Feito faca

Janna
Janna
Sep 8, 2018 · 2 min read

Eu lembro de minha professora entrando na sala de aula, os alunos bagunçando e ela abrindo a boca e declamando uma poesia. Seu corpo era imponente, impossível não percebê-lo. Sua voz era direta, feito uma faca, te cortava inteiro. Ela falava um verso e mais outro e outro, sem ler nada. Tirava tudo da memória e fazia a sala ficar em silêncio. Silêncio também cortante. Abre alas que a poesia vai passar. Ô calado aí que isso aqui é coisa importante. E fazia todo mundo escutar. Eu não entendia o que a poesia dela queria dizer, não saberia explicar o significado. Eu só sabia que aquele monte de palavra solto era bonito demais. Uma música na minha cabeça, uma dança que meu corpo queria seguir.

A outra vez que me senti assim, foi quando eu li um livro muito louco que começava pelo meio, em códigos, com diálogos sem vírgula. Eu fiquei extasiada em como era possível não se pausar e ainda assim ser entendido. Eu preciso de pausas e outros também precisam de pausas, mas é difícil não irromper num diálogo sem vírgula, sem ponto, sem exclamação e sem interrogação logo de uma vez. Eu quero jorrar palavras, sem sentido mesmo, ainda que você não entenda ou que eu não entenda ou que ninguém mais entenda. Eu quero é romper isso tudo e a gente e esse silêncio cortante que não gera poesia, nem faísca.

Isso aqui não é para você, nem para mim. É só que eu não sei o que acontece que as palavras ficam soltas aqui dentro e exigem serem organizadas numa ideologia muito própria para intensificar a reação, a emoção, a revolução seja ela qual for. E é só que tá tudo tão em silêncio que tem me cortado inteira e eu queria pelo menos um par de olhos pra me garantir que tá cortando direitinho e que esse corte não vai muito longe, porque há um par de olhos tomando conta disso tudo. Desculpa a tarefa que você não pediu e eu te dei mesmo assim. Eu sei, eu sei. Mesmo sabendo não diminui o corte, sabe? Nem o silêncio. Mas isso aqui ainda não é para você, nem para mim.

É só uma poesia que ninguém entende, mas que é bom de escutar. Feito eu e feito você. Bonito, né? Assustador também. Mas ô, calado aí que isso aqui é coisa importante.

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de estória-história e história-estória se enche o bico