arFernando Silveira em cena na peça Fernando Pessoa Nu Espelho

Fernando Pessoa Nu Espelho

“Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. A frase de Fernando Pessoa simplifica sua extensa obra. De alma grande, o poeta português se multiplicou em Ricardo Reis, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e tantos outros nomes que escondiam seu rosto, mas jamais sua sensibilidade poética. Protagonista do espetáculo “Fernando Pessoa Nu Espelho”, o ator Fernando Silveira espelha a obra do autor até no nome. Fernando e Fernando se misturam no palco de modo que tornam-se um só corpo, mas habitado por muitas almas. “Tem muita gente que diz que não sabia que poesia poderia ser assim. Porque a poesia foi mesmo feita para ser lida e quando você transfere para o teatro, tem que quebrar essa métrica e talvez transformar a poesia em prosa e tirar das entrelinhas esse entendimento”, conta o ator. Poesia e teatro são formatos diferentes para expressar o amor, a dor, o calor, o autor e o ator. As rimas resumem as sensações. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena” não é um mantra de poetas, mas um indicativo cotidiano do poder da arte. Fernando e Fernando sabem disso. Nós também.

Nesta entrevista exclusiva, o ator conta um pouco do processo de viver o poeta.

Ator em cena no palco do Teatro do Ator

Conte mais sobre sua carreira, como você iniciou no teatro.

Sou de Minas Gerais, vim para São Paulo em 1989 e estudei teatro na Escola Célia Helena, me mudei para o ABC paulista e fiz Fundação das Artes. Já vinha de teatro amador em Minas desde os 18 anos. Terminei o curso na Fundação das Artes em 1997, desde então trabalho e vivo, graças a Deus, da minha profissão, animo até velório, mas eu vivo. Faço teatro corporativo, sou muito ligado na arte corporativa também. Montei a Companhia Literarte, em 2002, com o intuito de levar a literatura ao teatro. A literatura diz muito com pouco, a poesia é a massagem da alma. A galera jovem que está aí, quem nunca escreveu uma poesia? Quem nunca teve um desamor na vida e pega a agenda e escreve. Já fiz espetáculo “As Pessoas de Drummond”, já fiz “Noivas.com”, fiz “Santos Dumond”, em homenagem ao centenário. Fiz muitos monólogos para falar do lado da revolução sexual dos anos 1960, 1970, foi um processo de despir para falar da alma, tem canal no YouTube, chama-se @Fernandoartista. Eu faço muita coisa porque o mundo da arte é assim, eu faço algo hoje e amanhã o mundo muda e eu preciso tentar acompanhar. Estou muito ligado à poesia. Tem muitos poetas na fila e espero ter saúde para fazer, já fiz Cecília Meireles, Vinicius de Morais, Mario Quintana, Cora Coralina.

Como foi que começou seu interesse pelo Fernando Pessoa?

O Fernando Pessoa foi o poeta das crianças, da juventude, eu me apaixonei. Eu fico pensando em várias montagens. Já é a segunda versão. A primeira vez eu fiz “Fernando em Pessoas”, fiz 500 apresentações e foi bem legal.

E qual a diferença para esse segundo espetáculo que está em cartaz?

Nesse espetáculo, o que tem de diferente em tudo que já fiz foi a dedicação. Não que não tenha me dedicado nos outros, mas eu contratei Mário Goes, um diretor jovem que ganhou concurso no festival em Cuba, ele deu uma cara jovem e mais dinâmica para o espetáculo. Não temos a intenção de dar aula de literatura, de imitar Fernando Pessoa, mas sim de pegar essa essência do eu para mim. O Fernando Pessoa se esterilizou muito, então ele se perdeu um pouco dele. Acontece comigo, por exemplo, que sou ator, se você não tomar cuidado, você passa a vida vivendo personagens. Na verdade, todos nós passamos a vida vivendo a vida e não sentindo a vida. Quem eu sou? Que alma eu tenho? E essa é que é a pegada do espetáculo. No outro, não, tinha preocupação mais cronológica da vida, quando ele foi para a África, quando voltou para Portugal, a relação com a ditadura de Salazar. Pego muito o Alberto Caeiro, que é o mestre de Fernando Pessoa, e é meu mestre, porque eu vivi no campo. Tem uma mistura de mim. O Fernando Pessoa diz assim “Eu nunca guardei rebanhos”, mas eu guardei.

Ator encarna o poeta Fernando Pessoa

Fernando Pessoa tem vários heterônimos. Explique a diferença entre heterônimos e pseudônimos.

Muitas pessoas confundem mesmo. Pseudônimos é quando uma pessoa cria um nome falso, tipo, eu, Fernando, vou passar a chamar João. Agora heterônimo é como Fernando Pessoa fez, criou personagens com data de nascimento, criou como veste, anda, fala. Ele vivia esses personagens, hoje tem estudiosos que dizem que Fernando Pessoa teve mais de 100 heterônimos, teve ingleses, mulheres, franceses. Dizem que com oito meses de idade já entendia das letras, com cinco anos começou a escrever cartinhas para ele mesmo, ele saía dele para se ver de fora, quando ele era adolescente, começou a se achar muito feio e magro e começou a inventar a Maria José, que era corcunda, com problema físico, ele não se aceitava diferente, então escrevia como se ela fosse ele. Nessa confusão, quando ele estava com 40 anos, ele morreu em 1935 com 47 anos, ele se perdeu um pouco, já tinha entrado na bebida, no ópio, ele tentava se resgatar.

E neste espetáculo tem só o heterônimo Alberto Caeiro?

Temos bastante Alberto Caeiro, mas tem Fernando Pessoa, Álvaro de Campos e um pouco de Ricardo Reis, que é quando vira a chavinha e chuta o pau da barraca, maquinismo, fala da modernização, fala da gente. Estamos sendo consumidos pela tecnologia e modernização, se você não tomar cuidado, você se perde de você mesmo. Tem tudo isso, tem a construção da cidade grande, esse barulho de cidade grande delicioso que você não consegue ficar sem. Você não consegue ficar sem um celular, sem um selfie. Chega uma hora que você tem que olhar para o espelho e dizer: “Mas e eu? O que eu sou, que alma eu tenho?”. “Meu corpo é máquina de sonhar, só que o sonho tem suas leis”.

Foi difícil transpor a poesia para a cena? Tem dificuldade nisso?

É difícil porque é um mosaico, não tem um começo e meio, embora eu tenha na minha cabeça. O espectador tem que levar para casa esse entendimento. Em uma hora, eu tenho que decodificar tudo isso e jogar para ele, para que não fique perdido. Foi um trabalho muito difícil, com o Mário, com o pessoal da luz e da música, todo esse quebra-cabeça, uma pecinha que saí fora já confunde, muda tudo. Eu sinto que as pessoas entenderam porque dá uma sacudida.

O que o público tem falado sobre a peça?

Eu distribuo um panfleto no final onde a pessoa pode escrever observações, tenho caixas e caixas, às vezes respondo. O que recebo é que o espetáculo fez pensar, que é lúdico e bacana. O mais interessante foi quando me falaram que o espetáculo é poesia em 3D. Teatro é uma arte em 3D mesmo. Uma senhora que veio duas vezes e me disse que gostou da luz, da emoção, legal gostar da emoção, né? É uma peça emocionante, tem um sarcasmo nessa questão de Álvaro de Campos, na questão de religiosidade.

Público considera a peça “poesia em 3D”

Você acha Fernando Pessoa atual para o contexto de hoje?

Muito. Tem um poema que ele diz “Na hora do soco eu me abaixei, quem nunca levou porrada”, isso escrito há cem anos. Tem umas coisas bem atuais. Nesse espetáculo, tem muita coisa que a gente não mudou muito, tem uma fala “atores de orçamentos financeiros falsificados”, quer coisa mais atual? Tem outra que é “membro de clubes aristocráticos”, “presença das burguesinhas mães e filhas que andam às ruas com fim qualquer”, a gente acrescentou “geralmente falando aos celulares ou aos seus jatinhos particulares”. A gente deu uma atemporada, mas ele é atemporal. Isso facilita muito e tem várias brechas para seguir.

E as pessoas que de repente não conhecem Fernando Pessoa e assistem ao espetáculo, como reagem?

Tem muita gente que diz que não sabia que poesia poderia ser assim. Porque a poesia foi mesmo feita para ser lida e quando você transfere para o teatro, tem que quebrar essa métrica e talvez transformar a poesia em prosa e tirar das entrelinhas esse entendimento, isso que acho bacana.

Dá para ver o brilho no olho que você tem pelo teatro, o que você passaria para quem não tem costume de frequentar peças?

Para mim, a magia maior é a verdadeira democracia. Hoje com a liberdade de expressão e talvez a imprensa escrita, televisiva e radiofônica não tenha a mesma liberdade que o teatro tem. Aqui nesse palco, você pode falar o que você quer, com responsabilidade, porque você está formando opiniões, mas é muito interessante porque você dá um recado dentro dessa caixinha mágica e sabe que na plateia há pessoas de todos os níveis e classes sociais e cada uma vem buscar alguma coisa que não sabe o que é, então você tenta unificar isso com uma informação. Como eu digo no espetáculo: “É fácil trocar palavras, difícil é entender o silêncio”, “é fácil beijar o rosto, difícil é chegar ao coração”, “fácil dizer eu tô com você e te amo”. Eu fico com o pé atrás quando faço para criança, ela vai embora e não gostou. Para mim, o palco é uma responsabilidade. Nunca uma cena é igual a outra, muda por vários motivos, a plateia está na sua mão e você está na mão dela. Tem dia que você não consegue passar, mas você tem que fazer por onde, se não houver a empatia e a comunicação, melhor ver televisão.

Ator encara o palco como uma responsabilidade

Qual sua análise do teatro atual?

Podia ser como futebol, as pessoas brigarem para entrar, seria maravilhoso, como um parque de diversão, que vai ônibus lotado. Falam que teatro é caro, mas quanto custa o ingresso de futebol? Quanto custa uma cerveja e os barzinhos estão cheios? Eu vejo nas campanhas políticas, todo mundo fala de educação, mas e cultura, não vejo nenhum projeto? Tem vários teatros por aí, mas e burocracia para chegar. Fiz uma vez uma apresentação no Céu. E cabe ao artista mostrar o trabalho, tem muito que espera bater na porta. Esse teatro aqui, bem no centro na praça Roosevelt, tem bastante opção, aqui é a feira do teatro. Assim como vai na Rua 25 de Março comprar bugigangas, você vem aqui ver teatro. É acessível e concorrido para pequenas companhias.

Como é trazer o poema para a expressão corporal?

O corpo é máquina de sonhar, quando você está triste, seu corpo representa isso, quando você está bem, seu corpo tem outra postura. O corpo nesse espetáculo é importante porque eu tenho adereços, não tenho figurino composto, conto a história a partir de um girassol que vira uma árvore, um guarda-chuva que vira uma pá e lenha na fornalha.

Então ano que vem mais um novo espetáculo de Fernando Pessoa?

Para o ano que vem, quero fazer mais, tem muito Fernando Pessoa que está na fila, quanto mais mexe nas obras, que é um labirinto, mais você vai se descobrindo. Tem um poema que chama “Oração”, que não consegui colocar e já vou colocando na lista, vou juntar tudo isso e ver no que dá.

A peça “Fernando Pessoa Nu Espelho” está em cartaz no Teatro do Ator, em São Paulo. Cliente Itaucard tem direito a 50% de desconto no ingresso: http://bit.ly/FernandoPessoaItaucard
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