Dia desses aconteceu comigo

Dias desses aconteceu comigo. Eu acordei, recebi uma notificação do meu querido amigo chamado despertador, que dizia: “hoje é dia de trabalho”. Saltei da cama, estava atrasada, passei pelo Theodoro, meu Yorkshire como um furacão, e mesmo assim ele conseguiu me dar uma lambida nos pés. Não me importei. Saímos apressados, eu e o meu marido. Tudo no automático. Tranca a porta, chama o elevador, entra no carro, ar condicionado para os dias de verão. Seguimos juntos até metro, onde ele gentilmente me concede uma carona. Durante o caminho é sempre a mesma coisa. O Boechat falando no rádio, nos lembrando que em 20 minutos tudo pode mudar, como se realmente prestássemos atenção nisso. Deveríamos?

O trânsito irrita meu marido e eu já não me surpreendo quando ele acelera o carro e sai xingando os carros da frente. Nessa hora, eu olho envocada para ele, com uma das mãos esticada para pegar o batom que foi parar no chão. Fazer a maquiagem faz parte desse ritual mecanizado.

Chegamos no metro, meu radar começa a apitar. Para tudo, ou melhor tudo parado. Meu sinal de alerta passa do verde, depois amarelo e chega no vermelho, numa velocidade indescritível, tão rápido que eu não entendo.

Helicóptero, gente reunida, selfies, indignação. Rostos aflitos, pois seus sistemas não estavam preparados para lidar com o inesperado.

Não estava nos meus planos, em nem no daquelas pessoas, que um cachorro iria invadir os trilhos do metrô e sair caminhando, sem nem se quer pagar passagem. Puta desaforo.

Eu ali, querendo entender quanto tempo eu ficaria parada, desprogramando meus compromissos. Olhei para o lado, despretensiosamente, e vi um menino. Ele me tocou, tocou na alma. Coisa de segundos. Olhei para ele novamente com mais atenção, me desliguei do meu mundo.

O menino estava sorrindo. Tinha as pernas amputadas. Estava pendurado na grade de proteção do local de embarque, quase que de ponta cabeça.

Essa imagem não fazia sentido, olhei de novo, queria me certificar.

Começamos o nosso dia tão envolvidos em nossa própria rotina, que não temos tempo de perceber ou olhar, aquilo que está ao nosso redor, do caminho de casa até o trabalho, por exemplo. Está tudo no automático, e ainda dizem que somos humanos. É questionável.

Nada pode nos tirar da rota, aquela que já sabemos fazer de olhos fechados, pois se isso acontecer, o nosso sistema de “tem algo errado aí” é acionado, e começamos a traçar mecanismos, para que as coisas se normalizem.

Lição do dia: Condições perfeitas, não tornam nosso dia perfeito.

O menino não me viu, mas me ensinou. Precisamos sair da rotina, desconfigurar nosso sistema e humanizar nossos olhares.

O cachorro também não me viu, mas assim como o menino, me ensinou.