Vargas

Izzes S. Anderson
Feb 25, 2017 · 7 min read

Era o início da tarde, após o horário de almoço. Algumas crianças brincavam nas ruas empoeiradas, levantando uma névoa incômoda, fina e baixa que era levada pela leve brisa passageira. Poucas pessoas — quase uma vista rara, inclusive — passeavam vagarosos, enquanto ao longe os pássaros cantavam suas melodias sem qualquer exagero.

Um homem imenso, de quase dois metros de altura digladiava contra as crianças, usando gravetos e um banco, improvisados como espada e escudo. Sua voz era branda e grave, ecoando como um digno líder de espetáculo. Seus cabelos longos e ruivos debatiam-se como um chicote, presos numa trança longa. Seu peitoral exposto recebia socos, chutes e gravetadas das crianças, que riam e se impressionavam com sua ousadia e também resistência.

“E então, o grande Régis tomou seu oponente pelos calcanhares…”, o homem virou o menino de cabeça para baixo, segurando-o pelos pés. A criança ria alegremente, um riso abdominal, irresistível e incontrolável.

Outro menino o agarrou na perna direita e o mordeu. Régis se ajoelhou, exagerando em sua interpretação.

“…mas um outro oponente o atingiu sorrateiramente!” as crianças aplaudiam e riam. Era um espetáculo digno de uma arena na imaginação dos pequenos.

No outro lado da rua, protegendo-se do sol sob uma meia calha, uma mulher estava escorada na pilastra que sustentava o telhado. Usava roupas escuras e tinha um aspecto jovial, com uma expressão que pairava entre entediada e sonolenta. Seus cabelos eram extremamente curtos, escuros, mas não pretos, seus olhos eram orbes brilhantes cor castanho alaranjado, sardas fortes marcavam sua pele. Uma cicatriz pequena acima da sobrancelha direita, na entrada do couro cabeludo criava uma falha em seu cabelo. Ela tinha um corpo esguio e leve, baixo, porém impunha sua presença.

Um bocejo rasgou seus lábios e contorceu seu semblante. Levou uma das mãos, que estava cruzando os braços à boca e escondeu os caninos, naturais, porém pontiagudos. Aproveitou a oportunidade e esfregou um dos olhos preguiçosamente.

Ao voltar sua atenção para o homem que brincava com as crianças, notou que ele já se despedia delas com uma mesura de artista. Flexionou os bíceps em uma pose entusiasmada e juntou sua blusa de cima de um cercado. Ele vestiu-se e foi em direção da jovem. O rosto dele era visivelmente de um adulto, com algumas rugas nos cantos dos olhos, cicatrizes espalhadas pelo peitoral e pescoço; uma grande falha em sua barba curta indicava um corte profundo do alto da bochecha a abaixo da mandíbula.

Ele agiu naturalmente próximo a moça, e parou em frente a ela, arrumando a camiseta que parecia não se acomodar corretamente em seu torso. Ela arqueou as sobrancelhas em desinteresse e o ajudou a desamarrotar alguns pontos da sua roupa que o estavam incomodando. A jovem coçou o nariz com as costas da mão e voltou à sua posição inicial.

“Então?” ele perguntou.

Ela deu de ombros com uma expressão distorcida de incerteza. Régis apenas descansou as mãos na cintura, olhando para a porta, atrás da jovem.

“Acha que devemos entrar?”

A jovem balançou a cabeça lentamente, uma resposta negativa com a devida ênfase. Seus olhos se arregalaram sem um foco específico.

“O jeito é esperar, então…”

Eles se sentaram no assoalho de madeira, elevado a trinta centímetros do nível da rua. Observavam enquanto a grama verde sacudia-se pela brisa. A jovem cutucou o nariz algumas vezes e foi repreendida por Régis todas elas. Algumas folhas de árvore flutuavam levadas pelo ar, alguns cães latiam à distância.

Passaram-se algumas horas, o bastante para o intenso sol amenizar seu fulgor e o seu brilho ser apaziguado por uma camada fina de nuvens esparsas. Régis estava escorado com as costas na pilastra enquanto a jovem dormia perpendicular a ele, com a cabeça escorada em seu ombro. Algumas crianças passaram e acenaram para o homem, que sorriu e acenou de volta. Elas flexionaram seus braços curvando seus corpos para frente e fazendo uma cara feia. Ele riu e seu sacudir fez com que a moça despertasse.

Ainda acordando ela olhou em redor. Acotovelou o homem como que por vingança e ele riu ainda mais. Ela notou um estranho rapaz que se aproximava lentamente, trazia consigo um envelope e aparentava nervosismo e insegurança. Suas vestes eram de mensageiro oficial, um broche prateado em seu peito indicava o seu posto sob o comando de um nobre específico. Ele achegou-se aos dois e perguntou, beirando a gagueira, olhando para a moça:

“Vargas?”

Ela sorriu sem fazer nenhum som e sentiu que Régis se levantava. A figura imensa do homem pareceu triplicar de tamanho diante do rapaz franzino e visivelmente medroso. O homem tinha uma face diferente desta vez, uma carranca mal-encarada, quase uma caricatura da imagem que sorria e ria anteriormente. Inevitavelmente o rapaz se encolheu, deu dois passos para trás e olhou novamente para a moça, que já estava em pé — e ele sequer a havia notado se levantar. Ela limpou as calças com palmadas no quadril, meneou a cabeça desinteressada e estalou a língua duas vezes em sinal de descaso.

Dois passos na direção do rapaz e ela estava frente a frente com ele, que tremia e parecia a ponto de desabar por tanto que suava. Num movimento rápido, repentino e sutil a jovem tomou de suas mãos o envelope de carta que trazia. Confuso, o rapaz pareceu estar perdido, tentando entender o que havia ocorrido. Ao voltar seus olhos para ela, recebeu apenas um aceno curto com a cabeça como sinal para que desaparecesse de diante deles. Assim o rapaz fez; não sem antes esbarrar em alguns barris e caminhar de costas, evitando perder contato visual com os dois estranhos.

A jovem balançou a carta, à mostra para Régis, que já tinha seu rosto em uma expressão mais natural. No selo do envelope estava a marca do mesmo brasão que o mensageiro tinha em seu broche. Ambos reconheceram o símbolo. Quando Régis ergueu a mão para tomar a carta a jovem afastou-a e torceu o nariz.

“Eu não vou abrir, só vou levar para dentro…”

Ela ergueu as sobrancelhas em sinal de desconfiança.

“Você leva, então…”

A jovem sorriu satisfeita e foi até a porta. Bateu, uma combinação de batidas com os nós dos dedos e com a base do punho. Esperou um instante e, sem esperar qualquer resposta ou aviso, girou a maçaneta e entrou.

A porção interior da casa era simples. Possuía mobília comum, como cadeiras, mesas, estantes, cristaleiras e baús. Um tapete vermelho vinho, gasto, escuro de poeira e velho a ponto de parecer destoante com o resto da casa estendia-se no meio da sala de entrada. A madeira sobre os pés da jovem estalou e rangeu a cada passo. Régis a seguiu e fechou a porta atrás de si, ajudando a jovem a fechar as cortinas em seguida. Eles afastaram o tapete com os pés e revelaram um alçapão que parecia, distintamente, ser apenas uma porção segmentada do assoalho.

Régis tirou da bota de couro um pedaço de metal comprido e fino. A jovem estendeu a mão para ele, que balançou a pequena vareta e se ajoelhou ao lado do alçapão; ela, em resposta, apenas revirou os olhos. Alguns gemidos, resmungos e palavrões depois e ele conseguiu destravar uma tranca que estava na parte oposta do alçapão. Abriram-no, desceram um lance de escadas que ia na direção oposta da porta de entrada e fecharam a passagem atrás de si. No momento em que a trava do alçapão acionou com um característico estalo metálico, o tapete velho desembaralhou-se sozinho e se estendeu novamente, ocultando a passagem.

Os dois caminharam apenas alguns metros até chegarem a uma porta de madeira, de aparência pesada, mas bastante velha. Régis precisava curvar-se pelo fato do teto ser de apenas um metro e oitenta de altura. A porta não possuía maçaneta ou dobradiças, apenas uma porta em pé diante deles. A jovem, primeiro, deu um passo em direção à porta e a atravessou como a um véu. Régis a seguiu.

Atrás da porta estava uma sala pequena, de apenas alguns metros, uma estante com livros e uma escrivaninha com papéis espalhados num canto. Havia alguns baús abertos num canto com alguns itens variados, desde metais a tecidos, esculturas e joias, uma poltrona e uma caixa retangular de madeira velha. A sala cheirava a incenso, o qual queimava numa tigela de bronze sobre a caixa.

Uma mulher estava sentada na poltrona, de lado para a porta e com seus pés sobre o caixote. Suas botas eram de couro gasto, assim como um bracelete que se desdobrava em uma meia luva na sua mão esquerda. Ela tinha pele clara, queimada pelo sol, seus cabelos eram escuros e, pela iluminação de algumas lamparinas, seus olhos eram verdes — ao menos, o olho direito, que estava visível para aqueles à porta. A mulher tocava uma gaita de boca — uma harmônica. Quando os dois entraram na sala, porém, ela parou e virou seu rosto, revelando uma cicatriz na face esquerda, como três rasgos largos que adentravam no couro cabeludo, seu olho direito era num azul claríssimo, parcialmente indistinto do branco no globo ocular, com apenas um ponto preto na parte interna.

“Sim?” ela perguntou com certo ar de desagrado, porém com toques de curiosidade.

A jovem ergueu a carta, Régis apontou para a carta com o polegar.

“Oh…” ela expressou surpresa e certo júbilo. Tirou as pernas de cima da caixa e se inclinou para tomar a carta das mãos da jovem, que a entregou prontamente.

Após um breve momento, para que a mulher lesse a carta duas vezes, ela afinou os olhos e arqueou as sobrancelhas. Acenou com a cabeça afirmativamente, com um semblante de satisfação e entregou a carta para os dois, que leram prontamente.

A mulher tomou um pé de cabra que estava escorado na poltrona ao lado oposto da porta. Cravou-o na madeira da caixa e em instantes abriu a tampa, que havia sido fechada por longos pregos de metal. Dentro da caixa estava um homem nu, completamente sujo e suado, cuja posição revelava que a caixa era pequena demais para ele e não havia maneira de acertar-se confortavelmente. Ainda incapaz de reagir ou de esboçar qualquer noção de consciência concreta, a mulher tomou-o pelos cabelos de cor loiro escuro e puxou sua cabeça para fora, erguendo-o à altura de sua face.

“Parece que não terei mais utilidade para você…” ela olhava-o, examinando cada detalhe de seu rosto pálido e enfraquecido.

“…me…m…” ele tentou falar, com a garganta extremamente seca e lábios rachados, praticamente sem saliva na língua ou qualquer força em seu corpo. “…me…ma…mate…”, ele juntou forças para clamar, arregalando os olhos em desespero.

“Devo dizer, amigo: hoje é seu dia de sorte”.

Izzes S. Anderson

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Escritor, Jornalista, Photoshoper, amante da Música, viciado em café com déficit de atenção.