Avesso

— Já disse que não, filha, isso não é hora de comer doce e você já está bem grandinha pra saber disso.

— Mas não é justo, mãe! Não comi nenhum chocolate hoje. Nada, nadinha! Eu só lembrei agora, fiquei assistindo tv e já chegou a hora de dormir.

— Acontece, mas agora é tarde demais querida.

— Queria poder controlar o tempo só pra eu ficar voltando sempre pro passado e comer chocolate sempre sempre e pra sempre!

— Cuidado com o que deseja, garotinha, às vezes nossos desejos podem virar nossa cabeça ao avesso.

— O que é avesso, mamãe?

— É quando você deixa uma coisa toda ao contrário. O dentro fica pra fora, o de cima fica embaixo, a mentira vira verdade, a verdade vira mentira e assim por diante — deu uma pausa e olhou pro nada — , como aconteceu com um rapaz há alguns anos.

— Ele se virou ao avesso?

— Mais ou menos, lindinha.

E então a mãe iniciou a história:

— Certa noite um rapaz que vivia aqui na região deitou-se pra dormir em sua cama e ficou pensando sobre mais cedo naquele dia, quando ele organizou um chá da tarde em sua grande casa que reuniu alguns artistas locais que ele admirava. Aquele chá rendeu várias dicas e conselhos pra ajudá-lo nas suas criações, já que seu desejo era se tornar um artista tão bem conceituado quanto aqueles presentes, e ele não poupava esforços pra se aproximar cada vez mais desse objetivo. Enquanto o sono ficava mais pesado e ele ia relembrando as conversas que teve naquela tarde, as coisas iam se misturando de forma que os pensamentos iam aos poucos se transformando em sonho e ele já não sabia distinguir o que era real ou não, como acontece quando começamos a dormir, sabe? — perguntou.

— Sei, isso sempre acontece comigo! — respondeu a filha.

— Depois de alguns minutos viajando nesse processo o rapaz despertou de repente com uma enorme dor de barriga que não o deixou escolha a não ser ir correndo pro banheiro. Chegando lá mal sentou na privada e começou a defecar como se não houvesse amanhã.

— O que é defecar?

— É fazer cocô, querida.

— Ah, cagar.

— Isso, cagar. — respondeu a mãe, sorrindo.

— O rapaz começou a cagar como água, numa diarreia que não tinha há anos, ou talvez nunca. Não precisava nem fazer força, apenas ficava sentado e todo aquele cocô líquido saía em jatos e mais jatos, com um cheiro fortíssimo.

— Eca! Que história nojenta!

— Desculpe, vou pular essa parte — disse a mãe não tão satisfeita, por estar começando a se divertir descrevendo o cocô do rapaz — . Ele então ainda sonolento e agora assustado com tudo aquilo saindo de dentro dele, apenas apoiou os cotovelos nas coxas e esperou que tudo acabasse, mantendo o tempo todo as pernas o mais junto possível pra que o cheiro não tomasse conta da casa inteira, afinal mesmo que morasse sozinho aquilo não lhe seria muito agradável. Quando terminou, ficou curioso pra ver a obra que produziu e resolveu acender as luzes que não tinha nem dado tempo de acender, e foi aí que se assustou mais ainda. Quando olhou pra dentro do vaso notou que sim, realmente estava com uma diarreia braba, mas que aquela era completamente nova: ela era toda azul! Aquele cocô líquido e fedido era completamente azul, como o vestido daquela princesa Frozen.

— Uau, até que seria divertido cagar azul, você não acha?

— Não sei se é uma boa ideia, querida, nosso cocô tem essa cor por um motivo, mas enfim, deixa eu terminar a história — disse e olhou pro relógio na parede.

— O rapaz pensou ainda estar delirando de sono. Aquilo não era possível, cagar azul, onde já se viu? Limpou a bunda, jogou o papel dentro do vaso, deu descarga e voltou pra cama pensando no cocô. O sono logo retornou e enquanto seus olhos pesavam, seus pensamentos foram novamente misturados com a realidade e seu inconsciente, trazendo durante a madrugada pesadelos com o Blue Man Group fazendo uma performance em seu banheiro enquanto ele limpava com papel higiênico todos os locais em que um dos integrantes encostava.

— No dia seguinte resolveu ligar pro seu médico particular, explicou pelo telefone toda a situação e disse estar preocupado. O médico pareceu desconfiado com aquilo, afinal nunca tinha visto em todos os anos nada parecido. Quando o doutor chegou, logo pediu para o rapaz se deitar na cama e começou a fazer as avaliações rotineiras. Pressão estava normal, respiração também, nada na garganta, nos ouvidos, nos olhos e ao que tudo indicava o sistema digestivo também estava normal. O rapaz não entendia, o que diabos ele tinha então? Até que o médico se levantou da cadeira e ele viu algo que arrepiou todos os pelos de seu corpo. A barra do jaleco do médico estava manchada de azul, na parte de trás da perna direita, como se ele tivesse esbarrado numa parede com tinta fresca.

— O que é jaleco?

— É aquela roupa comprida e branca que sua pediatra usa, sabe?

— Ah tá. Que engraçado. Jaleco.

— Sim filha, — disse e olhou novamente pro relógio na parede — mas continuando… Quando o rapaz viu a mancha azul, se levantou depressa da cama e começou a apontar pro médico a região manchada:

“ — Olha! Aí! Tem meu azul em você, devo ter cagado de novo! Ta aí!” — ele gritou e quando fez isso percebeu também que o jaleco do médico estava virado ao avesso, mas não comentou nada.

— O médico olhou assustado pro próprio jaleco, depois pro rapaz e pediu pra que ficasse calmo, que ele ia receitar um remédio e voltaria na semana seguinte. “Semana seguinte!?” o rapaz questionou, e o médico explicou que por ser um caso raro levava mais tempo pra ter certeza do que poderia estar acontecendo. Antes de sair ele deixou um cartão com o rapaz dizendo ser de um especialista de sua confiança e que o aconselharia a entrar em contato enquanto não retornasse na próxima semana. O rapaz agradeceu ainda relutante e agendou uma consulta com esse especialista no mesmo dia.

— O homem que chegou não estava vestindo jaleco ou outra roupa de médico, apenas calça jeans, sapato social e camisa polo. Se sentaram na sala, o homem pegou um bloco de anotações e perguntou ao rapaz o que ele estava sentindo. O rapaz estranhou aquela abordagem mas explicou novamente tudo que havia acontecido. O homem então perguntou:

“ — O que você faz da vida?”

“ — Atualmente eu venho tentando vender umas obras minhas. Larguei o emprego mês passado e estou pintando alguns quadros, mas ainda não consegui vender nenhum.”

“ — E como você se sente em relação a isso?”

“ — Eu… venho estado bem preocupado com essa situação, eu tenho que dar certo, sabe, larguei tudo pra isso. Sei que sou um bom artista, ainda não sou excepcional mas vou chegar lá, estou fazendo de tudo e me esforçando ao máximo todos os dias, mas… o que isso tem a ver com meu problema? Você é especialista no que afinal?”

“ — O Doutor me disse sobre sua situação, vim aqui ouvir um pouco pelo que você vem passando e sentindo, acredito que possa ter a ver com seu problema atual de…”

“ — Que absurdo! — o rapaz interrompeu o homem quando entendeu o que estava se passando — Não acredito que ele me enviou um psiquiatra, ou psicólogo, nunca sei a diferença. Eu tô cagando azul! Azul! E você me vem com esse papo furado de como me sinto? Faça-me o favor.”

“ — Creio que você pode estar muito obcecado com essa questão de ser artista e…”

“ — Fora da minha casa! — o rapaz o interrompeu novamente — Que coisa mais ridícula, onde já se viu, um psiquiatra resolver minha diarreia.”

— E então expulsou o homem sem lhe dar direito de resposta. Após fechar a porta andou pela casa, pensativo, balançando a cabeça, elaborando soluções mas sem conseguir nenhuma. Cansado e com dor de cabeça de tanto pensar, tomou um remédio com o resto de chá do dia anterior e ficou sentado na mesa com seu caderno de rascunhos. Naquele instante brilhou, como se aquela situação toda tivesse feito sua inspiração explodir, acabou fazendo naquela folha o que foi pra ele seu melhor desenho até então. “É isso”, ele pensou, “é esse o traço!”, e exausto logo lhe surgiu aquela confusão mental que vem com o sono e adormeceu ali mesmo.

— Que legal mãe, então ele finalmente virou um grande artista! Mas e o cocô azul, ele descobriu o que tinha acontecido?

— Pois então querida, no dia seguinte o rapaz foi encontrado morto dentro de sua pequena casa, caído sobre uma mesa cheia de tinta esparramada colorindo talheres e xícaras, com a boca toda azul do “chá” que tomou naquela tarde. No fim das contas descobriu-se que nunca existiu chá nenhum em sua mansão, mas sim um delírio de sua mente no qual ele tomava xícaras de tinta que o faziam sentir-se um artista mais talentoso a cada gole.

— O que?? Como assim? Não pode ser, coitado!

— Sim minha filha, por isso cuidado com o que tanto deseja, ou você pode acabar… — interrompeu sua fala pois ouviu um barulho na fechadura da porta do quarto que a deixou em pé, tremendo e com os braços abertos protegendo a cama dos que entrariam por ali.

— Estou falando com minha filha! Ainda não terminei, nos deixem em paz! — disse aos berros para os dois homens de branco que acabaram de entrar.

Os homens se entreolharam, já acostumados com aquela atitude.

— Vocês não vão me separar da minha filha, vocês não tem esse direito! — insistiu.

O mais forte deles se aproximou calmamente da mulher enquanto ela chorava e fez com que ela deitasse na cama.

— Tudo bem, senhora, deixaremos que você fique aqui dessa vez, desde que tome seu remédio. — disse o outro.

A mulher assentiu sem dizer nada, tomou o comprimido com o copo d’água dado em sua boca e se deitou, dessa vez sorrindo, sem nem notar a injeção que lhe era aplicada naquele momento.

— Pronto, minha filha, hoje dormiremos juntas. Desculpe o barulho, eles já vão embora. — disse a mulher pra cama vazia, já com os olhos pesados, sendo carregada pra fora do quarto enquanto misturava seus pensamentos com a realidade e seu inconsciente.