Quando a praça é a segunda casa

Janderson Oliveira
Nov 3 · 5 min read
Vendedor de cachaça e doce em carrinho, Eunildo se despede de seus amigos da praça com festa
Vendedor de cachaça e doce em carrinho, Eunildo se despede de seus amigos da praça com festa
Vendedor de cachaça e doce em carrinho, Eunildo se despede de seus amigos da praça com festa

Qual a praça mais próxima de sua casa? Você a visita quantas vezes por mês? Esses locais são parte da cidade como espaços de convívio. Apesar do novo cotidiano urbano, obrigando-nos a abdicar de momentos de lazer, na cidade de Arapiraca dedicar uma parte do dia ao passeio nesses espaços faz parte da cultura local.

As numerosas praças de Arapiraca, no agreste alagoano, guardam histórias da cidade e dos próprios moradores. Também são pontos fortes de comércio e figuram entre os cartões-postais. De queda de avião até despedida em carrinho de cachaça, cada história nas praças de Arapiraca é épica a quem a vive.

Arapiraca tem uma história singela sobre sua criação. O conto-muito-contado nos ensina que Manoel André havia saído do povoado de Canudos/AL procurando um novo lar. Nessa dura procura, ele descansou debaixo de uma árvore. A sombra o fez tão bem que decidiu levantar sua casa por lá mesmo. A árvore era uma espécie de angico, conhecido como arapiraca, palavra indígena que significa “ramo que arara visita”.

Décadas depois, uma cidade se formaria ao redor da árvore. Em 1924, Arapiraca foi emancipada. A sede administrativa ficava em uma praça, hoje chamada de Praça Luiz Pereira Lima. Entre as histórias da ainda chamada Praça da Prefeitura, está a queda de um avião monomotor a 100 metros da sede, em um campo de fumo (Arapiraca já foi conhecida como capital do fumo). Felizmente, todos saíram vivos da situação.

No dia 28 de outubro de 2019 foi a vez de Eunildo (64) ser protagonista na história da Praça da Prefeitura.

Arapiraquense apaixonado, Eunildo tem um carrinho que vende bebida e doce na Praça da Prefeitura. Porém, outra paixão o motivou a seguir a vida longe de Arapiraca. Ironicamente, um amor de praça, uma mulher conhecida há um ano e quatro meses, o fez decidir sair da própria cidade.

“Quando eu decidi que ia embora, avisei aos amigos que ia fazer essa despedida aqui.”, contou ao som de Anunciação, cantada e tocada por seus amigos vizinho ao Museu Zezito Guedes na Praça da Prefeitura. Artista da cidade, Kinho Porto — violão e voz, levou sua caixa amplificadora e mesa de som, além dos instrumentos que acompanham seu nome artístico. Os outros amigos somaram com mais instrumentos: pandeiro, tamborim, chocalho, meia lua.

“Arapiraca é minha vida. Nasci e me criei aqui. Saí daqui muito pouco, nunca para tentar a vida fora, só para passeio. Tô fazendo isso pela primeira vez agora. Se não der certo, eu já tô programado pra voltar, com certeza.”

Com 64 anos, Eunildo deixa em Arapiraca a Torcida Organizada Apaixonada do ASA, fundada por ele em 1986, a Sociedade Filantrópica de Nilda de Cássia, a qual trabalhou voluntariamente por 21 anos e também a Banda do Colégio Bom Conselho, em que tocou por 46 anos.

Há algumas ruas dali, está a Praça Marques da Silva. Carrega o nome do deputado que foi assassinado na porta de casa. Esse homicídio rendeu duas coisas: a construção da praça e um processo de impeachment ao governador Muniz Falcão com tiroteio na Assembleia Legislativa de Alagoas, em Maceió.

Para além de sua trágica história, a Praça Marques da Silva é conhecida pelo seu amplo e variado comércio, além de ser “casa” da Concatedral de Nossa Senhora do Bom Conselho, lar da padroeira da cidade.

Nesse cenário espetacular, encontramos José Wellington (60), sentado em um dos jardins da praça. “Eu sou conhecido aqui como Zé Pracinha. Dos 40 anos que vivo aqui em Arapiraca, os 40 eu vivi em praça”, comenta com os braços apoiados em sua bicicleta vermelha.

Devido a idade, José perdeu a visão em um dos olhos, mas na juventude paquerou bastante nas praças. “Era época das meninas, que a gente namorava”, suspirou com olhar distante, “inclusive eu até arrumei uma na Praça da Prefeitura que quase casávamos, só não casei porque eu já morava com outra. Inclusive pra essa que eu conheci, eu mentia que era solteiro e ainda fiquei um ano com ela”, revelou o aposentado de 60 anos.

“Sou aposentado, agora o resto da minha vida é praça. Eu quero ficar nas praças, daqui só saio quando morrer.”

José Wellington sempre olhando distante, enquanto contava suas histórias, parecia ver as memórias se reconstruindo em sua frente. Entre suspiros e risadas e a bicicleta vermelhava, o senhor aproveitava a grande sombra da Concatedral de Nossa Senhora do Bom Conselho, maior cartão-postal de Arapiraca.

Cordel

PATETADAS DE ARAPIRACA

Concatedral de Nossa Senhora do Bom Conselho

Quem anda por Alagoas
Pequena nesse Nordeste.
E se afastando das praias
Vai em direção ao Oeste
Achará uma cidade
Que fica bem na metade
Do Estado, lá no Agreste

Seu nome é Arapiraca
O tema da nossa história
É uma cidade até grande
Se for ver estado afora
Sendo a segunda maior
Só perde pra Maceió
Se ver quanta gente mora

Seu nome vem de uma planta
Que, dizem, significa
De alguma língua de índios
Ramo que a arara visita
No censo que se seguiu
Passam de duzentos mil
De gente que nela habita

Dizem que essa arapiraca
Tava no meio, ora veja
Do povoado que havia
Não duvido que assim seja
Mas nem é tão importante
Pois construíram adiante
Uma grande de uma igreja

A igreja Concatedral
Pra te falar a verdade
Até hoje é a imagem
Que nos dá identidade
A construção principal
Ela é o cartão postal
Da nossa bela cidade

[…]

No ano de 64
No século dezenove
Fundador Manoel André
De repente ele resolve
Fazer uma tal viagem
Para trazer a imagem
De uma santa que comove

No Estado de Pernambuco
Em Bom Conselho existia
Um competente santeiro
Que essa imagem faria
Manoel trouxe de cavalo
Causando um grande abalo
Nossa Senhora da Guia

Veja bem: era da Guia
A imagem do santeiro
Mas na confusão do dia
Tudo se mudou ligeiro
Num telefone sem fio
A santa que persistiu
Foi sendo do Bom Conselho

Mas a santa não mudou
A imagem da padroeira
É ainda a da Guia
Mudaram só a “carteira”
Bom Conselho no final
É o nome atual
Fala sério, que zoeira!

Talvez nessa confusão
Que na cidade ocorreu
Nem seja tão grave assim
Seja pra cristão ou ateu
Rei Roberto disse outrora
Que toda Nossa Senhora
É a mesma mãe de Deus

Cárlisson Galdino

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