Carreta Chronicles #1 — O Chamado de Fofão

Madrugada de quinta-feira. No chão de uma esquina no centro da cidade repousava abandonada uma fantasia exótica, de roupa colorida, máscara e pantufas peludas. Raul observou por alguns segundos o objeto encontrado e fez cara de pensativo. Colocou as mãos na cintura investigando mais um pouco e suspirou por fim um ar de satisfação. “Eta que hoje é muito meu dia de sorte”, pensou, e decidiu levá-la pra casa imaginando que pudesse trocar aquilo por um pouco de pó, já que dinheiro vivo tava difícil. Definitivamente não imaginou que aquela fantasia lhe traria muito mais que isso e que o encontro entre os dois não foi mero acaso, como descobriria mais tarde.


No colégio, Raul sempre foi popular e líder da sala desde o primeiro dia de aula, não por uma grande inteligência e facilidade pra lidar com pessoas, mas sim pela rebeldia e naturalidade de falar o que viesse na cabeça — geralmente tirar sarro de alguém. Dentro da sala de aula dava showzinho, brigava com professores, não fazia atividades e ia mal nas provas. Fora da sala, nos intervalos, era o melhor jogando bola e chamava atenção das meninas quando tirava camisa — até levar advertência da coordenadora por estar sem o uniforme. Além de futebol gostava muito de dançar, jogava o Just Dance da irmã quando não tinha o que fazer em casa e se considerava um ótimo dançarino, mas essa era a única coisa que não fazia na frente de ninguém com medo de ser julgado como gay. Nunca teve problemas pra chegar em nenhuma garota e seu jeito extrovertido fez com que ele tivesse tudo cedo, o primeiro beijo, primeira transa, primeiro piercing, assim como a primeira ida à delegacia.

Fora da escola seu hobby era pichar com os amigos pela cidade e no próximo dia procurarem no jornal se alguma das pichações virou notícia. A primeira vez que o nome do clan apareceu estampado numa foto do jornal foi um dos acontecimentos mais empolgantes que tivera até então. Pelas habilidades motoras que tinha, era sempre o escolhido pra pichar quando o local era de difícil acesso. Numa dessas saídas a polícia apareceu enquanto Raul terminava de escrever a última letra num viaduto, quando olhou pro lado seus amigos já estavam correndo pelo asfalto e ele se viu sozinho. Atirou discretamente sua mochila com as latas de spray viaduto abaixo, virou e caminhou como se estivesse na orla de Copacabana, o que não convenceu os policiais que logo o capturaram e o levaram até a delegacia. Não foi preso e saiu horas depois acompanhado da mãe.

Com 19 anos terminou o ensino médio, sendo o único repetente da sua turma no último ano. Morava com a mãe e a irmã, não via o pai desde os 12, quando aconteceu o divórcio. Guardava uma raiva e decepção com o pai pelo fato de apenas lembrar dele como um bêbado agressivo ao invés de ter boas lembranças, mas acabou seguindo o mesmo caminho. Com os constantes problemas relacionados às drogas e álcool, foi perdendo um por um os amigos que tinha. O fundo do poço chegou quando foi a um motel acompanhado de duas garotas menores de idade e seu amigo Gustavo. Lá dentro beberam, fumaram, transaram, mas Gustavo acabou passando um pouco do limite, misturando bebidas alcoólicas com o viagra que resolveu usar pra “gozar mais vezes”, segundo ele. Teve uma parada cardíaca e morreu no quarto do motel antes de chegar qualquer ajuda.

O ocorrido deixou Raul desnorteado, e ao invés de reduzir o uso das drogas e mudar de vida, foi cavando mais ainda o poço no qual já estava no fundo. Se tornou agressivo, vendia objetos da mãe e irmã pra comprar drogas, até ser expulso de casa e viver nos fundos da casa da avó. Como não tinha emprego fixo, não seguia uma rotina e muitas vezes madrugava durante a semana, saindo pelas ruas e tentando arrumar amizades que pudessem dividir pelo menos um baseado pra que ele não precisasse comprar. Numa quinta-feira saiu e estranhou o fato de estar acontecendo uma balada naquele dia da semana. “Eta que hoje é meu dia de sorte”, pensou, e foi até as lixeiras em frente a balada pra beber as garrafas que as pessoas da fila abandonavam pra poderem entrar no local. Não aguentando mais passar frio resolveu voltar pra casa apenas bêbado. Caminhava pela avenida vazia se protegendo do frio de braços cruzados, quando levou um susto ao virar a esquina e dar de frente com um corpo caído. Se aproximou e levou outro susto, pois não era um corpo, era um monstro disforme de pés peludos e rosto deformado. Cerrou os olhos, se aproximou mais e percebeu que na verdade era uma fantasia.

Quando chegou em casa pegou logo o maior espelho que tinha e colocou em frente sua porta. Tirou a roupa, colocou a fantasia que acabara de encontrar, foi pra frente do espelho e se observou da cabeça aos pés. Gostou do que viu. Seu celular começou a tocar mas não se preocupou em atender, mexeu a cabeça no ritmo do toque e gostou do balanço que o cabelo da fantasia fazia. Logo começou a mexer o corpo todo e continuou dançando mesmo depois do fim do toque, que era uma música do Molejão. Algo incomodava seu pé direito e ele resolveu tirar a pantufa pra ver o que poderia ser, onde acabou encontrando um cartão de visita no fundo. Pegou o cartão, cerrou os olhos e leu:

Iniciativa Carreta Furacão
Sexta-feira, 15h.
Atrás da Igreja Matriz.
Ir com o traje completo.

Parou, leu de novo, refletiu. Suspirou um ar de satisfação. “Eta porra céloko”, pensou, e decidiu que no dia seguinte estaria com sua nova fantasia atrás da Igreja Matriz.