Sobre porque eu decidi não trabalhar mais em Porto Alegre

Eu me sentia mais ou menos assim: dirigindo uma coisa perigosa, até que a coisa decidisse que o jantar era eu
  1. Um dia, no escritório, esqueci uma palavra. Sei lá, esqueci como se diz, comecei a mostrar com as mãos, fazer barulhos (“guria, aquele troço que comeram naquele filme com nome estranho, putz!”), essas coisas. Minhas duas colegas concluíram que eu estava me exibindo (?) para “mostrar que falava Inglês”
  2. Depois de quase um mês trabalhando em uma empresinha hype de Moda como planejamento, meu chefe me chama na sala dele. “Olha, não estou satisfeito com o teu trabalho mas, sei que para ti é importante continuar aqui, mesmo para o teu currículum, tu estás ‘começando’, posso ver. Minha sugestão é que continues aqui de graça (!) até que pegues o jeito, pq não tenho tempo para treinar uma pessoa que deveria saber o que faz” (?)
  3. Depois de entregar um job que varei a madrugada para fazer (aquelas coisas de “o cliente precisa para amanhã!”), a empresa contratante me diz que não era o que ela queria. Ótimo, não fazemos mais nenhum trabalho depois deste. “Ah, mas vou ter que atrasar teu pagamento, preciso ver se o cliente aceita!” Eu: beleza, vamos aguardar. Pagamento sai com um mês de atraso, com cara feia e tudo, depois de muita cobrança. Pouco tempo depois, a empresa me procura de novo, para outro job. “Olha, como teu trabalho a última vez não foi satisfatório, eu preciso que faças este por menor valor”. Não aceitei, apesar dos grandes protestos da empresa em me passar “esse favorzão”
  4. Trabalhando em outra empresa de Moda, meu chefe faz uma reunião de “resultados”, onde cada pessoa é criticada em mesa redonda. Eu, como sempre fiz parte de diretoria/gerência, entro na crítica. Passada a reunião, convido meu chefe para tomar um café, explico a situação. “Olha, a gente não pode criticar membros da equipe publicamente. É humilhante, anti-ético e, pense bem, que autoridade eu vou ter perante a equipe agora?” Por conta deste comentário crítico a um superior, fui obrigada a pedir demissão pouco tempo depois.

Essas são algumas mazelas profissionais que passei na minha cidade Natal. Algumas, não todas, senão ia escrever um livro por conta de todas as vezes que me pediram para trabalhar de graça, fizeram uso da mais-valia no meu trabalho, me chantagearam para ficar trabalhado até mais tarde (“tenho 15 outros CVs esperando para entrar nesta empresa”) ou me fizeram trabalhar durante férias/ fim de semana/ feriado. Eu achava que isto era normal. Eu achava que ser instruída para saber numa entrevista se a mulher que eu contratava tinha filhos pequenos, era negra, filha de quem, tinha nome de pessoa pobre (eu JURO que tive que me livrar de boas candidatas por causa do nome!), ou até saber onde a pessoa morava (“pessoa que mora em vila não presta”) eram regras de todas as empresas e, por isto, não podiam ser questionadas. O problema é que eu também acabava entrando neste crivo e eu também era duramente criticada. Se engravidou é porque “deu o golpe da barriga” ou quer ficar encostada. Se está com problemas em casa, deixe o problema na rua, como se no trabalho a gente pudesse se desassociar de quem a gente é realmente.

Existe um certo prazer em humilhar. Mais o que isto, exercer sobre o outro um poder de decisão sobre aquilo que a gente não decide, como cor da pele, sexualidade, situação financeira ou de família. As empresas se tornam um microcosmo onde certas leis são permitidas, mesmo que socialmente já tenham sido banidas há muito tempo. Um dia, alguém comenta que gostaria de contratar apenas “brancas e loiras” para uma ação. Outro, acredita que pode pagar o quando ele acha justo (não quanto o mercado dita), porque você deveria agradecer o trabalho que tem — até que concluem que podem não te pagar, simplesmente, porque a empresa está acima de você e o seu trabalho é “muito prazeroso”. Depois de ver destas situações tão seguidamente, eu desisti de que alguma coisa fizesse sentido.

Não sei como as coisas estão agora (faz 3 anos que não moro no Brasil) mas, TODAS as semanas alguém me procura para sair do país. Eu juro que entendo quando as pessoas me dizem que precisam trabalhar 60/70 horas por semana para segurar as contas. Esta é outra forma de humilhação, quando você tira o simples direito de aproveitar o tempo livre. Critico muito os workaholics ou aquelas pessoas que adoram parecer ocupadas — um dos meu melhores chefes me dizia que, se você nunca consegue terminar suas coisas a tempo, você era desorganizado, não “ocupado”.

Infelizmente, aprendi fora do país a fazer entrevistas por telefone, porque é contra a lei perguntar qualquer coisa de cunho pessoal (“vc é casado?” “tem filhos?” “que idade eles têm?” “mora com quem?” “onde?”) e que não podia discriminar ninguém, seja sexo, religião, tatuagem, cor do cabelo, jeito de se vestir, sobrenome, nada. Currículuns com foto são proibidos também. Sim, entrevistas aqui vão muito além daquelas dinâmicas de grupo, exigindo maior sensibilidade e objetividade do empregador. Por incrível que pareça, o método dá tão certo que até hoje eu só vi uma pessoa sendo demitida por justa causa.

Acho que a mudança começa na gente. Não vejo solução enquanto houver empregador que desvaloriza o trabalho do outro para conseguir baixar o seu preço às custas do empregado — ponta final da cadeia — para ter mais lucro. Não acredito em um sistema onde humilhar, maltratar, utilizar o velho “carteiraço” ou simplesmente puxar aquele: “eu sou dono desta porra toda” valha alguma coisa. Não existe empresa sem empregado, a não ser que você trabalhe totalmente sozinho. Enquanto houver empresa assim, bons profissionais vão continuar a ir embora. Como eu fui. Como um batalhão de gente foi e vai. Até que não sobre mais ninguém ou a sua empresa quebre. O que vir primeiro.