Rui Ricardo Diaz contracenando para a peça A Hora e a Vez

A hora e Vez

“Sorte nunca é de um só, é de dois, é de todos… Sorte nasce cada manhã, e já está velha ao meio-dia.” Na vida de Augusto Matraga, a sorte nunca foi bem-vinda. Em vez dela, sobrou apenas uma oportunidade de mudar de vida e ver sua hora chegar. O que é exatamente essa hora? Não há relógio ou calendário que diga. Sozinho no palco, o ator Rui Ricardo Diaz é um afluente que recebe todos os personagens do conto de Guimarães Rosa, desaguando na imaginação do público. Do encontro desses dois rios — ator e público — o texto caudaloso do autor mineiro banha até o mais seco coração e o leva para as profundezes de um sertão que jamais tem fim. “A Hora e Vez” é um espetáculo raro, cujo maior poder está em dar forma, corpo e voz às letras singelas de Guimarães Rosa. Não é trabalho fácil. “A adaptação foi acontecendo lentamente”, conta Rui. O penoso processo não mostra cicatrizes. Ao contrário, o que se vê no palco é uma intimidade plena com o material poético dele, e uma interpretação que faz mais do que homenageá-lo. Rui Ricardo Diaz é Augusto Matraga. Sorte? Não. Se ao meio-dia a sorte está velha, o talento desse grande artista é uma alvorada no palco. Itaucard falou com ele sobre a feitura do espetáculo. Olha só!

O ator Rui Ricardo Diaz em cena no Teatro do Núcleo Experimental

Itaucard: Conte mais sobre sua trajetória.

Rui Ricardo Diaz: Eu trabalho com teatro desde a década de 90. Sempre trabalhei com teatro, cinema foi algo que surgiu nos últimos 6 anos, adoro fazer. Acabei de fazer dois trabalhos. Antes de qualquer coisa, eu trabalho com teatro e volto pra ele, é um lugar onde você tem alguma segurança de criar trabalhos como estes da Cia. do Sopro, fruto de anos de trabalho.

Itaucard: Como foi a preparação do espetáculo?

Rui Ricardo Diaz: O “A Hora e Vez” é fruto do Laboratório Dramático do Janu, queria fazer um Dostoiévski, queria fazer “Uma História Lamentável”, ele disse pra gente fazer um laboratório, isso durou quatro anos num tempo dilatado. Passei por vários autores nessa história, fiquei sete meses no Dostoiévski, depois peguei um Hamlet, depois peguei um Allan Poe, fiquei uns dois anos com o Januzelli e resolvi mudar de texto e peguei o Guimarães para ver no que dava. Tinha feito um trabalho com Cacá Carvalho, que tinha começado um trabalho que foi o “Grande Sertão Veredas”, adoro Guimarães e retomei a história com ele. No primeiro dia que peguei o texto com Januzelli, ele disse que daria uma peça.

O Guimarães é uma ópera, mais do que sertaneja, brasileira que dialoga com qualquer literatura do mundo, tanto é que foi traduzida pra uma série de línguas. O processo durou dois anos, fez uma temporada boa de público, boa de críticas. E estamos nessa temporada aqui especial. A ideia da Cia. do Sopro é construir trabalhos um pouco mais, não diria nem artesanais, mas a gente pode colocar nossos desejos para fora, por enquanto nossos desejos têm dialogado com uma plateia um pouco menor mesmo.

A estrela da peça “A Hora e a Vez”, Rui Ricardo Diaz

Itaucard: O que você trouxe de seu para esse espetáculo, do acúmulo da sua carreira?

Rui Ricardo Diaz: Tem muito meu, nem eu sabia. Quando eu peguei a “A Hora e Vez”, nem tinha me dado conta de algumas questões, mas o Janu dizia que tem uma coisa aí e a gente foi trabalhando. No meio do processo, uns seis meses depois é que caiu a ficha, falo com toda a sinceridade. Eu sou mineiro, o Guimarães era um autor mineiro e basicamente sobre escreveu o sertão mineiro, que, pra mim, é o Nordeste. E eu fui percebendo aos poucos que muito dessa mineirice que começou a dialogar, eu entendia aquelas expressões, ele tem todo aquele jeito de escrever. Eu vim pra São Paulo com três anos, não conheço tanto Minas, mas existe em todos nós uma memória do sangue, que a gente carrega dos nossos ancestrais, dos nossos avós. E meu pai é muito mineiro, quando o Janu o conheceu disse “É por isso”. Tem muito de mim, da minha família, nas expressões que fui estudar e quem me ajudou muito nas expressões foi meu pai, que conhecia tudo. O Guimarães fala muito de uma língua roseana, mas é claro que ele, além de ser uma figura intelectual, era muito inteligente, caminhou ali pelo sertão brasileiro muito atento e foi captando muito dessa linguagem.

Itaucard: Qual principal desafio que você teve nesse espetáculo?

Rui Ricardo Diaz: A resposta do espetáculo é incrível, a peça dialoga muito com o espectador. Isso é uma coisa muito boa, quando a gente consegue fazer um trabalho que de alguma maneira comove. O Janu fala muito isso: que para tocar o outro, você, primeiro, precisa se tocar. Precisa encontrar em você regiões e lugares que tocam. A ideia de comover nada mais é do que mover junto, então, como é que a gente move. Esse trabalho eu sinto que ele dialogou muito comigo e por isso dialoga muito com os espectadores. Um grande desafio é fazer sozinho, como disse, é uma ópera, então foi muito difícil fazer sozinho como um monólogo.

A sensação é que a Cia. do Sopro é como um sonho pra gente, que é a possibilidade de construir o trabalho que o intérprete seja soberano, é um desejo, não sei se consegue. Mas é um desejo, pode ser que a gente consiga chegar à plateia, existe esse desejo na soberania em que o ator busque nele lugares que nunca tinha encontrado. Tudo é tão corrido, maluco, a gente decidiu dedicar tempo aos trabalhos que a gente constrói aqui na Cia., para que a gente tenha a possibilidade de buscar essa soberania, para trabalhar de uma maneira profunda. Para ter isso, precisa de tempo, é muito difícil se dedicar muito tempo a um mesmo trabalho, fazemos outros tantos, porque a gente precisa pagar as contas, mas o que estamos querendo é construir um trabalho onde a gente tenha tempo para desenvolver. Existe qualidade em trabalhos construídos em pouquíssimo tempo, que são belíssimos. Talvez o próximo a gente construa em menos tempo. O que a gente tem escolhido fazer demanda tempo, com muitas referências e muitas obras, é difícil, é dramaturgia, ou você para e escreve um texto ou faz como a gente fez, vai para a sala de ensaio, senta, para, pega um trecho e desenvolve, depois pega outro e desenvolve. Embora seja uma adaptação, também demandou estudo e muita dramaturgia, isso demanda tempo.

O ator Rui Ricardo Diaz em ação no Teatro do Núcleo Experimental

Itaucard: Guimarães Rosa tem uma linguagem complexa e depende de diversos elementos, como você conseguiu trazer tudo isso para um monólogo?

Rui Ricardo Diaz: Eu acho que um caminho que a gente vem traçando de buscar na literatura os materiais todos para a dramaturgia. Cada coisa que a gente lê dá algo. Já fiz Rubem Fonseca e, por exemplo, ele tudo que eu leio acho que dá uma peça. Tem sim uma dificuldade de transposição, quando o Janu disse para fazer uma peça aqui pensei “Está maluco, vou ter que convidar mais gente”. Passei por vários momentos de crise, de pensar em como resolver as coisas, mas o tempo foi dizendo como fazer. O conto de “A Hora e Vez de Augusto Matraga” é um conto da obra “Sagarana”, escrito na terceira pessoa, então tive que trazer para a primeira pessoa, tivemos um processo de adaptação construído em parceria, cada um traz alguma coisa. O processo é conjunto, fui trazendo materiais e ele outros. Não foi fácil, por isso demoramos, ou ganhamos anos fazendo isso. A linguagem e prosódia roseana eu fui encontrando lentamente, não sei nem te dizer como, fui encontrando talvez por essa memória de família. A adaptação foi acontecendo lentamente, assim como a linguagem. Tudo que ele escreve é lindo e de vez em quando a gente teve que fazer escolhas difíceis.

Itaucard: Vem muito fã de Guimarães Rosa aqui?

Rui Ricardo Diaz: Tem sim, tem gente que já assistiu 20 vezes. Tem espectador que vem todo domingo, é a missa dele. Eu diria que tem mais jovens pro adulto, esses dias veio uma pessoa que assistiu mais de oito vezes.

Tem o mérito da própria literatura de Guimarães, que é complexa e mesmo quem gosta e conhece com profundidade descobre lugares sempre. São obras para ler a vida inteira, para ler e reler, sinto que os espectadores vêm na ânsia de descobrir coisas.

Cena da peça “A Hora e a Vez” com Rui Ricardo Diaz

Itaucard: Planos pro futuro?

Rui Ricardo Diaz: Estamos cheios de materiais que a gente quer trabalhar, queremos ir pro Rio. Acabei de fazer um filme chamado “Blitz”, roteiro do Bosco Brasil, direção do Renê Brasil. Fiz uma série de 10 episódios para um canal por aplicativo, feito para celular, tudo gravado pelo celular com superequipamentos para isso, equipe grande. Serão lançadas 25 séries para diversos países, são 10 episódios de 10 minutos. E, em setembro, a série “Supermax”, na Globo, de terror, direção do José Alvarenga.

Itaucard: Mande um recado para o pessoal que ama internet e convide para o teatro.

Rui Ricardo Diaz: Eu acho que nós vivemos num momento incrível de tecnologia e de comunicação. É indiscutivelmente arrebatador, você consegue se comunicar com qualquer pessoa em qualquer canto do mundo faz tempo. Todos esses veículos de comunicação que temos, Facebook, Twitter, Instagram, são geniais, funcionam de uma maneira incrível, posso acessar tudo da maneira que eu quiser. Eu mesmo não tenho Facebook, nada, por incrível que pareça, mas eu acho genial, nossa cia. tem e eu vejo como aquilo reverbera. Dito isso, de fato é encantador, mas eu acho que tem uma experiência que jamais será substituída que é o teatro, como toda experiência artística, como ler um livro que toda vez que leio estou completamente envolvido por aquelas pessoas e estou construindo a imagem junto com o autor, cada um faz a sua imagem da roupa que o cara veste, do jeito que anda. Como o cinema, não tem como viver sem o cinema, uma exposição de arte é uma coisa única. E o teatro, diante de todas essas linguagens, o teatro tem essa questão que o instrumento que você vai ver em cena é o próprio homem, isso eu acho que é uma experiência inigualável. Se eu posso dizer algo para essa rapaziada da internet que dialoga e que domina essas ferramentas de comunicação como ninguém, que venham assistir ao nosso trabalho e compartilhem o teatro que existe em São Paulo, que tem espetáculos lindos. Venham assistir aos nossos espetáculos e usem esses veículos para chamar os amigos.

A peça “A Hora e Vez” está em cartaz no Teatro do Núcleo Experimental, em São Paulo. Cliente Itaucard tem direito a 50% de desconto no ingresso: http://bit.ly/AHoraEAVez
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