Limelight

“Por que tudo que eu sinto por eles é essa… inquietude dentro de mim?”

“Talvez você os esteja vendo pela ótica errada”

“Eu vejo o que eles demostram. Ódio, ira, rancor, egoísmo, miséria… solidão”

“Você perdeu o foco da razão, não perdeu?”

“…”

“Eu sei que sim. Posso ver nos seus olhos”

“Você é cega… você não deveria ver”

Sob riso curto “Sim, eu sou cega. Na língua deles eu sou chamada de… ju… como era mesmo? Eles têm até um ditado para isso…”

“Justiça”

“Isso mesmo! Você prestou atenção” uma longa pausa e um suspiro “tem certeza que não irá abdicar de seu direito? Dar a eles uma chance de se redimir”

“Eles já tiveram chances demais”

“???????, por favor”

“Eu sei como meu nome é na língua deles, também. Significa Juízo. Se eu não intervir, eles irão destruir cada vez mais o que estamos aqui para proteger”

“Você sempre foi dado a exageros”

“E você sempre foi acolhedora demais” som de asas

“Prometa que será paciente, que tentará instruí-los a seguir um caminho e não os forçar a escolher um…”

“Eles já escolheram um caminho, ??????” As asas batem e alçam voo.

* * * * * *

A vista na floresta era espetacular próximo ao crepúsculo. As criaturas cantavam em uma cacofonia harmônica revelando sua diversidade. Os tons de verde e marrom das árvores e da terra, contrastavam com o laranja e lilás do céu, que indicava a proximidade do pôr-do-sol.

“Vamos Érin! Vai anoitecer já! Se eu perder por sua causa, eu juro que-”

“Você jura o quê, Ez?” A voz feminina soou por detrás dele.

Érin tinha cabelos castanhos e longos, eram presos numa trança e algumas mechas haviam se desprendido e grudavam em seu rosto e pescoço suados. Ela estava ofegante, mas tentava disfarçar segurando a respiração para acalmar seu fôlego — seu rosto avermelhado, contrastando com a pele claríssima, indicava que ela não estava fazendo um bom trabalho em esconder qualquer coisa.

“Como foi que veio parar aqui tão rápido?”

Ezekiel tinha basicamente a mesma aparência de Érin. Eram gêmeos idênticos, seus cabelos eram encaracolados e bagunçados como um ninho soprado por um vendaval. Havia folhas e lascas de árvore espalhadas por todo seu corpo e suas roupas estavam completamente imundas.

“Você nunca saberá meu segredo” ela riu, evitando mostrar os dentes.

“Pare com isso” ele a empurrou, tomando a frente e seguindo pela trilha que subia o morro em meio às árvores onde eles estavam.

“Isso o quê?” ela perguntou sem entender e o seguiu.

“Você tá fazendo aquilo de novo de esconder os dentes”

“Ah, eu nem noto”

“Claro que nota, tá fazendo de propósito”

“Ora, se eu estiver é problema meu!”

Ezekiel virou-se repentinamente, fitando-a firmemente nos olhos e extremamente próximo. Eles não tinham mais do que oito anos, sua aparência era como um espelho refletindo duas metades de uma mesma moeda. Érin estranhou a atitude do irmão, mas não quis perder no desafio de encarar. Ele colocou a língua entre os lábios e assoprou, imitando o som de um peido.

“Céus, Ez, cresça!”

“Eu sou meia hora mais velho que você”

Érin o empurrou do caminho e seguiu até o topo, ele a seguiu, tentando puxá-la e tomar a dianteira, ambos riam e se divertiam com aquilo que era uma atividade comum para eles. O topo do morro abria-se para um penhasco de alguns metros e perdia-se num declive floresta adentro. Eles sabiam que era alto demais para se arriscar e cair, por isso ficavam longe da beirada. O mar de verde havia sido banhado de sombra e detalhes em dourado, o sol ardia imponente em seus últimos momentos naquele dia e presenteava aquele ponto com uma maravilhosa visão de sua majestade.

“Ó rei do dia, viemos prestar nossas últimas homenagens”

“Aceite este pão de centeio com manteiga”

Eles diziam, fazendo uma mesura exagerada, curvando-se ao sol que se punha. O pão era segurado por Ezekiel, alinhado à sua cabeça. Ambos riram e se provocavam, enquanto comiam do alimento que haviam trazido.

“É melhor voltarmos logo antes que mamãe fique brava” Érin sugeriu.

“Ela disse que o papai a pediu em casamento num pôr-do-sol” Ezekiel parecia distante “o que será que ele disse pra ela?”

“Provavelmente disse pra ela se casar com ele. Por quê, tá pensando em pedir alguém em casamento?” ela o provocou.

“Ew… nunca” ele a empurrou para o lado e começaram a fazer o caminho de volta. “Eu só queria saber mais… sobre ele”

“Ah… eu também”

“Mamãe nunca fala muito e eu acho que ela fica triste quando a gente pergunta”

“O velho Kraster disse que ele está em Celestia agora, o lugar para onde as pessoas vão quando m-“

Ezekiel a interrompe enquanto ela falava, dando sinal de que era pra ficar em silêncio. Logo em seguida ouviram um som, como um silvo longo e distante, que crescia e se aproximava. Os olhos de ambos se arregalaram e fugiram o mais rápido que podiam. O som os perseguiu por algum tempo, até Érin olhar para trás e ver seu irmão caído, com o pé preso numa raiz. Ela se apressou e tentou ajudar, mas nenhum dos dois tinha força suficiente para tirá-lo dali.

Quando voltaram sua visão para o caminho, perceberam que o som havia cessado, assim como o som de tudo que estava ao seu redor. A mão de Érin apertou a do irmão, que a abraçava, mesmo caído. Sutilmente o silêncio foi quebrado por galhos se partindo na passagem de onde vieram, alguém vinha dali — algo vinha dali.

“Que não seja um goblin, que não seja um goblin” Ezekiel murmurou para si.

Um cervo saltou da curva e os irmãos gritaram apavorados por uma fração de segundo até notarem o que os havia assustado.

“É só um cervo, Érin, precisava gritar assim? Você me assustou!”

“Eu assustei você, você que apertou minha mão!”

Enquanto discutiam, um baque grave ecoou pelo lugar. O cervo fugiu, e os dois sentiram como se seus pulmões estivessem tentando escapar de seus peitos e como se suas costelas fossem quebrar. De súbito sentiram um brilho intenso ofuscar seus olhos juntamente com um calor dificultar a sua respiração. Érin juntou as mãos na cabeça e se jogou no chão ao lado do irmão, que cobria os olhos com os braços. Ouviram o som das árvores se movendo, como se estivessem sendo curvadas pelo vento, mas sem qualquer sopro de ar. Uma voz imponente e trovejante rasgou o barulho ao meio, tomando toda a atenção das crianças.

“Abram os olhos, humanos”

Receosos e ainda tremendo de medo os dois acataram vagarosamente. Diante deles estava uma figura humanoide, maior que um humano normal e maior do que qualquer pessoa que as crianças houvessem conhecido. Sua pele era como o pôr-do-sol e seus cabelos oscilavam no ar com seu tom de ébano como se estivessem submersos na água. Usava vestes claras e ornamentos de ouro, e de suas costas projetavam duas asas imensas de plumas prateadas. Ele recolheu as asas e lhes disse:

“Olhem ao redor”

E assim eles fizeram, notando que estavam cercados por seres feitos como que de luz. Quando Ezekiel voltou seus olhos para o ser diante deles, notou que ele havia se inclinado e com sua mão havia aberto espaço para que o menino tirasse sua perna que estava presa.

“Obrigado” ele respondeu com insegurança.

“Voltem amanhã, ao entardecer, e lhes ensinarei”

Érin segurou o braço do irmão e eles se entreolharam. Ela o ajudou a se levantar e então fitou seus olhos no rosto inexplicavelmente belo do ser que os abordara.

“Vai nos ensinar?”

“Sim”

“Ensinar o quê?” perguntou Ezekiel.

O ser pareceu parar por um momento, refletir e medir suas palavras. Um sorriso breve e sutil arqueou em seus lábios e ele voltou seus olhos para os dois.

“Um caminho”.

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