“Notícias Populares”, da cia Os Melhores do Mundo.

Os melhores do mundo

Foi no teatro El Dourado, em São Paulo, que Itaucard conversou com Rodrigo Fernandes e Jovane Nunes. A dupla faz parte do espetáculo “Notícias Populares”, da companhia de comédia “Os Melhores do Mundo”. E são mesmo. Passeando por vários estilos, o riso nunca deixa de ser o protagonista do palco. Confira o bate-papo =D

Itaucard: O que essa temporada tem de diferença das outras?
Jovane Nunes: Esta é uma peça entre as 22 peças do nosso repertório. Não fazemos mais as 22, mas fazemos 12, entre elas “Hermanoteu na Terra de Godah”, “Misticismo”, “Sexo, a Comédia”, enfim.
Essa peça tem 18 anos que foi escrita, mas como todas as nossas peças são sempre reelaboradas, a gente vai sempre atualizando texto. Nosso texto tem muito a ver com crônica, somos cronistas e falamos de comportamento, de economia, de futebol. Essa temporada particularmente é muito especial porque comemora 10 anos que o Joseph Climber estourou na internet e virou um sucesso nacional e mundial. Desde que ele se tornou um viral na internet, nós temos aproveitado disso, viajamos o Brasil. Estávamos em cartaz no Procópio Ferreira e fomos ao Programa do Jô e, por essa entrevista, foi pra internet e estourou. Fizemos todas as capitais, cada semana era uma cidade diferente. 
O grupo ganhou fama nacional e internacional porque isso nos levou para Portugal e Estados Unidos para temporada. Com esses dez anos, a gente quis fazer uma temporada que é mais do que normal, não somos banda de rock, mas a gente quis fazer. Estamos aqui no Eldorado, nesse teatro espetacular e superconfortável, aqui em São Paulo. Uma cidade que nos abraçou desde o começo. A primeira vez foi no Teatro Folha, no Procópio Ferreira, rodamos com plateia de 3 a 4 mil pessoas.

Jovane Nunes

Itaucard: Momento atípico do Brasil reflete no humor? O público e vocês estão sentindo?
Jovane Nunes:No grupo, temos um micro Brasil, somos pessoas diferentes umas das outras, que têm uma parceria sólida de 22 anos. Dentro do grupo, tem opiniões de um jeito e de outro, toda a discussão que tem fora tem aqui também. Só que aqui nós fazemos piadas de um lado e de outro, isso é um exemplo de democracia muito legal. O público se diverte de um lado e de outro, sem querer, a gente passa até uma mensagem bacana, porque os políticos passam, a crise passa, presidente, deputado e senador passam. Mas amizades não passam. Não vale a pena você brigar por isso. Acho que a discussão é válida, mas não vale a pena se aborrecer por isso. Esse momento preocupa, a gente vê a inflação aumentando, perdendo emprego, isso reflete do teatro, a pessoa quer vir e faz sacrifício para vir. A gente sabe disso e tenta diminuir, cada um tenta sobreviver. Tenho esperança que a crise vai passar e o teatro tende a ajudar, as pessoas vêm para cá e buscam energia que levam para a vida. Nossa função é essa!

Itaucard: Vocês acha que a forte presença do grupo na internet pode ser um impedimento para as pessoas não assistirem a peça no teatro?
Jovane Nunes:Quando a gente lançou o primeiro DVD, a impressão que a gente tinha, inclusive o “Notícias Populares” que tem DVD, era que ia perder a peça, porque as pessoas não iam mais querer vir ao teatro. Mas foi ao contrário, essa divulgação faz as pessoas virem ao teatro. O que acontece aqui é único, às vezes, tem um improviso, acontece uma piada que só vai ter naquele dia, parece frescura esse negócio de energia com as pessoas, mas é assim mesmo. Tem dia que a plateia está tão eufórica que carrega a gente, a gente não consegue nem dormir direito de tanta adrenalina. O cinema você vai e sempre vai ser daquele jeito, porque já foi filmado daquele jeito e não muda mais. O teatro não, cada dia é diferente, apesar de ser o mesmo texto, as pessoas que estão aqui são diferentes, dão oportunidade para algo diferente. Fora que acontece uma notícia diferente e você coloca uma piada. Essa vida do teatro é o que faz ele sobreviver.

Itaucard: Vocês se divertem muito na peça?
Jovane Nunes: A gente se diverte e ainda ganha dinheiro com isso. É muito divertido. Muita gente me pergunta se eu não me canso de fazer o mesmo texto todo esse tempo. Mas não! Não é o mesmo texto, é diferente! Cada dia é diferente! Cada dia você se surpreende e aqui a gente tem um negócio que é fazer o outro ator rir. Você prepara umas coisas que os outros não sabem para derrubar o outro. Às vezes, o improviso vem na hora, às vezes, a gente prepara. Você vê uma coisa e pensa que dá uma piada boa. O mais genial, puro, na essência é aquele improviso que acontece na hora. Quando tem, é um delírio.

Itaucard: Cada lugar do Brasil é um, me conte um fato emocionante e engraçado.
Jovane Nunes: A gente conhece o Brasil muito, fomos a todas as capitais. Uma coisa que a gente percebeu é que o Brasil é mais parecido do que diferente. O Rio Grande do Sul e o Rio Grande do Norte têm muito mais coisas iguais do que diferentes. Falamos a mesma língua, apesar de sotaques diferentes, mas no fim das contas, a culinária varia, mas é a mesma, as opiniões e gostos são os mesmos. Existe uma unidade nacional muito forte, as piadas funcionam em um lugar e outro. Parece que é diferente, mas não é tão diferente. Já aconteceu de mulher grávida arrebentar a bolsa de tanto rir, vai pro hospital e nasce. Outro dia, estava eu e Welder num restaurante e chegou um casal dizendo: “Esse é nosso filho Isaac e o nome é por causa da peça”. Então, você fica emocionado. Estava em Belo Horizonte, saindo, o cara falou: “Você é ator, já vi na internet”. Daí disse pra ele ir ao teatro que ele era meu convidado, ele nunca tinha ido. Aí no outro ano, eu peguei o mesmo taxista, ele me disse: “Rapaz, naquele dia que você me deu um convite, eu tinha uma menina que queria namorar, eu convidei ela, ela foi e começamos a namorar, nos casamos e está esperando um filho” (risos). Ele acha que ele casou porque o teatro ajudou. Esse tipo de interferência na vida das pessoas é muito bacana.

Itaucard: Tem algum personagem que você tem algum carinho?
Jovane Nunes: Eu gosto muito dos personagens que estou em cartaz. O personagem que as pessoas mais gostam que eu faça é o Cesar da outra peça. Mas tem o sargento que é muito legal, tem uma peça que se chama “Tormenta da Paixão”, que tem um senador. Gosto de todos, tem o tira de “Adrenalina em combustão”, em que eu faço um tira e um comissário. Eu me defino como palhaço, sou um ator, mas me sinto bem sendo palhaço. Esses dias, estava numa briga e o cara me disse: “Seu palhaço!”, eu disse: “Obrigado. Deu muito trabalho para chegar até aqui”. 
A internet fez um bem danado ao humor, o Brasil sempre foi muito talentoso de humorista. Mas o espaço era pequeno, para vencer, você tinha que ir para a TV, eram poucos canais. Você anda pelo Brasil e vê milhares de talentos, o brasileiro é muito engraçado, toda família tem um tio engraçado. Todo brasileiro tem um palhaço na família. A internet possibilitou grupos aparecerem, quando eu comecei fazendo teatro na Universidade de Brasília, era restrito, eram poucos espaços e pouco público. Essa plataforma nova, essa mudança de paradigma, que tira o intermediário e aproxima você do seu público é algo maravilhoso e democrático. E assim a gente pode ver um monte de gente talentosa.

Itaucard: Tem projetos futuros?
Jovane Nunes: Vamos fazer o “Hermanoteu, o filme”, estreia ano que vem. Não fizemos filme. Vamos fazer série de TV. Ano que vem tem TV, cinema, mas continua com teatro.

Rodrigo Fernandes

Itaucard: Como foi o convite para a participação especial aqui?
Rodrigo Fernandes: Foi muito maluco, no fim do ano passado, estava fazendo a turnê pelo Risadaria, viajando o Brasil, fizemos 63 shows em dez cidades. Eu já estava fazendo e eles me convidaram para fazer em 2016 no lugar do Adriano Siri, que pediu um ano de férias. Eu estava gostando de fazer o Risadaria, nunca tinha viajado tanto para fazer o que eu gosto de fazer, que é show de stand-up. Sou amigo dos “Melhores do Mundo” há mais de dez anos e pensei: “Caramba, vai ser muito louco estrear no teatro com eles”. Eu aceitei, sem pensar, por serem meus amigos e pela oportunidade de estrear nessa companhia de teatro.

Itaucard: E como foi a preparação, como foi o processo até estrear?
Rodrigo Fernandes: O processo foi bem diferente de qualquer um. Eles falaram que eu ia fazer a estreia com “Notícias Populares” e me perguntaram se eu tinha o DVD, eu disse: “Claro!”, eles disseram: “Então é isso”, ponto. Então eu transcrevi as cenas do DVD e fiquei ensaiando, assistindo ao DVD, eu decorava e quando entravam as falas do Adriano, eu fazia as falas. Ensaiei sozinho, fui para Brasília três dias antes, passei o texto com eles sentado, sem intenção de fala sem nada. A estreia foi em Fortaleza, daí o técnico de produção me disse: “Tá vendo essas marcações do show, então aqui é o centro, aqui direita, aqui esquerda e é isso”. Eu estreei para 2.300 pessoas, maluco. A primeira cena é gritaria, são policiais gritando, as primeiras falas são minhas. Então eu estreei como protagonista da cena de uma peça, sendo que nunca tinha feito. Foi a melhor pior estreia da vida de alguém.
Depois de duas semanas, eu estava fazendo “Hermanoteu na Terra de Godah” com muito mais personagens. No “Notícias Populares, eu faço um policial, um cara que apresenta a invenção do futebol, um bombeiro, falo personagens que são falas. No “Hermanoteu”, os personagens são falas, nunca tinha feito. Em um mês, fiz três peças “Notícias Populares”, duas semanas fiz “Hermanoteu na Terra de Godah”, inclusive ao vivo pra TV, e depois “Notícias Populares” edição extra. Me escolherem porque sou meio sem noção mesmo das coisas.

Itaucard: O que você acha que trouxe de identidade pro palco?
Rodrigo Fernandes: Uma piada ou outra na cena, eles me deram liberdade total para criar o que quisesse em cima das cenas, respeitando os ganchos, uma ou outra piada eu acabei criando enquanto passava o texto. Por fazer stand-up muito tempo eu botei umas piadas outras não. Estou fazendo faz três meses, todos os vídeos do telão eu filmei e editei.

Itaucard: Passou a tensão?
Rodrigo Fernandes: Não, não, toda semana é uma tensão, é muito difícil atuar com eles, porque eles são muito bons atores, então todo trabalho de corpo e projeção, intenção, sabem muito. Eu fico tentando correr na mesma velocidade que eles, é muito difícil, são o maior grupo de teatro do Brasil atuando faz tanto tempo. Toda sexta, que é o primeiro dia, eu venho no caminho repassando o texto. Quando troca o figurino, eles ficam conversando e eu fico passando texto, mesmo assim eu erro, porque na hora da pressão, você gagueja e acha que a plateia percebeu, mas nem percebeu.

Itaucard: Você está dedicado às peças só?
Rodrigo Fernandes: Continuo fazendo stand-up, sou roteirista do “Show do Kibe” na TBS, faço “Programa da Eliana” no SBT, vou estrear um programa no Multishow com o Rafinha Bastos e tô no ar com “Comedy Central Bumper”.

Itaucard: Explique a diferença do estilo do humor deste espetáculo para o stand-up.
Rodrigo Fernandes: O stand-up basicamente é você sozinho no palco falando para as pessoas na plateia coisas que você escreveu. Isso é meio que regra do stand-up, você escreve seu próprio texto. Lá, quando você é bom, você é muito bom, porque você é o roteirista, o diretor, o ator desse monólogo de comédia, que precisa ser engraçado por obrigação. Na peça, a piada está dividida entre todos os atores, então, você quase nunca fala com a plateia. Nos “Melhores do Mundo”, tem muito isso de quebrar a quarta parede e vir falar com a plateia, de jogar piada, mas a maioria da cena acontece comigo. A piada nem sempre acontece comigo, às vezes, sou a escada pra piada. Eu levanto um argumento para outro ator fazer a piada, olho só pra ele e ouço vir uma risada de lado. O mais difícil de sair do stand-up é de sair e fazer peça, muito louco falar pra um ator e ouvir a risada, geralmente estou olhando pra plateia quando eles estão rindo. 
Como os “Melhores do Mundo” faz essa coisa de entender a reação da plateia, num riso e ir até ela, eu gosto disso, me sinto mais à vontade. A maior diferença é que o comediante stand-up fala direto pra plateia e a peça acontece dentro do palco, na história, e você divide a piada. Você tem que saber levantar a piada. Dos Trapalhões, quem era o melhor? O Mussum, Zacarias? Pra mim, era o Dedé Santana, porque ele levantava piada pra todo mundo. O Renato Aragão concluía a piada porque era o espertão, mas todos os outros levantavam a piada, é como um jogo de vôlei. Se você levantar mal, a outra pessoa não consegue dar o melhor dela, atacar.
Tá sendo ótimo e me ajudando no stand-up, já estou diferente na intenção, no acting do corpo, ficava sempre mais paradinho perto do microfone. E agora estou mais solto, está me melhorando, vai se complementando.

Itaucard: Destaque o que marcou sua vida nesses últimos meses.
Rodrigo Fernandes: Minha estreia mesmo foi a coisa mais aterrorizante que eu já vivi. Estava exposto, em nenhum momento ensaiei as intenções, quando entrei em cena e percebi que a cena era mais intensa do que tinha ensaiado, eu errei a cena, meu cérebro deu uma “bugada”, dei a primeira fala e a minha segunda foi no meio da cena. Terminou a primeira cena, eu estava em êxtase e tremendo e apoiei na mesa e comecei a pensar que eu deveria ter dito não. Pensei que deveria ter recusado, que não sei fazer isso, errei a cena. Mas aí, ao mesmo tempo que bateu isso, veio o contrarregra e troquei de roupa e fiquei pronto, repassando o texto, não errei mais. Quando terminou, estava numa adrenalina que fui dormir às 6h da manhã, sem conseguir dormir. Fechava o olho, vinham pessoas, luz, era tudo tão diferente e fiquei pensando em falar com eles para falar com outra pessoa. Daí fiz Manaus no outro dia, outro teatro, público, foi tão louco, mas acertei o texto. Voltei e pensei: “Quero me viciar nisso”, uma sensação de corpo. Sabe quando você sonha que está pelado no meio da rua, é meio isso. É desesperador porque é físico, mas você tenta se esconder, mas quando você acorda, você pensa: “Talvez eu tenha gostado”. Estrear com eles foi meio assim, eu acordei de um sonho que eu estava pelado, com um monte de gente. Gostei disso.

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