Outra Terra — a borda

“Heaven and hell suppose two distinct especies of men. The good and the bad.
But the greatest part of mankind float betwixt vice and virtue.” (David Hume)
“Para uma grande maioria de pessoas, pessoas que gozam de uma posição confortável no sistema, com seus carros, casa, família padrão, comida, empregados, uma rotina bem estabelecida — para o “homem médio” — a ciência e uma noção bem porca de causalidade é capaz de explicar o mundo. A religião, o mito, o “espiritual” só entram em cena quando a dose de prozac não está mais dando conta. É ai, neste meio tempo em que ele não conseguiu marcar a consulta pra reajustar sua dose de prozac que uma outra forma de realidade assola sua mente. Tão logo amparado pelo médico, está dito que aquele pulso frenético de solidão, angústia, dor, visões e sensações de terror, de um mundo infinitamente misterioso e derradeiro, era apenas um desequilíbrio. A pílula te coloca de volta nos trilhos. Tudo volta ao controle e a causalidade padrão e premeditada. Mas existem pessoas que a rotina não deu conta de exaurir a sede de mundo. Existem pessoas que o prozac não deu conta de fechar os olhos. Para estes, estes que são marginais por excelência, o destino reserva o pior dos infernos, o inferno da excesso constante. Para eles a borda do sistema causa uma espécie de síndrome de burnout do olhar, eles acabam por serem totalmente céticos e cansados da vida, mas sabem que existe algo que sempre estará “além”. (Desconhecido)

22/03/2020

Não sou mais capaz de suportar. A humanidade a cada dia me cansa mais. Todo o dia sou afrontado por absurdos. Desde de o absurdo das guerras, que nem mais são notícias, guerras que se travam ao sabor de interesses comerciais, até o absurdo do mendigo, o produto mais final e imediato de um sistema completamente orientado ao uso e descarte do ser humano como objeto.

O sistema nos oferece um padrão de vida. Aos eleitos, o adormecer do olhar, o olhar seletivo, as indignações parceladas, que resistem até a próxima novidade tecnológica. Os pesadelos mais distópicos do nosso passado, hoje são realidade corrente. Somos encarcerados por uma ideia virtual de débito, controlados por uma corporação midiática de valores “universais” e deterioramos nosso organismo, nos tornamos dóceis, tomando de bom grado as químicas mais espúrias inventadas pelo homem.

Enquanto isso, guerras patrocinadas aquecem o mercado às custas de gente, gente de verdade. A máquina — é como eu gosto de chamar o sistema — moe almas. Houve um tempo que eu acreditei que eramos nós que parasitávamos o mundo, mas talvez seja o caso de algo completamente desconhecido de nós parasitar cada passo das nossas vidas.

já fazem 6 meses que eu me isolei da máquina. Mergulhei profundamente em tudo que era contra hegemônico. Desde a filosofia às ciências ditas “ocultas”. Surpreendentemente a maioria das coisas que me pareciam besteira, hoje me parecem extremamente sensatas. Mas não tenho como discernir se isto é fruto de uma descoberta ou se é fruto de uma mente insana, cansada e isolada. Tenho visto alguns vultos… Coisas estranhas que as pessoas não veem…

Logo, este diário não é somente um deposito de lembranças. Este diário é minha carta de desistência da realidade, já que a realidade cada vez mais uma questão de ponto de vista. Aqui eu sepulto as palavras quem nem ainda nasceram e que sequer terão direito de serem. Aqui sepulto toda minha esperança. Aqui sepulto minha sanidade. Junto com a própria ideia de sanidade.

Trabalhei 28 anos para o sistema. Já devo ter matado mais gente manipulando números do que qualquer soldado de guerra. Hoje vejo que não estava no controle das minhas ações. Preciso dormir.

29/03/2020

Tenho sido perseguido. Tenho certeza que o governo está me procurando. Desde que me desliguei da minha empresa, tentei vender meus negócios e bens mas não consigo. A burocracia impõe cada vez mais impossibilidades e rituais absurdos, autorreferentes, infinitos.

Descobri que era viciado em um refrigerante. Literalmente. Vomito toda vez que almoço e não tomo ele.

Meus amigos de longa data não me ouvem, tentam me dissuadir sem ouvir meus interesses, minhas aspirações, nada importa pra eles! Eles parecem só querer que eu volte para a máquina! Que eu volte ao “normal” !!! Preciso dormir….

05/03/2020

Eu não consigo mais controlar minha percepção. Sinto que perdi o controle da minha mente. As coisas não são mais como eu espero que elas sejam. Eu vejo um peso nas costas de cada pessoa na fila do ônibus da manhã. O peso volta com eles no ônibus da noite. cada dia maior.

Hoje outro grupo terrorista surgiu. A retórica inflamada do grupo UCB na figura de Bob barbas, seu ancora mais famoso, incita o ódio racial e religioso propagando sua jihad cristã. E ninguém parece ligar. Preciso dormir…

17/06/2020

Estou completamente inapto ao que julgava ser real. Vejo, por cima de um mundo, um outro mundo. Não sei qual deles é mais real, ambos parecem capazes de produzir materialidade. Uma teia virtual de informações montadas constrange a Terra. Essa teia permeia até o canto mais particular das nossas vidas.

Meu incessantes estudos tem me dado poder de ver outras possibilidades. Existe uma rede de acontecimentos na nossa história que a ciência não foi capaz de explicar e de repente, encontro varias explicações plausíveis, todas elas marginalizadas na história. Agora consigo ver os interesses por trás de todos aqueles anos que agia cegamente com aquele monte de números da bolsa que não significavam nada, mas significavam tudo! preciso acordar!

23/12/2021

Hoje, no solstício de verão. Acordei. Consigo ver claramente minha missão. Vejo claramente os interesses demoníacos que nortearam nosso “mundo”. Me recuso a me manter inerte. Logo não escreverei mais aqui meu “querido diário”, Obrigado. Acordei. Irei encontrar os outros filhos de pedreiro.

Não dormes sob os cyprestes 
Pois não há somno no mundo
O corpo é a sombra das vestes 
Que encobrem teu ser profundo. 
Vem a noite, que é a morte, 
E a sombra acabou sem ser, 
Vaes na noite só recorte, 
Igual a ti sem querer. 
Mas na Estalagem do Assombro

Tiram-te os Anjos a capa. 
Segues sem capa no hombro, 
Com o pouco que te tapa. 
Então Archanjos da Estrada 
Despem-te e deixam-te nu. 
Não tens vestes, não tens nada; 
Tens só teu corpo, que és tu. 
Por fim, na funda caverna, 
Os Deuses despem-te mais. 
Teu corpo cessa, alma externa, 
Mas vês que são teus eguaes

A sombra das tuas vestes Ficou entre nós na Sorte. 
Não estás morto, entre cyprestes
Neophyto, não há morte.

teh-teh mal-ku-thakh

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