Até logo

Não sei exatamente quando foi a primeira vez que perdi algo, mas lembro-me perfeitamente que um dia meus irmãos mais velhos e sapecas deram um fim na minha boneca que engatinhava. Foi algo bem difícil de encarar. Foi difícil pra caramba! Caramba, puxa vida, pensar que eu nunca mais iria estar com ela. Brincamos tantas tardes, mas principalmente nas frias e chuvosas, cujo o tempo não contribuía para outras atividades.

E assim, eu fui aprendendo a lidar com as perdas. Perdi coisas, perdi o final de um filme, perdi o rebolado. Perdi a hora e perdi a noção. Convivi bem com isso. Mas, foi anos depois, que aprendi a lidar com as piores das perdas: a morte.

Perdas são sempre duras, mas a morte é muito mais. Se é que isso faz algum sentido.

Confesso que é ilusão a minha acreditar que de alguma maneira sei lidar com algo que não tem remédio e que nem nuca terá, como diz Chico Buarque. Me acostumo. Acostumo a dizer Adeus. Acostumo a apenas pensar. Fui obrigada, ou fomos todos, a nos conformar com uma ideia de “Até Logo”.

Eu não consegui dizer “Até Logo” para tantas coisas, e nem pra minha boneca.

Lendo o livro da Hellene Fromm, As Pedras e o Caminho, me emocionei, tive boas lembranças. Não foi uma emoção de tristeza, foi calmaria, aquela que tem leveza, como se eu estivesse tomando um vinho e escutando jazz.

Um conto infantil. O caminho de Santiago. As ilustrações a giz de cera! Quanta delicadeza. Tudo muito cuidadoso, cheio de detalhes, cheio olhares.

Tenho aprendido tanto sobre olhares.

Chego a acreditar que essa tal de morte é um jeito medonho de olharmos um fim. O caminho pode ter sido completado, mas não é o fim, de alguma maneira ele está lá, outros o farão. Assim é a vida, parece tão contrária à morte. Longe de mim filosofar.

Lendo o livro da Hellene, consegui olhar um caminho diferente:
“Na manhã seguinte, nem podia acreditar, quando vi o sol raiar”.

As palavras do livro me tocaram, mas os desenhos e sua simplicidade, ah, esses me invadiram. Precisamos falar mais sobre a morte!