5 de abril de 2015, Mariana

Mãe,

Hoje é Páscoa: dia da Ressurreição. Para os católicos, renasce Jesus. Dona Terezinha, lá do Complexo, também é Jesus: com documento passado e assinado em cartório. Dona Terezinha, lá do Complexo, também perdeu o seu menino numa quase sexta-feira da paixão. Virão Natais, virão novas Páscoas, virão quartas de cinzas e quaresmas, mas o menino da Dona Terezinha não estará com ela depois desse domingo.

Hoje é Páscoa: dia de comprar chocolates e presentear as crianças. O menino da Dona Terezinha também era criança, também gostava de chocolates e quem sabe até já acreditou em coelhos de páscoa. Será que Dona Terezinha, doméstica, mãe, além de economizar os 200 reais do curso de informática, teria comprado um ovo de chocolate e escondido na sua casa pequena, lá no Complexo?

Hoje é Páscoa. No Brasil inteiro, há gente chorando ao assistir encenações religiosas. Dona Terezinha, a mãe do Eduardo, que mora lá no Complexo, também chora. Mas o choro da Dona Terezinha não termina quando acaba o ato e chegam os aplausos. Dona Terezinha não tem nada o que aplaudir. Não há encenação alguma em seu drama.

Hoje é Páscoa. Amanhã é segunda-feira de uma semana qualquer. Todos se esquecerão do domingo, dos seus bacalhaus e suas missas. Para a Dona Terezinha, mãe do menino Dudu, essa é a primeira segunda-feira de todas que virão: com um “eu te amo” faltando no seu whatsapp e uma lembrança triste bem em frente ao seu portão.

Em todos os anos, repetem-se a Páscoa, a Sexta-Feira e os sábados de aleluia. No Complexo, que é a casa do menino Dudu e sua mãe, Dona Terezinha, repete-se, todos os dias, uma guerra silenciosa em que, muitas vezes, só há um lado na briga: armado, apoderado, cruel.

Façamos encenações nas ruas de pedra. Façamos teatros e choremos nossas cruzes. Não vamos deixar que se esqueça o sofrimento dele, que morreu por muitos. Passemos adiante: o menino Dudu não está nessa Páscoa, nem estará nas outras que virão. Que toquem os sinos de todas as igrejas e espalhem o recado: não há mais o menino, que também era Jesus; mas há muitos Judas e muitíssimas pessoas que apenas lavam as suas (nossas) mãos.

Benção,

J.