Realidade e ficção se encontram em “Sinthia”

Espetáculo do diretor Kiko Marques debate a questão de gênero a partir da ditadura.

A vida é um insight para a arte. Aproveitando dessa fonte, o diretor e dramaturgo Kiko Marques escreveu “Sinthia”, trabalho inspirado em sua própria vida. A peça conta as histórias de Maria Aparecida e o filho caçula, Vicente, desde o nascimento em um lar de militares no ano 1968 até a sua volta vestido como Sinthia, no Natal de 2013. A peça “fala de uma transformação necessária e misteriosa, como tudo o que é necessário, e sobre a incapacidade de aceitar aquilo que não se possui”, explica Marques.

Veja nossa conversa com o diretor e a atriz Denise Weinberg sobre a inspiração e o processo de criação da peça.

“Shintia” é uma peça que tem um bom tempo de estrada, tem autobiografia e inspiração na sua vida. Como foi o processo de criação deste espetáculo?

Kiko Marques: É um projeto da Velha Companhia e a gente geralmente trabalha nesse formato quando eu escrevo. São ideias que eu tenho, questões pessoais, biografia, vivência, a gente junta a turma, improvisa, estuda e, a partir disso, escrevo texto e passo a montar. O “Shintia” vem de uma realidade que foi eu ter nascido na ditadura militar, em 1965, nasci para comemorar a ditadura numa família de militar do Rio de Janeiro. Fui o último filho de uma família de homens, eu seria o último, minha mãe quis desesperadamente que eu fosse a Shintia, a peça vem dessa história. Um dia, vendo minha família e minha mãe, vendo o machismo que impregnava a existência dela, pensei nessa ideia e suposição, vim para São Paulo, mas pensei “e se um dia eu voltasse não como Maurício, mas sim como Shintia, o que aconteceria na vida da minha mãe? Se eu fizesse isso não por mim, mas por ela?”.

E a chegada da Denise Weinberg, para atuar na peça como a mãe? Como foi?

Kiko Marques: Quando surgiu a ideia, a primeira pessoa que eu pensei foi a Denise. Primeiro, porque nem preciso falar da atriz que ela é. E segundo, porque ela é muito parecida com a energia da minha mãe, fisicamente inclusive. Quando eu a convidei, a gente começou a conversar sobre essa história e ela disse “entendi porque você me convidou, tem uma realidade que se conecta com isso”. A Denise topou estar desde o início, nesse tempo de improvisações, ela esteve junto, criou as cenas junto, eu escrevi para a boca dela. Então é um processo que não tem preço no teatro, você conseguir fazer isso, um processo de dois anos entre improvisações, workshops, escrita do texto, ensaios, concepção e montagem da peça. Isso é uma raridade no teatro, o resultado disso não tem preço.

Vocês têm uma sinergia grande, já se conhecem faz tempo?

Denise Weinberg: Eu vim ver a peça “CAIS” aqui e fiquei muito emocionada, tinha acabado de sair do meu grupo, já tinha ouvido falar da Velha Companhia, tinha ouvido falar que o Kiko era amigo da Denise Fraga. Somos do Rio exilados em São Paulo (risos). Quando vi o “CAIS”, fiquei com saudade de trabalhar em grupo, falei com ele, disse parabéns. Fui para casa pensando que queria trabalhar com esse pessoal. E depois de três anos, o Kiko veio com o convite. Nada é por acaso, nosso encontro não foi. Nossa história é semelhante, apesar de ser dez anos mais velha do que ele, mas sou também uma filha da ditadura do Rio de Janeiro.

E como você construiu sua personagem, a Aparecida, a mãe de Shintia?

Denise Weinberg: Conheço essa mãe que eu faço como ninguém, muito parecida com a minha, somos quase a mesma geração. Que são essas mulheres preconceituosas, classe média, terrível, que dizem que isso e aquilo não presta, que têm que ter a sua casa própria, empregos bons, seguro, poupança, carro do ano. A gente tem um pouco essa mesma criação, sofremos esse silêncio, essa opressão sem entender por quê. Tanto que o processo aqui foi uma coisa que eu sou grata pro resto da vida, os workshops, palestras, o que a gente discutiu aqui foi abrindo a minha cabeça sobre onde é que eu estava na ditadura. O que eu estava fazendo? Estava com 14, 15, 16 anos, foram tantos anos de ditadura que eu passei, casei, tive filho e depois aqui, quase quarenta anos depois, fui sacar que a coisa foi outra. O processo foi muito importante como mulher, atriz, pessoa. Essa troca com a Velha Companhia, com o Kiko, acho que veio somar.

O que você acha que tem nessa realidade que você trata em 1965, na ditadura, para o que estamos vivendo agora? O que se transporta em realidades familiares para os dias de hoje?

Kiko Marques: A peça tenta fazer um pouco esse link. Não trabalho com a ideia preconcebida, vou trabalhando com esquemas. Um esquema era esse filho voltando cinquenta anos depois como a filha que não nasceu. O outro esquema era que eu queria que a peça começasse com uma tortura por motivos ideológicos em 1964–68, que é o início e o recrudescimento do Golpe, e terminasse com uma tortura por questão de gênero em 2013, época atual. Eu queria que essas duas realidades fossem espelhamento de um mesmo mote interno, que é a não aceitação do outro, que é o motivo principal da peça. Ela fala de um tipo de preconceito que vem de uma ignorância em relação ao outro, da aceitação do outro. Lógico, que fora a questão instintiva, gananciosa do ser humano que estava no golpe, dos interesses do golpe, que está hoje em determinadas classes, fora isso, tem uma realidade que perpassa isso, que é a profunda ignorância humana. E quando digo ignorância, é na crença do seu entendimento, eu entendo que você é isso e está errado, porque eu catalogo você em algo que eu julgo que eu conheço, mas na verdade eu não conheço você, o sentido da vida é não conhecer e não saber. No momento que eu tento saber a vida, eu a resumo num parâmetro microscópico que é o meu parâmetro. Hoje em dia, está radicalmente exposto, vivemos belicamente, eu acordo te odiando, porque você usa esse casaco, eu crio ódios. A grande questão é em relação a essa ideia da compaixão enquanto eu não te entendo, mas eu te aceito.

São três horas de peça, como vocês conseguem, existe improviso?

Denise Weinberg: Acho que a gente é treinado. Não tem improviso, não trabalhamos com isso, tudo aqui é calculado, tudo aqui é ensaiado. No teatro, você tem o mesmo texto e atores, mas a plateia muda. Isso faz a equação X, Y, Z com uma variável. X é o texto, Y, os atores e Z, o público variável. Nós temos que manter essa corrida, nosso galope vai mudando conforme as pessoas que estão aqui. Hoje vai ser diferente do que foi ontem, essa variável que parece invisível e não é, esse é nosso improviso. O que a gente faz com essa energia de hoje. Como recebe e devolve isso, sentindo. Mesmo que não esteja em cena, eu assisto ao espetáculo, o tempo todo, não faço outra coisa, estou aqui. São três horas de uma missa, eu observo, porque é muito importante. E não é cansativo porque tem um vai e volta, um dar e receber. Porque o teatro é diferente da televisão, do cinema e da câmera. Me cansa muito mais passar um dia filmando do que fazer duas sessões de “Shintia”, como fizemos semana passada, seis horas de peça. Entramos 13h e saímos 23h pilhados. Porque tem uma renovação de energia, quem está vendo, está nos alimentando.

E como foi fazer esses recortes da ditadura, tocar nesse ponto delicado?

Kiko Marques: Um sinal vermelho que a gente tinha e conseguiu cumprir, é não ser doutrinário. Você falar sobre a ditadura militar dificilmente consegue não ser doutrinário. A gente teve um professor aqui que disse que todo o material que a gente tem é produção da esquerda. A gente não tem a produção da direita. É um lado do conflito. A gente trabalhou muito para que a peça não tivesse bons e maus, mas para que falasse do ser humano. Ele é bom e mau, dentro desse conceito de bondade e maldade, que é um ponto de vista, você se encaixa onde quiser. A peça, o tempo todo, fica jogando com o espectador: “você poderia ser eu, não me olhe como o vilão”. Talvez o espectador tenha alguma raiva da peça, quem eu posso chutar? Não consegue chutar ninguém. Não consegue dizer está aqui o oprimido, aqui o opressor, esse deve ser combatido. Isso está o tempo todo sendo limado, porque é o ser humano visto pelo lado de dentro. Eu poderia ser aqueles torturadores. O torturador é a pessoa mais doce da peça, a que você mais gosta, coitado, virou torturador.

O público tem dado qual feedback para vocês?

Denise Weinberg: Ele tem um retorno, seja a idade que for, provoca uma reflexão sobre nós mesmos que eu acho importantíssima, sobre Brasil, nossas famílias. Ontem tinha um cara que chorou tanto, estava destruído. Bate em algum lugar, nessa não aceitação do diferente, as pessoas começam a refletir como fazem, o que não aceitam. Já vieram pessoas transexuais aqui que se derrubam, choram, tem uma catarse, que acontecia no teatro grego. Isso é a coisa mais linda que o teatro pode provocar: a mudança, sair daqui um pouquinho modificado, se a gente conseguir modificar uma pessoa em cada quarenta, a gente está satisfeito. Um trabalho de formiga, vai bater em cada um de uma maneira, em outro não vai bater em nada. A gente não tem controle disso, a gente joga, quem pegar, pegou. Os depoimentos que a gente recebe são muito bonitos, fortes, uma função do teatro da sua essência, que é da reflexão. Você se diverte, ri, chora, mas tem uma reflexão, não é só uma comédia que você ri e vai comer pizza depois. Não! Você sai com um negócio atravessado.

Sua família, que serviu de inspiração na peça, veio assistir já?

Kiko Marques: Meu pai veio, meus irmãos, não. Minha mãe morreu no processo de dramaturgia. Estava improvisando aqui e minha mãe morrendo no Rio, inclusive, uma das cenas da peça é a metáfora de eu chegando e encontrando o corpo da minha mãe morto. A peça acaba com essa cena. Dramaturgia é perigoso, né? Dramaturgo não tem como não colocar essas coisas, é verdade e não é. A minha família é muito gentil e inteligente, tudo que tenho feito até agora conseguiram entender que é parte de pulsões e histórias reais e vai pra dramaturgia. Eu tenho essa defesa, a dramaturgia precisa se libertar da realidade, se ela não se liberta, ela se minimiza. Ela tem que ser maior, autônoma da realidade.

O clima aqui é bem intimista no teatro, qual o convite para o pessoal das redes sociais para encantá-los?

Kiko Marques: As artes têm as suas características específicas, quando o teatro não acontece, é insuportável, o cinema, não. Você só assiste a um filme ruim, fecha o livro. O teatro é uma visita, uma relação. Por outro lado, quando é bom, não tem nada melhor, é inesquecível, reverbera para sempre em você.

Denise Weinberg: Aqui fizemos um espetáculo para surdos e mudos, com pessoas na libra atrás da gente. Aquilo nos comoveu muito, eles nunca tinham visto teatro, está se tentando fazer esse trabalho, o Itaú está fazendo esse trabalho com libras. O teatro tem um tipo de narrativa completamente diferente da televisão, que faz as pessoas se sentirem mais inteligentes, quando elas compreendem que uma narrativa pode ir pra frente e para trás, sem legenda, por exemplo, entendendo pela percepção cênica, a plateia saca, puxa, é sofisticado, mas elas dizem “saquei, entendi”. Isso é levantar o nível que está tão baixo, não precisa fazer igual novela, que fica repetindo a fala durante três meses porque o público sapeia o controle e tem que entender o que o personagem está falando. No teatro, se perder, perdeu. Exige uma atenção muito difícil hoje em dia, ficar três horas aqui, sem conexão, quando abre o intervalo, as pessoas vão direto para o celular e aqui não pega (risos). Acho tão engraçado. Ninguém nunca saiu no meio, isso é um sintoma, né? Volta todo mundo, louco para saber. Fica todo mundo aqui, 15 minutos de intervalo. A gente consegue deslocar as pessoas de uma realidade tão terrível, que a bomba tá caindo lá fora, melhor ficar aqui. Uma pessoa que vem aqui pela primeira vez tem uma experiência, uma viagem, um parque de diversões.

Espetáculo: Sinthia de Kiko Marques
Direção: Kiko Marques
Datas: De 31 de março a 18 de julho de 2017.
Dias e horário: Segundas e terças, às 20h.
A peça “Sinthia” está em cartaz no Instituto Cultual Capobianco, em São Paulo. Cliente Itaucard tem direito a 50% de desconto na compra do ingresso: http://feitopra.vc/sinthia_kikomarques
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