A Estante

As pessoas têm muitos sonhos na vida. Eu não sou muito fã do termo “sonho” para coisas atingíveis. Prefiro meta, vontade, sei lá. Mas enfim, uma das grandes vontades da minha vida sempre foi ter uma estante para colocar meus livros.

Não qualquer estante. Uma de madeira, daquelas grossas, que não envergam, que tem cara de biblioteca. Do tipo que seus amigos chegam na sua casa e precisam se curvar e chegar bem pertinho para ler a lombada de cada obra espremida em cada prateleira.

Parece besta, não? As pessoas sonham em escrever pra uma revista, publicar um mangá ou quadrinho…eu sonhava com uma estante.

Fato, se tivesse mais cabeça, talvez tivesse podido realizar essa vontade quando fui morar sozinho a primeira vez, mas eu não tinha. O dinheiro ia e vinha mais rápido e mais fácil do que água. Quando fui morar sozinho pela segunda vez, eu mal tinha estrutura pra lavar uma louça. Tive a pior crise de depressão da minha vida e, na sequência, fui passado para trás pelo meu empregador e fiquei sem nada. Então voltei para a casa da minha mãe e uma de nossas grandes brigas era justamente por causa dos meus livros.

Ela gosta das coisas organizadas, do jeito dela, e o jeito dela era colocar meus livros em caixas num quartinho. Me ressenti na época, confesso. Tenho orgulho de ler. Orgulho dos livros que comprei e compro. Orgulho do que aprendi com todos eles e de cada centavo gasto em cada página. Por isso queria que todo mundo visse. Não para me gabar nem me exibir, mas para dividir. Ninguém se queixa quando alguém compra um carro novo e chama a família toda para ver. Eu queria fazer isso com os meus livros.

Hoje entendo um pouco mais minha mãe. Era a casa dela e — sendo dela — ela também tinha coisas que tinha sonhado ter e fazer nos tempos terríveis em que o teto não era dela.

Há um ano eu me mudei. Saí de São Paulo e vim para Porto Alegre, cidade que me adotou. Tenho minha noiva, meus gatos e uma vida sendo construída aos poucos. E hoje, finalmente, consegui minha estante.

E enquanto eu arrumava meus livros, usando um critério arcano e subjetivo que me fez rearranjar feliz da vida cada prateleira uma meia dúzia de vez, sabendo que essa será só a primeira de várias vezes em que isso vai ser feito, chorei parado no escritório igual criança.

Por causa de um pedaço de madeira. Por causa de uma estante.

Às vezes as coisas que a gente mais quer são as mais simples. Que bom que um dia a gente consegue.

PS. do lado da minha estante tem a estante dela, claro. :)

PS 2. Nem mexi nos RPGs e nos mangás. Ou seja: vou precisar de mais estantes em breve.

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