A retórica e o retoque
Hoje eu me perguntei se não seria o Photoshop a atualização pós-moderna da antiga retórica Aristotélica. Como frequentemente os assuntos mais quentes e atualizados do momento têm raízes desconhecidas nos gigantes que estão embaixo de nossas pernas (e que nos permitem ver mais longe) caminhando silenciosamente, talvez a pergunta não seja tão descabida assim.
É verdade que a retórica se refere ao discurso e o Photoshop trabalha com imagens. Mas com um pouco de boa vontade (talvez a contragosto) quem pode negar que as imagens de hoje são meios para a persuasão assim como os grandes discursos de ontem? A acumulação como figura do pensamento virou a superposição de camadas. O trocadilho, o desfoque inteligente . A gradação, o gradiente de cores. A hipérbole, um alto contraste ou muita saturção.

Uma figura, no entanto, eu acho que desapareceu. Não encontramos mais epanortoses (Não se preocupe, nem o Word reconhece a palavra, colocando logo aquele sublinhado vermelho irritante), só erros mesmos. Se ninguém mais se corrige não é por perfeição disseminada, mas por ser o erro muitas vezes fatal, por menor que seja. Não há distorção ou estampa possível que arrume uma modelo que aparece com uma perna a mais ou um braço perdido para o grande público. A não ser que passe por intencional e “artístico” que como veremos, nada tem de retórico.
Mas voltemos a nova retórica (Mais nova que a do próprio Perelman) do retoque “photoshopiano”.
Os mais puristas e conservadores dirão que todo e qualquer retoque distorce a verdade e que o melhor mesmo é não usar. Semelhantemente, ao longo da história a retórica teve seus altos e baixos. Houve quem a rejeitou como um discurso de segunda categoria, que é próprio de quem não consegue ser lógico e científico. Para esses, qualquer cheiro de figuras de linguagem podem denunciar uma má fé do orador que está usando de artifícios para convencer seu público. E o público, coitado do público, não percebe o difícil epifonema e nem entende o oximoro, assim como não capta a correção de brilho e de contraste. Nem o lógico obstinado, nem o “photoshopofobico” parecem lembrar que qualquer discurso ou foto já deixou de ser a realidade, por mais próximo dela que possa estar.
Do outro lado encontramos aqueles que de tanto “desfoque seletivo” terminam tornando irrelevante a imagem inicial, já que poderiam chegar ao mesmo resultado com qualquer outra ou até mesmo sem nenhuma foto. É incrível o que se pode fazer com esse software. Assim como é incrível a pretensão dos sofismas, não interessados nos meios para persuadir, mas na persuasão mesma. É uma distinção fina, mas fundamental. O pincel no photoshop pode esconder a imagem original ou até mesmo esconder que não há nenhuma imagem original.

Protágoras ensinava a tornar forte os argumentos fracos. Isso é diferente de dizer que ele ensinava a mentir. O próprio Aristóteles diz que a retórica é útil para que a verdade e a justiça não sejam vencidas pelas seduções dos sofismas. Retocar uma foto, assim como utilizar-se da arte retórica estão mais próximos da poesia (da boa poesia), do que da mentira. Não se trata de distorcer ou esconder a realidade, mas realça-la. Evidenciar contornos que não estão visíveis aos olhos nus ou aos de quem parece não perceber a profundidade da realidade por qualquer motivo que seja.
Esse texto talvez seja um pouco cru e de difícil digestão, assim como um argumento fraco. Nas mãos de alguém mais versado em literatura, a mesma ideia (que confio ser verdadeira) talvez chegasse de uma forma mais palatável e amena. Assim como Protágoras, a minha namorada, a minha tia (fotógrafas) e até a minha avó (Pintora que se alguém a ensinasse a utilizar o Photoshop certamente o faria a julgar pela habilidade com o WhatsApp) sabem melhor que eu como se pode tanto realçar (tornando forte um argumento fraco) como distorcer e até arruinar a realidade (Que é quando se da a vitória do sofisma, da mentira).
Todos nós podemos ter a experiência de sermos arrebatados por uma imagem ou por um belo texto. E sabemos que esse não é o campo da mentira. Pelo contrário, essas experiencias estão mais proximas de atestar a verdade da ressurreição. Da passagem de um corpo morto para um corpo glorioso, de uma foto com pouca nitidez e de um texto sem sal, para grandes obras de arte.
