e de exames. De onde que eles vão tirar esse dinheiro? Parece que já aumentaram as mensalidades três vezes esse ano!

Poderiam cancelar os descontos na mensalidade de alguns pacientes, esse dinheiro já ajudaria bastante.

Eta. Parece que esse assunto é proibido. O Dr. Bustamante arregalou os olhos e disse que seria uma injustiça com a Dona Bia Glória.

“Imagine? Porque iríamos tirar os benefícios da Dona Bia? Ainda tem onde cortar, temos que gastar de forma mais eficiente. Podemos dar menos remédios para os pacientes, diluir o material de limpeza para durar mais, podemos chamar alguém para ficar com a sala de fisioterapia, terminar a obra e explorar como clínica. Estávamos mesmo precisando desse susto, ninguém economizada nada! A partir de hoje fica instaurado um TETO de fastos. A partir de agora nenhuma das despesas para manter o funcionamento do manicômio (despesa primária) pode ser aumentada, temos que apertar os cintos. E digo mais, assinem aqui esse contrato, essa medida tem que durar os próximos 20 anos”.

Foi aqueeeele reboliço. Todos gritando e questionando. Até que o Diretor deu um grito e disse, uma pergunta por vez, vamos lá:

  1. E a inflação? As coisa ficam mais caras todo ano: “Não se preocupe, os valores serão corrigidos pela inflação, ok?”
  2. E as dívidas que temos?Os juros podem aumentar! “Gente, deixa eu esclarecer. Despesa para manter o manicômio é o geralzão, funcionário, manutenção, comida, compra de remédio, material de limpeza. Não se preocupem, que não tá nesse bolo os pagamentos de juros das nossas dívidas. Se aumentarem os juros, não tem problema, esses não obedecem o limite, tá ok? Por falar nisso, Fulana, você já fez o pagamento dos juros do empréstimo que a filha da Dona Bia, tão gentil, fez pra gente?”
  3. E os funcionários que o sr. me prometeu? Eu preciso de gente pra me ajudar na limpeza! “Não se preocupe, se for muuuito necessário, contratamos, mas vamos ter que diminuir as despesas. A ideia de diluir o material de limpeza, não é boa? Ou podemos dispensar a segurança. contratar um terceirizado que aceite receber menos.. Não se preocupe, pra tudo temos um jeito”.
  4. E se chegarem mais pacientes, o que fazemos? Tem os quartos dos pacientes que recebem desconto (isenção) e dormem sozinhos, mas a gente vai precisar de mais material, Doutor. “A gente dá um jeito, onde comem dois, comem três, deixa a pobre da Dona Bia em paz.. vocês tão implicando com ela, ein”
  5. Mas existe um mínimo de remédio pro pacientes, Dr.! Se chegar mais paciente, tem mais dinheiro (arrecadação tributária), então temos que ter a quantidade de remédio (gasto com saúde) proporcional (mínimo constitucional). “Dona Fulana, pela nova regra não. O mínimo é o mínimo desse ano corrigido pela inflação, não importa quanto de dinheiro ou paciente a gente tenha, não discuta”.
  6. Porque tanto tempo? 20 anos é demais? Vamos apertar os cintos enquanto estamos em crise, se diminuirmos as doses de remédio por muito tempo, os nossos pacientes podem ficar muito mal. Se o dinheiro voltar, podemos melhorar as condições da clínica! Eu tenho fé que o dinheiro vai voltar, mais pacientes pagando mensalidade. Vamos ser otimistas! “Dona Fulana, pare de ser otimista, se o dinheiro voltar nós vamos ter que guardar, ou dar mais desconto pra pacientes como a Dona Bia. Não se preocupe, com o tempo os pacientes se acostumam com a dose de remédio menor, e se faltar, eles dão um jeito de comprar”.
  7. Pera lá, se são 20 anos, é melhor dar o aumento dos técnicos de enfermagem que o sr. tinha prometido pra esse ano. Os médicos (ministros) receberam um aumento de 40%, agora é nossa vez. “ Não ouvi muito bem, próxima pergunta por favor…”.
  8. Por que existe uma previsão aí, escrita em letras pequenas, que os créditos extraordinários não obedecem ao teto. Não foi com esse nome que os enfermeiros (juízes) receberam um auxílio moradia?Não pode aumentar o salário, mas poder dar auxílio?

Prezados, parem de me enlouquecer, vocês já assinaram, são 20 anos… nada mais a dizer.

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