A Rotina

Despertador, banho, café, ônibus, mais ônibus, trabalho, almoço, trabalho, café, ônibus, outro ônibus, casa, janta, banho, tv, cobertas. Despertador, banho, café…Todos os dias seguia a mesma rotina.

A rotina era como uma droga para mim. Me embriagava dos afazeres metódicos. Sentia que essa era a única maneira de fugir da medíocre vida que tinha, baseada em novos tapetes que combinavam com meus novos abajures. Me tornar um robô, mais uma ferramenta, cada vez menos pensante era uma boa solução.

Boa parte do dia era bem sucedido neste plano. Mas em todos, por um breve período de tempo fraquejava.

No caminho de casa, que fazia no fim da tarde, havia um velório. Sempre que passava por ele rapidamente vinha na minha cabeça: “Por que faço o que faço? Qual o sentido da vida se ela é tão frágil?”. Filosofia barata e pensamentos rasos que logo eram tragados pela brisa pesada da rotina.

Até que um dia algo me chamou a atenção. Algum pobre infeliz era velado por ninguém. Como todos os outros dias segui meu caminho. Mas dessa vez não fui sugado pela apatia que sempre tive. E se… seria estranho? Sim, mas pela primeira vez em décadas poderia me livrar das correntes da mesmice.

Lá estava o infeliz morto e eu. Conseguia sentir meu corpo emitir substâncias que me faziam ficar ao mesmo tempo aflito e empolgado. Chegando próximo do corpo que estava em uma espécie de mesa, pude notar que ele vestia um terno preto risca de giz, provavelmente usado por muitos anos, já que estava um tanto quanto surrado. Seu cabelo escuro contrastava com a pele branca e o nariz achatado. Mas logo perdi a vontade de analisar o pormenores do defunto, que inexplicavelmente era igual a mim.

-Posso ajudar o senhor em algo?- Disse uma voz vinda atrás de mim.

Fechei minha boca que estava entreaberta e me virei. Um homem que ao contrário do morto, vestia um bonito terno azul com uma gravata vermelha e um crachá com o nome Lázaro e a letra B+ me olhava.

-Você não vê nada de diferente aqui?- perguntei.

- Não. Por quê? - Ele respondeu.

-Nós temos os mesmo rostos! Como assim você não percebeu isso!?- Falei alterado.

O homem calmamente pediu para que me sentasse em uma das cadeiras que estavam na sala do velório, que por sinal eram bastante desconfortáveis. Me perguntei se aquela era a razão de não haver mais ninguém na sala.

-Creio que o Sr. esteja passando mal.- Falou calmamente- Quer que eu pegue um copo de água?

Ele se levantou e entrou em uma sala que ficava do lado da que estava o corpo. Poucos minutos depois ele voltou com um copo.

-Não estou entendendo. Como podemos ter o mesmo rosto?

-Qual o seu nome? Perguntou Lázaro.

-É…- Alguma coisa estava errada, não conseguia lembrar meu nome. Fechei os olhos e forcei as têmporas para lembrar. Tinha um crachá no trabalho com meu nome. Só tinha que lembrar dele. Mas que pergunta estranha que aquele tal Lázaro estava fazendo para mim também.

-Deixe-me ajudá-lo. Olhando para você chuto que ainda deve estar na casa dos 40 anos, então provavelmente nunca esteve nessa situação. Há uns 100 anos tivemos uma grande peste que dizimou quase que toda as pessoas da Terra. Na verdade apenas uma pessoa sobreviveu. Não me lembro do nome dela, porém ela tinha o mesmo rosto que o seu.

-Mas se sobrou apenas uma como voltamos a ter milhares de volta?

-Bom, por sorte, e conveniência dessa história que estou te contando este homem era um das pessoas que conseguia clonar outras pessoas. Então ele se clonou, e conseguiu ajudar a raça humana a continuar a existir.

Não sabia se aquilo poderia ser verdade. Nenhum dos folhetos que eram entregues pelo governo me falava daquilo. Sempre falavam a mesma coisa “Se mantenha ocupado. Trabalhe e consuma” Alias, lembrei nessa hora que estava na hora de comprar uma nova mesa de centro para minha sala. Era a décima naquele ano, mas fazer o quê? Era mês de promoções.

-Se você diz isso, deve ser verdade. Como será que nunca reparei ou ouvi falar dessa história?

-Porque você sempre realizou sua missão corretamente. Se mantenha ocupado. Não é mesmo?

-Sempre! -Disse com orgulho. Era muito bom em seguir regras.-Bom, Sr. Lázaro. Acho que devo ir embora. Logo mais volto ao meu trabalho.

-Infelizmente não sei se posso deixar você ir embora.

-Como assim?- Perguntei para ele, que já estava em pé entre mim e a porta.

-Acho que você não fez seu papel na verdade. Trabalhe e consuma, e não trabalhe e questione. O Sr. será levado pelas autoridades do governo.

Nesse exato momento um grupo de homens vestindo um uniforme preto e armas que emitiam correntes elétricas na ponta entraram na sala. Todos tinham o mesmo rosto pálido e rígido.

-É ele, Sr. Lázaro?-Perguntou um dos homens .

-Sim- Respondeu Lázaro, passando a mão em seu cabelo loiro deixando à mostra os olhos azuis e o nariz volumoso.

Não tive muita reação. O choque que tomei amoleceu minha pernas. Parecia que meus ossos eram feitos de gelatina e minhas pálpebras de cimento. Tudo escureceu.

Depois, por um breve segundo, já no carro com os homens de preto, pude olhar ao longe Lázaro em frente o prédio em que entrei momentos antes. Em cima de sua cabeça brilhava um letreiro escrito em azul “Velório Lázaro” e em cima com letras acesas de neon vermelho “Especialista em despacho de clones D-”.