“O Nerd Padrão é Imbecil e Preconceituoso”

Essa semana eu disse exatamente essa frase no Twitter. E embora eu não tenha estatísticas, planilhas e dados demográficos ou de comportamento internético sei que ela é verdadeira. Primeiro porque tenho quase 21 anos de carreira dentro do meio do RPG, lidando diretamente com esse tipo de público. Segundo porque, fuck, man, é só olhar em volta. E terceiro porque obviamente eu também sou um nerd imbecil e preconceituoso.

Antes, uma coisa: não vou explicar o que quero dizer por nerd padrão. Se você consegue decorar os nomes dos sei lá quantos Pokemons ou o ano de aparição de cada versão do Flash, deve ser capaz de interpretar um texto.

Nós, homens e nerds, temos uma tendência gigante a achar que somos todos mais esclarecidos e tolerantes que o resto do mundo. Existe toda aquela coisa do nerd que foi perseguido quando moleque, visto como esquisitão por ficar em casa, ou usar óculos, ou brincar de “hominho” ou qualquer outra coisa que eu e você fizemos a dar com rodo mesmo assim. Ter tomado tanta porrada moral na infância/juventude deveria ser garantia de que mais tarde, adultos, nos tornaríamos mais compreensivos, certo?

Deveria, mas não é.

Lugar de Mulher

Existe mais de um tipo de nerd preconceituoso. Minha boa vontade é grande, e eu gosto de pensar que o primeiro tipo — o cara que não se liga que está sendo preconceituoso — é maioria.

Eu costumo dizer, sem base científica nenhuma, que não é necessariamente preciso ser machista para reproduzir o comportamento machista. Eu não lembro nunca na minha vida, mesmo quando mais jovem e tonto, de ter pensado que as mulheres eram inferiores aos homens. Mas já me comportei como se achasse. Mais de uma vez. E isso acontece por quê?

Basicamente porque a programação é essa. É assim que você é criado nas entrelinhas se seguir uma educação padrão ou se — como eu — tiver pais mais velhos. É assim que a sociedade se comporta no geral.

Mulher tem que se arrumar. Mulher tem lugar certo. Mulher tem que se dar ao respeito. Mulher devia fazer isso. Mulher devia fazer aquilo. Isso não é coisa de mulher. Mulher não entende de quadrinhos. Mulher não devia jogar FIFA ou jogo de tiro. Mulher não serve para mestrar RPG.

E por aí vai.

Eu não acho que esse cara especificamente faz o que faz por mal. O que não o torna correto. Mas esse fulano, nerd ou não, ainda tem salvação. É o cara que toma a bronca e — com um pouco de trabalho — para pra pensar.

A Vingança dos Nerds

Tem também o cara que se sente ameaçado. O mano que vê o mundo nerd como um reino que ele conquistou a duras penas e ao custo de muitos pescotapas e que é dele. É o nerd que quer aproveitar a popularidade da nerdice, transformada em grande estrela da cultura pop atual, para mostrar o quanto ele é foda, e que não admite a chegada de mais gente a menos que passe pelo crivo rigoroso do próprio.

Você não entende o suficiente de quadrinhos pra ser fã. Você só viu os filmes da Marvel e não sabe de nada. Você tem um WiiU. Seu PC não roda a 1080p e 60fps.

Quando mulher entra na jogada então, tem que superar essas barreiras E o fato de que por algum motivo misterioso — nem tanto, na real — mulher e nerdice só combinam se a roupa exibida for bem pequena ou bem colada.

Não sou psicólogo nem nada, mas posso chutar o motivo. O cara é “vítima” da popular friendzone a adolescência inteira. Vê os amigos mais bonitos e descolados namorando, beijando, transando. Garotos que aos olhos dele são mais fúteis, mais burros, menos carinhosos. Se frustra. Se isola. E encontra na cultura nerd/gamer um lugar onde ele pode ser bem melhor que o resto. É o mundo dele e ali quem manda é ele. Ali é confortável, ali ele está em vantagem. Danem-se os outros.

Soa familiar? Para mim soa, porque nesse caso não é chute: passei por isso na pré-adolescência e adolescência.

Pois bem. Aí o cara cresce e de repente — não mais que de repente — aquelas mulheres, aquelas minas todas que rejeitaram o fulano (não são as mesmas, mas vocês entenderam, certo?) querem gostar de tudo que ele gosta. Querem ser vistas no mesmo patamar dele, que se ferrou tanto para chegar onde chegou. Elas, fúteis. que gostavam daqueles caras retardados, querem jogar videogame, RPG, gostar de herói? Querem ser vistas em pé de igualdade? Sério?

E aí entra o comportamento virulento, nocivo, escroto, de querer proteger seu domínio tal qual o dragão que ele cansou de matar rolando dados com os camaradas. A garota não é bem-vinda porque na cabeça desse nerd, ele é um injustiçado. E a vingança agora tá ali, na mão dele.

Se ele pode impedir o contato (“Com você mestrando eu não jogo”), impede. Barra. Se não pode, causa o desconforto. Manda lavar louça. Manda jogar o game da Barbie. Manda correr atrás de pau. Diz que ela é incapaz, inútil, incompetente e torce para a humilhação ser suficiente para que ela suma ou se encolha.

You know, igual faziam com ele quando sofria na escola.

A Lenda do Coitadismo

Outra possibilidade é o derrotista. Ou o cara que acha tudo um exagero.

É o nerd guerreiro, que sobreviveu a todas as batalhas contra aqueles que tentaram desqualificá-lo e acha que hoje o esquema é ficar na sua. O status quo é forte demais, não vai mudar e pode piorar se você abrir a boca. Ele acha que o preconceito é uma areia movediça, e se mexer só vai fazer você afundar mais. O que não é pecado, cada um escolhe como viver sua vida, certo?

O problema é que ele se ofende quando alguém se mexe.

Se você tá la na areia movediça junto e grita “Ei, alguém me dá uma ajuda, por favor?”, ele te enquadra como frouxo. Exagerado. Coitadinho.

Onde já se viu, achar que ficar ali preso é ruim? Podia ser pior! Por que pedir ajuda se já tem tanta gente ali afundada sem se mexer e nem tá reclamando? Você devia calar a boca e aceitar o mundo porque ele não vai mudar.

E sabe por que ele diz isso para você? Por que ele é um veterano. Ele encarou tudo isso e saiu do outro lado vivo, inteiro. Se ele pode, você também pode. Não se faça de vítima, diabos.

O que é (quem adivinha?) essencialmente uma bobagem.

Já seria bobagem se a gente estivesse falando dos seres humanos em geral, porque a gente não é feito numa linha de montagem, igualzinho, com as mesmas peças, colocado nas mesmas prateleiras das mesmas lojas e vendido para o mesmo público. Ninguém passa exatamente pelas mesmas experiências. Sua vivência pode servir para aconselhar alguém que tenha passado por coisas parecidas, mas jamais serve para desqualificar a do outro — embora façamos isso o tempo todo.

Às vezes eu acho que o correto é ficar de boa mesmo, mas se outra pessoa se incomoda com algo que foi feito a ela e quer falar, isso é errado? Óbvio que não. Principalmente se vier de quem tem menos voz ou a quem se presta menos atenção, como mulheres.

Porque aí entra um diferencial tenso que é bem difícil de entender. Nossa experiência como homem, nessas horas, não conta. Você aguentou uma vida de bullying, parabéns, mas nossos recursos de reação são muito mais amplos. Você pode não saber usar, você pode escolher não usar, mas o sistema como a sociedade está construída foi moldado a nosso favor, não delas. É um fato comprovado por gente muito mais competente, interessante e inteligente que eu.

Você pode achar idiota uma moça se revoltar porque um cara se deu ao trabalho de mandar uma mensagem para ela num jogo online dizendo que ela devia estar lavando louça. Aliás, é ÓBVIO que você vai achar idiota, porque não existe correspondente masculino para isso. O cara vai dizer o que? “Ei, vai trocar um pneu de carro” ou “Seu pau é pequeno”?

Tenta achar uma ofensa de gênero equivalente que realmente te ofenda. Que te doa na alma, mesmo que você consiga deixar para lá. Pensa com calma, com carinho. Uma ofensa dirigida a homem que não sirva só para você, que ofenda o gênero mesmo e que seja exclusivamente nossa. SPOILER: você não vai achar.

Agora faz o mesmo com o gênero feminino. Se eu te pedir para citar dez, você vai ter que deixar uma porrada de fora.

É escroto um homem dizer que uma garota não deve se ofender quando um cara diz que ela devia lavar louça/lavar roupa/cuidar do marido/fazer uma plástica/ter um filho/dar pra alguém/deixar de ser histérica/se virar com a TPM/limpar a casa/se vestir direito porque ele não cresce ouvindo que esse é o papel dele. O homem pode ser o que ele quiser, inclusive porra nenhuma.

Em 2015 a mulher tem que brigar para ser o que quiser. Inclusive nerd.

Machismo Não Existe

Eu nem acho que eu precisava apresentar qualquer coisa, mas vá lá: a vida e meu interesse me deram uns exemplos recentes e bacanas da escrotisse do nerd moderno e seria estúpido não usar, certo?

Depois de uma polêmica gigantesca no Facebook por causa de uma foto sexista que acarretou uma enxurrada de comentários estúpidos, jogadoras de RPG resolveram se reunir num Encontro inclusivo, com direito a debates e mesas mestradas por mulheres (mas abertas para homens jogadores). No dia resolvi ir com meu amigo Felipe Della Corte para registrar o evento através de depoimentos e entender um pouco melhor o que acontecia. O resultado você confere abaixo.

Essa semana a EA divulgou que FIFA 16 trará seleções femininas. Cacei rapidão alguns comentários sem me aprofundar muito e achei umas pérolas bacanas.

O site GAROTAS NERDS, ênfase no título, fez uma matéria sobre um movimento feminista bem bacana que usa o bom humor como empoderamento, “subvertendo” a tradicional figurinha que representa a mulher na porta dos banheiros públicos. O texto teve várias reações legais e várias reações escrotas.

Para conferir a matéria é só clicar aqui.

/

Mantive as referências só ao que tinha ao alcance na hora e sem fuçar muito no histórico do assunto, mas sério, se procurar é um buraco sem fundo. Vide a polêmica com o novo Mad Max, o Gamergate, etc, etc.

Mas Eu Não Sou Assim (e Nem Meus Amigos)!

Yeah! Eu também não! High five!

Tá, brincadeira. Como eu disse lá em cima, eu sou sim. E vai doer menos se você admitir que também é. E vai ajudar mais.

A questão nem é ser ou não machista. Por tudo aquilo que eu já expliquei, o primeiro instino é ser. Existe uma confusão, acho, de a gente pensar que só é machista o escrotão que comenta em portal e quer que as minas sejam donas de casa e tal, mas não é.

Se você tá no trânsito, dirigindo, uma mina te fecha e teu primeiro instinto é pensar “Tinha que ser mulher”, você é machista.

Se você tá jogando online, vê o adversário jogando muito, olha o nick, vê que é feminino e pensa “Caralho, é mulher e tá jogando bem assim?”, você é machista.

Se sua namorada demora para se arrumar e na hora você sussurra para você mesmo, “Mulher é foda”, você é machista.

Se a mina que você tava a fim sai com um outro cara ao invés de você e você vira pra um amigo e diz em tom de zueira “Também não queria aquela vagabunda mesmo”, você é machista. Se sua namorada quer sair com os amigos e você acha inadmissível porque certamente ela “vai beber e dar pra alguém”, você é machista. Se você não quer mulher na sua mesa de RPG porque acha que o Mestre vai puxar o saco dela e ela obviamente vai aceitar, você é machista. Se você acha que existe hora e lugar certo para discutir feminismo e gênero, desde que não seja no meio do seu hobby preferido, você é machista.

Mesmo que você não diga a ninguém. Mesmo que fique na sua cabeça.

E sério, tudo bem. O que importa, no meu ponto de vista, é o que você faz com esses pensamentos e ideias. É normal tê-los. É escroto mantê-los. É estúpido não questioná-los. É imbecil não se esforçar para aprender a ignorá-los. Se você não quer ser machista, não replique comportamentos machistas. Embora isso vá acontecer mais cedo ou mais tarde.

Obviamente, tem muito cara legal por aí. Muita gente se esforçando para se desconstruir e abrindo mão de protagonismo. Para qualquer comentário machista na internet, normalmente há dois chamando o cara de idiota (no mundo fora do PC a coisa é um pouco mais complicada). A merda é que esse um comentário ainda dói para quem toma a pancada.

E a ideia é que um dia a pancada não seja nem dada.

Ninguém é a Prova de Balas

Mesmo com toda boa vontade do mundo, todo o cuidado, uma hora você vai fazer cagada.

Eu sei que vou. Não sei quando e me esforço ao máximo para driblar as armadilhas que posso. Algumas, em virtude do meu trabalho, não tenho como evitar. Outras, cometidas em tempos imemoriais mas registradas para a posteridade por conta da minha carreira, serão jogadas na minha cara inevitavelmente. Mas tudo bem. A gente não foi feito para ser infalível. Nem homens, nem mulheres.

O que conta é o esforço e a capacidade de admitir os próprios erros. É o aprendizado e a tentativa de se tornar um ser humano melhor, na real. E isso é algo que a gente faz para si mesmo.

O melhor jeito que eu encontrei para evitar derrapadas é o mais simples de todos: aprender a esperar. A gente vive na era da opinião imediata, mas não precisa ser assim.

Ninguém vai morrer se você digerir o assunto antes de escrever o que quer. Ninguém vai sair prejudicado se você comentar o tema do dia daqui a uma semana, depois de refletir a respeito e reavaliar as própias posições.

É aprender a se preservar e, por tabela, preservar os outros. Se sua posição polêmica se sustenta três, quatro dias depois, uma semana depois, fuck, vá em frente e grite para o mundo, pronto para aceitar o baque se ele vier.

Arauto do Feminismo

Não caras, eu não sou feminista. Acho que posso me dizer a favor do feminismo, de certa forma, mas mesmo assim ainda discordo de uma porção de posições do movimento, entendendo que não se trata de um corpo homogêneo administrado numa única forma de pensamento.

Ser feminista, na minha concepção e com base no que ouvi até hoje, exige conhecimentos e vivências atreladas à vivência da mulher — uma parada que me soa óbvia hoje, mas é mais difícil de entender do que parece — o que, por ser homem, eu não vou ter nem em um milhão de anos. Não posso, portanto, ser feminista.

Mas posso tentar ajudar do lado de fora. E tá tudo bem.

Mas Por Que Você Escreveu Tudo Isso?

Porque ninguém vai me ameaçar.

Ninguém vai me dar porrada. Ninguém vai dizer que vai me estuprar quando eu sair de casa ou fazer complô para acabar com a minha carreira por causa desse texto.

Porque eu posso.

E porque eu espero que as mulheres possam fazer a mesma coisa logo.

Cheers!

T.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.