8 de novembro de 2015, São Paulo

Mãe,

Sabe quando a gente assiste ao Bonner contar uma tragédia que aconteceu em um lugar muito, muito longe e com nome difícil de repetir? A gente ouve aquilo, sente um troço ruim no coração, engole seco e perde a vontade de terminar o jantar. Mas, aí, Mãe, depois de umas horas, a gente já está feliz de novo e a tragédia dos outros fica como um pesadelo feio e distante.

Daqui a alguns dias, Mãe, Bento Rodrigues — que já foi chamado de vila, vilarejo, povoado e cidadezinha por aqueles que nunca pisaram no seu chão — será mais um desses casos que compõem os números quando os jornalões decidem fazer um “para lembrar”. Mas a gente, Mãe, que é daí e conhece o povo pelo nome, que vê as senhoras com lenço no cabelo suando a testa no sol e acompanha o jogo de futebol dos meninos, não consegue desligar a TV e seguir com a vida, não é mesmo?

A Dona Efigênia, que foi nossa vizinha por tanto tempo e, no ano passado, conseguiu construir uma casinha lá no Bento, disse que adorava a varanda da casa nova. As samambaias dela, Mãe, estavam tão lindas quanto as da senhora. Mas ela não poderá colocar os pisca-piscas esse ano, Mãe, porque está tudo debaixo do barro. Aquele sossego todo do Bento sumiu tão rápido como uma explosão que, sem alarme nenhum, destruiu as cores de tanta gente.

Mãe, e o Natal deles, hein? Vão faltar os pisca-piscas da Efigênia, mas o pior, Mãe, é que faltarão tantos sorrisos na mesa, tantos meninos e meninas que perderam a chance de esperar o Papai Noel na noite de “consuada”. Será que alguém vai lembrar dessas famílias no Natal, Mãe? O almoço do dia 25 vai acontecer em um quarto de hotel, com marmitas doadas por quem estará em casa, trocando presentes? E a missa na igreja que reúne toda a comunidade, quem vai celebrar?

Os de fora esquecerão. Mas esse gosto de ferrugem acompanhará os marianenses pra sempre, Mãe.

A benção de quem não pode dormir,

J.