ESPELHO

Quando as colheitas se encerravam, os jovens costumavam se reunir em torno de fogueiras e contar histórias, rir e cantar. As comemorações faziam sentido, pois a partir daquele dia, teriam algum tempo livre para aproveitarem a companhia uns dos outros.

Robert era um jovem atraente, alto e de cabelos escuros. Sua pele, queimada pelo sol, rendia-lhe um aspecto mais maduro, por isso seus amigos consideravam-no uma espécie de líder. Alexia era a jovem com quem ele mais se relacionava. Filha de mercadores, tinha talento para o ramo, sendo extremamente comunicativa e gostando de explorar possibilidades. Seus cabelos eram loiros escuros, quase um tom oliva, e seus olhos eram verdes. Na ponte do nariz concentravam-se quantidade grande de sardas, manchando sua pele quase branca.

Laqi e Messa eram seus amigos mais próximos. Passaram grande parte da adolescência juntos os quatro, e se conheciam razoavelmente bem. Laqi gostava de dormir sob a sombra todos os dias após o almoço, tinha uma aparência desleixada, com uma expressão de desinteresse. Seus olhos escuros brilhavam, porém, toda vez que Messa estava por perto. Ele não conseguia distrair-se com qualquer outra coisa, quando a jovem de pele cor-de-café contava histórias ao redor da fogueira, ou quando ela ajeitava seus cabelos cacheados e volumosos. Laqi sabia que Messa era de Vendora sem que precisasse perguntar. O sotaque pesado e levemente gutural nos “erres” e o chiado nos “esses”. A forma como ela sorria fazia com que o rapaz esquecesse de sua vontade de dormir e reclinava-se com o braço como escora, atrás da cabeça.

— Deveríamos aproveitar o dia de amanhã. — Disse Robert.

— Rio? — Perguntou Laqi, bagunçando os cabelos escuros.

— Sempre vamos para o rio. — Robert respondeu, levemente desapontado. — Eu conheço um lugar pra lá do bosque. — Ele apontou com o graveto que estava em sua mão para o oeste.

— “Um lugar”? — Alexia pareceu questionar as intenções do rapaz.

— Uma casa. — Ele admitiu, em meio a um riso denunciador.

— Que casa, Rob? — Messa parecia receosa.

— Um velho moinho. Acho que tá abandonado faz bastante tempo, já que ninguém mais mora pelo bosque.

— Você não falou “pra lá do bosque”?

— O que custa irmos? Se não tem ninguém por lá, não deve ser perigoso. — Alexia se aproximou de Robert, sentando-se ao seu lado.

— Nós temos o dia livre, mesmo. — Laqi tentou convencer a Messa, que ainda estava em desacordo com a história toda.

— Tudo bem, então. Não vou ser eu a estraga-prazeres. — Ela deu de ombros, cedendo à pressão de seus amigos.

No dia seguinte eles fizeram como o combinado. Se encontraram na trilha noroeste, que levava para fora da cidade, ao entorno de um morro. Levavam consigo poucas coisas, além de comida.

Conversavam durante o trajeto como em qualquer outra circunstância, risos e implicâncias, tirando sarro um do outro. Robert guiava pela frente, enquanto Alexia tentava acompanhar o seu passo sem muito sucesso. Laqi e Messa se distraíam pela vegetação que, ao entrarem cada vez mais no território do bosque, modificava-se visivelmente.

Era uma área grande de mata. As árvores se entrelaçavam nas copas, forjando uma proteção natural da luz solar. Como resultado, inevitavelmente o ambiente tornava-se escuro e traiçoeiro. Algumas raízes das árvores se erguiam da terra preta criando obstáculos a serem vencidos em meio à trilha, que por sua vez se fazia mais e mais sinuosa.

Para qualquer direção que olhassem, não se via um traço de animal silvestre. Sequer pássaros nos galhos para cantar. Contudo, distraídos pela emoção da aventura, sequer notavam quão incomum aquela situação se tornava.

Robert parou por um momento em uma árvore grande e despistou-se dos demais. Avançara vários passos adiante dos outros e, Alexia que estava mais próxima dele, foi a primeira a chegar até a árvore.

— Rob? — Ela chamou, mas não houve resposta. — Rob, onde você está?

Não haviam percebido, também, que a trilha acabaria poucos passos mais para frente. Quando Laqi e Messa chegaram até Alexia, instantes depois, ouviram Rob chamar.

Ele estava longe da trilha, para a esquerda, contornando a grande árvore e perdendo-se em meio à mata. Não poderiam vê-lo, mesmo que o terreno estivesse limpo, pois estava abaixo numa inclinação de terra. Quando o alcançaram, ele estava agachado próximo a uma linha fina de água corrente.

— Esse aqui é o rio que precisamos seguir.

— A trilha acabou ali atrás, Rob, é perigoso se nos perdermos. — Laqi deu voz a sua preocupação e as jovens acataram com um aceno.

— Eu conheço esse caminho, não precisam se preocupar. Só seguirmos naquela direção — Ele apontou para adiante, além da trilha que acabara. — e encontraremos a casa.

— Estou começando a achar que essa casa não vale tanto a pena. É quase meio-dia e ainda não chegamos lá. — Alexia se pronunciou.

— Ora, você consegue ver o sol no meio dessas folhas? — Laqi olhou para cima, sem sucesso em apontar o sol.

— Não — Ela também olhou para cima –, mas chame isso de intuição feminina.

— Vai ficar tudo bem, eu prometo. Antes do anoitecer e isso tudo vai estar acabado. — Robert tentou apaziguar a situação com seu carisma, tendo algum sucesso. — Messa?

— Ainda não estou muito feliz com tudo isso, mas já viemos até aqui, não é? — Ela deu de ombros, cruzando os braços sobre o abdômen e uma expressão não exatamente satisfeita.

Assim como havia explicado, seguiram a corrente de água até alcançarem o rio principal, que também não passava de um braço de outro rio. Não era mais largo que alguns metros e, definitivamente, não precisavam se preocupar com sua profundidade. Não levaram mais do que uma hora para alcançarem o local onde a casa que procuravam estava.

O lugar era bastante velho, mas a casa parecia estar em condições aceitáveis. Era feita de madeira em algumas partes, mas sua base havia sido construída com rochas e alvenaria. Parecia ser maior do que um casarão comum e tinha também uma cabana anexa, onde o moinho estava instalado.

— Estranho ver um moinho aqui. — Alexia comentou. — Não é como se tivesse qualquer plantação nos arredores.

— Esse lugar é bem antigo, talvez tivessem antes. Mesmo que fosse uma plantação pequena. — Laqi deduziu e Alexia pareceu não estar disposta a pensar muito no assunto.

— Vamos entrar? — Messa perguntou, visivelmente nervosa.

— Não vai me dizer que está com medo? — Robert não evitou o comentário caçoador.

— Olha o estado desse lugar! — Ela redarguiu.

— O que tem de mais? — Robert riu enquanto subia para a porta de entrada. — Vê, tudo sólido. — Ele bateu na porta algumas vezes e a maçaneta rangeu, despedaçando-se e caindo.

— Nem tudo. — Laqi se aproximou de Messa, tentando dar algum consolo para ela, que estava inquieta.

Robert prosseguiu em sua empreitada, empurrando a porta para trás, abrindo-a completamente, mas não sem esta antes produzir um som alto de madeira velha forçando dobradiças enferrujadas.

Alexia tomou de seus pertences uma lâmpada e óleo. Preparou tudo e a acendeu. A chama turva mal iluminava a parede externa da casa. Laqi fez o mesmo, com uma lâmpada razoavelmente maior, revestida de vidro e lataria, que refletia mais luz e iluminava com certa intensidade. Messa não estava nada satisfeita com a situação, mas ninguém pareceu se convencer de que aquela era uma má ideia, além dela.

Todos entraram.

— Então? Almoço? — Laqi perguntou, enquanto explorava as salas que a casa dispunha a partir do corredor.

— Podemos achar um lugar para comermos e descansarmos. — Robert sugeriu.

— Qualquer lugar está bom, não acho que precisamos ser muito exigentes. — Messa acrescentou.

— Esse casarão parece ser bem maior por dentro do que por fora. Ele tinha tantas salas assim? — Alexia expôs sua observação.

— Acho que é normal. Veja, tem até escadas para um segundo nível. — Robert apontou para um canto em outra sala onde havia uma escada de madeira com degraus altos.

— Eu é que não confio nesse piso podre! — Messa imediatamente protestou.

— Vou ser obrigado a concordar. — Disse Laqi.

— Então vocês dois ficam aqui embaixo, Alexia e eu subiremos.

Sem que as jovens vissem, Robert deu uma piscadela para Laqi que, demorando um breve momento, acabou por entender o sinal. Ambos sorriram e o grupo se separou. Alexis apertou a mão de Messa, encorajando-a naquela situação e sorriu para ela.

Laqi e Messa procuraram uma sala que pudessem abrir as janelas, pois o cheiro de umidade estava começando a incomodar, considerando que a brasa da lâmpada também agregava aos odores. Todas as janelas estavam pregadas com tábuas e, por receio de causar algum acidente, Laqi preferiu não usar de força para as abrir. Sentaram-se em um canto qualquer, não acharam nenhuma mesa ou cadeira, mas haviam muitos tecidos cobrindo o que achavam ser outro tipo de mobilha.

— Eu não estou com fome. — Messa comentou, com um tom infeliz em sua voz.

— O que houve?

— Quero ir embora, esse lugar não… eu não gosto daqui.

— É, esse lugar não é exatamente como eu tinha imaginado…

— Como você imaginou que seria?

— Não assim. Eu gosto de descansar na sombra, mas essa escuridão… não me deixa confortável. Fora esse monte de pano, cheio de poeira.

— Bem, aquele pano ali não tem poeira. — Ela apontou para uma das peças que estava mais ao canto oposto.

— Verdade, parece até novo…

Laqi se aproximou do objeto e, lentamente, estendeu sua mão para puxar o tecido. Revelando uma moldura de bronze suspensa em um cavalete. Messa se levantou, juntando-se ao seu amigo.

— O que é isso? Um quadro?

— Não. Parece um tipo de vidro… — Ele bateu na superfície que compunha a parte interior na moldura. O som era exatamente de vidro espesso.

— Que estranho.

O rapaz se afastou do objeto e tomou a lâmpada nas mãos, voltando em seguida para examinar com mais detalhes. A moldura era finíssima. O bronze era polido e novo, sem sinal de idade, destoando do estado em que a casa se encontrava. A superfície, porém, era fria e lisa, o que deveria refletir ao menos o brilho da luz que estava à sua frente.

Enquanto observavam atentamente a peculiaridade daquilo, notaram que, pouco a pouco, uma espécie de embaçar parecia se formar num dos cantos. Messa passou a mão por sobre o vidro e, após limpá-lo, notou uma imagem no seu fundo. Os olhos da jovem pareciam ter visto uma assombração. Ela se afastou um passo de cada vez, sem dizer palavra, pois a imagem que avistara era seu próprio rosto.

Seu rosto ensanguentado e distorcido.

Quando Laqi se virou para perguntar o que havia acontecido, ela virou seu rosto para ele e apontou para o reflexo. O rapaz mal teve tempo de entender a imagem que se formara no vidro, pois um som alto de madeira se rompendo estalou às suas costas. Ao se virar novamente para Messa, ela estava num sulco ao chão de madeira que cedera, e uma coluna do teto esmagava sua cabeça. O corpo contorcia-se em espasmos e Laqi gritou o nome de sua amiga.

Imediatamente ergueu a viga de madeira e o rosto da jovem estava completamente desfigurado, repleto de sangue. Ela não parecia estar consciente, mas seus olhos estavam arregalados e o corpo continuava a se contorcer, embora cada vez menos. Laqi clamou por socorro. Ouviu passos apressados que se aproximavam. Alexia irrompeu pela porta e gritou horrorizada.

— Me ajude! Me ajude por favor! — Ele implorava, enquanto estudava uma maneira de tomar o corpo de Messa daquele buraco.

— O que aconteceu?! — Alexia inquiriu, sem fôlego e com o rosto cheio de lágrimas.

— Eu não sei! Eu não sei! Eu me virei e quando fui olhar esse negócio — Ele apontou para o lugar onde estava a moldura — tudo desabou sobre ela.

Alexia se aproximou do cavalete e teve um vislumbre da imagem refletida de Laqi, de costas para ela. Quando ele se virou, na imagem espelhada, sua cabeça estava torcida fora do limite natural. Ela se assustou e gritou, tropeçou na mobília atrás de si e agarrou-se no pano que a cobria. Ao se afirmar no tecido, este puxou um grande e pesado armário que tombou. Laqi estava imediatamente sob o objeto, que caíra sobre suas costas e partira as vértebras na base de seu pescoço. Ele mal pode reagir, ao que a madeira pesada do armário se desatou, cobrindo-o completamente.

Ao se erguer do chão, Alexia estava desorientada. Ouvia o barulho engasgado de Laqi, que se afogava com o próprio sangue. Ela se apressou em tentar ajudá-lo. Seu corpo estava perfurado pela madeira quebrada e sua cabeça estava torcida, exatamente como na imagem que havia visto no reflexo. Amedrontada pelo que estava testemunhando, a jovem rastejou para longe do corpo de seu amigo que a encarava com desespero, como num pedido por misericórdia.

— Rob! Rob!! — Ela gritou e gritou. — Rob, por favor! Rob!! — Ela rasgava sua voz.

Alexia tampou seus ouvidos, encolhendo-se no chão, próximo ao cavalete. Balançava-se para frente e para trás, chorando e gemendo, tentando abafar o som de seu amigo agonizando.

Tudo se silenciou.

Ainda em choque, Alexia ergueu-se do chão, fitando os olhos arregalados de Laqi, que miravam diretamente para a moldura onde ela o vira daquela maneira. Receosa, ela virou-se em meio a tremores e temores. Na superfície vitrificada estava seu rosto pálido e sem vida. Em seu pescoço uma linha de lado a lado.

Ela buscou ar para gritar e sentiu a fria lâmina cortar sua garganta. Levou suas mãos ao pescoço numa tentativa pífia de estancar o sangramento. Sentiu frio. Tombou, ficando de lado para a porta do corredor. Enquanto o mundo escurecia ao seu redor, ela ouviu, como que à distância, o som de tecido sendo sacudido e pousado sobre algo.

Ela ouviu passos e logo viu as pernas de Robert. O mundo estava quase completamente escuro. Nas mãos do rapaz uma faca ensanguentada. Alexia já não via mais nada. O sopro de vida a havia abandonado.

Robert deu as costas para ela e os outros, e foi embora.

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