Caso Google x Damore:
O engenheiro James Damore, até então funcionário da Google, redigiu um manifesto de dez páginas reclamando da bolha ideológica existente não apenas na própria Google como em basicamente grande parte das grandes empresas de tecnologia atualmente. Segundo Damore, o Vale do Silício se tornou um Vale do Eco: a busca pela eficiência e pela superação de si e dos concorrentes deu lugar à ideologia e o ambiente corporativo se tornou uma grande gaiola em que todos aqueles que discordam dessa ideologia são presos e têm suas percepções tratadas sumariamente como inadmissíveis per se. E o problema com a ideologia é que ela não é exatamente fundamentada em fatos — ou não seria ideologia.
A mídia americana, que já desistiu de mascarar o status de epítome do orwellianismo, não tardou a promover o escarcéu de sempre, com ares de denúncia apocalíptica, somado ao tom terrorista de quem ameaça acabar com a empresa na medida em que puder caso não seja integralmente satisfeita em seus anseios totalitários.
Mas o problema não reside aí. Que a mídia americana seja terrorista e ideologizada, isso não é novidade; que ela vá promover caça às bruxas a todo aquele que ousar discordar de seus postulados também não. O que surpreende mesmo é a Google endossar isso e promover sua própria caça às bruxas. Insatisfeitos com uma declaração pública rechaçando aquilo que o engenheiro tomou a iniciativa de denunciar, os progressistas queriam mais: queriam a demissão dele, queriam o ostracismo dele, e, finalmente, queriam que ele se tornasse o exemplo perfeito para os próximos, um novo crucificado para se tornar um aviso público, um aviso sobre o que acontece com quem ousa discordar e ter sua própria visão de mundo. Nada diferente do que bárbaros e reis fizeram por toda a história da humanidade, mas justamente aquilo que a turba progressista finge rechaçar. E assim a Google resolveu demitir o engenheiro, ontem, 07/08/2017. Demitido por expressar sua opinião.
Não é fácil determinar qual é o maior dos problemas com essa atitude: se é a empresa se render ao politicamente correto da mídia e assim endossar a opinião pública de uma minoria ínfima que grita muito a despeito da grande maioria de seus consumidores e stakeholders em geral; se é a crueldade de demitir uma pessoa por expressar sua opinião; se é a negação dos princípios de liberdade de expressão que permitiram a existência da própria empresa pra começar; ou se é o tiro no pé organizacional que uma atitude como essas provoca.
Não vou me alongar sobre os primeiros porquanto não terminaria de escrever hoje, mas no que concerne ao aspecto organizacional sou obrigado a dizer: o grau de enviesamento político necessário para que uma empresa adote uma atitude como essas é indescritível. Ao promover a demissão de um funcionário, acusando-o de sexismo e discriminação — quando nada disso foi presente em seu texto, que, aliás, alguém leu? — a empresa endossou a perseguição de todos aqueles que não se encaixarem no esteriótipo do social justice warrior americano. Além de ser uma crueldade por si só, a empresa abriu um perigoso precedente: se você não é progressista, não é bem-vindo, independentemente da sua qualidade como profissional; se você não é progressista, não queremos você, mesmo que você seja melhor que os profissionais que temos em casa; se você não for progressista, estamos dispostos a abrir mão do crescimento que você poderia nos proporcionar. Imagine trabalhar em um ambiente desses não sendo um esquerdista. Não há mesa de sinuca e sala de video-game que dê conta: isso é prejudicial à própria empresa. É como demitir quem te critica: assim ninguém mais te criticará e você nunca mais saberá como melhorar, voltando seus olhos para dentro e ignorando a realidade ao seu redor.
E aqui entra a ironia maior: não foi exatamente isso o que Damore disse? Que a empresa estava adotando uma postura política a despeito da eficiência enquanto organização privada com fins lucrativos? Na ânsia de atender à correção política frankfurtiana, a empresa demitiu o sujeito que a denunciou de perseguir conservadores e ser ideologizada, por ser conservador e denunciar a ideologia. Não é irônico? Querendo atender à mídia e à bolha ideológica progressista, a empresa provou o ponto do engenheiro ao se fechar ainda mais em sua bolha. E assim deu o exemplo derradeiro: “se você não for progressista e quiser continuar empregado, se cale. Não queremos te ouvir”. Há atitude mais prejudicial para a gestão de uma organização que, afinal, é primordialmente uma organização de esforços humanos?
Damore perdeu seu emprego, mas deixou seu legado. Escancarou para o mundo inteiro enxergar que a maior empresa de tecnologia do mundo é uma prisão ideológica que pratica repulsa por tudo aquilo que não for exatamente o que ela acredita ser a verdade, ainda que uma verdade muito discutível, a ponto de ser possível considerá-la mera ideologia, qual seja, aquele conjunto de ideias que tem por objetivo precípuo cegar a pessoa para a realidade debaixo de seu nariz (conceito que, mais uma ironia, foi proposto por ninguém menos que o próprio Karl Marx).
Os progressistas conseguiram sua cabeça. Conseguiram seu emprego. Conseguiram seu ostracismo e conseguiram que o exemplo fosse claro: conservadores não têm vez na startup descolada. Ganharam a batalha. Mas perderam a guerra: o mundo agora sabe que o Vale do Silício é o Vale do Eco, que a Google promove a diversidade, não ao protagonismo mas direto para a crucificação. Ou a diversidade não existe para as opiniões? Para a gigante, não.
Tentaram transformar James Damore em um aviso. Acabaram transformando-o num mártir da liberdade de expressão. Três vivas a James Damore.
