Querido diário,

Imagine você que um belo dia eu estava em casa, sentada no sofá, assistindo televisão, quando o interfone tocou. Era o Sr. Luís dizendo que havia uma nova correspondência para retirar na portaria. Fiquei surpresa, já que há um bom tempo não espero por cartas. Você deve imaginar que com a era digital, elas estão cada vez mais escassas.

Calcei o chinelo e desci para buscá-la. Dentro de um envelope, um lindo e delicado cartão postal escrito a mão em letras miúdas:

Que a escrita de Anne Frank te inspire e vos sirva de lembrança da importância da tolerância.

Preciso te dizer o quanto fiquei feliz? Expressei isso através das lágrimas que não se intimidaram em cair dos meus olhos. Aprenda uma coisa, existem presentes que não conseguimos estimar o valor, pois seu preço transcende as coisas desse mundo.

Não estou falando apenas sobre receber um cartão postal direto do museu da Anne Frank House em Amsterdã. Estou falando sobre se importar com o outro, e se importar verdadeiramente é algo difícil para nós, os seres humanos. Não é talento para qualquer um.

Passaram-se alguns dias desde que o cartão postal me foi entregue. Era meu aniversário e, nessa de receber presentes, ganhei um diário de uma amiga recém chegada de Amsterdã. A capa de um vermelho gritante e as folhas em branco imploravam por palavras. De novo querido diário, estou falando sobre se importar. Dois presentes do mesmo lugar, no mesmo ano, e de pessoas que simplesmente se preocupam comigo e com a minha escrita. Pessoas que são capazes de celebrar e cultivar aquilo que me é precioso. Entre uma conversa e outra, elas prestam atenção nos detalhes. De alguma maneira, é como se Anne estivesse me dando um recado pessoal e intransferível:

Escreva e, mais do que isso, traga à tona tudo que está enterrado bem no fundo do seu coração.

Poucos sabem que um dos meus maiores sonhos é poder viajar para Amsterdã e conhecer a Anne Frank House. Não porque quero reviver o seu sofrimento, mas porque, de alguma maneira, me inspiro nela. Tão jovem e com uma vontade enorme de fazer as coisas com amor e ousadia. Exigente e bem humorada, e de uma tagarelice sem tamanho.

Enquanto meu sonho não se torna real, me perco nas páginas do seu diário e conheço um pouco mais sobre a vida de Anne Frank.

Texto de Jaqueline Ariane inspirado no livro “O diário de Anne Frank”.