[Sociedade Limitada]: A cultura profissional limitante

Ou: Porque alguns cursos são mais reconhecidos que outros

É o engenheiro civil desmerecendo o engenheiro de produção. O médico, o dentista e o advogado achando que o farmacêutico não merece o mesmo prestígio que eles. Você é administrador? Coitado! É um perdido que não sabia o que queria. E o que dizer dos músicos, publicitários e designers, que nem profissão de verdade têm?

Só quem já passou pela difícil missão de escolher a sua futura profissão, conhece o drama. Escolher uma profissão com tão pouca idade já é um drama, imagina escolher a “profissão errada”?

Tudo começa com anos de dedicação no Ensino Médio, seja de escolas públicas ou privadas. Nesses três massacrantes anos, que antes prometiam ser o período preparativo para a universidade, os jovens devem absorver todo o conteúdo didático disponível. Como se não bastasse isso, ainda precisa estar antenados em relação às atualidades, basicamente, sobre tudo o que tem acontecido no Brasil e no Mundo. É preciso somar a tudo isso as transformações psicológicas e sociais que rondam a cabeça desses adolescentes.

Aos 17 anos, muitos deles não se sentem confortáveis ainda para fazer a escolha que pode mudar as suas vidas e então, surge um dilema principal: Qual profissão escolher? É no meio desse turbilhão de ideias e questionamentos que a sociedade ocupa o papel de opressor e desvirtuador. As redes sociais unidas ao senso comum preconceituoso preconiza algumas escolhas profissionais em desfavor de outras. O motivo: A maioria das pessoas gosta de assumir o papel de julgador, enquanto expõem as cicatrizes de terceiros, esquecem suas limitações e dificuldades.

Dentre todas as opções disponíveis de cursos e carreiras disponíveis, algumas ganham mais crédito e destaque. Isso não teria nada de negativo se como contrapartida não houvesse o desmerecimento de algumas outras opções de cursos e profissões. É nesse embalo preconceituoso e pouco sólido que muitos adolescentes, com senso crítico limitado, seguem o discurso da maioria de que trabalho e felicidade não andam juntos. Seguindo essa lógica distorcida, todos nós deveríamos procurar por profissões que nos façam ganhar dinheiro, ao invés de investirmos na realização pessoal através do trabalho.

Apesar de frequentemente abordar os jovens no centro da discussão, a realidade não é diferente quando o assunto são os adultos. Segundo essa reportagem de 2013, 72% das pessoas não gostam do seu trabalho. O que reflete em hábitos pouco saudáveis no ambiente de trabalho, exemplos disso são os altos níveis de rotatividade e absenteísmo nas organizações. O mercado de trabalho, e seus influenciadores diretos também têm culpa nesse processo; algumas escolhas profissionais infelizmente ainda são indevidamente encaradas como erros, já que a empregabilidade é frágil.

Em uma busca rápida pelas redes sociais, com o uso da #Administração e #Psicologia por exemplo, é possível verificar alguns depoimentos e deboches acerca dessas profissões:

Reprodução/Facebook

Já em relação às oportunidades que o curso de Administração pode oferecer no mercado de trabalho. Um dos comentários na matéria do portal Guia do Estudante, um dos comentários chama atenção:

Reprodução/Facebook

De forma alguma trabalhos específicos deveriam em pleno século 21, sofrer de discriminação, ainda que isso represente a opinião de uma pessoa. Em relação a outros cursos “mais acessíveis” a realidade não é diferente. Nas imagens a seguir, podem ser visualizados comentários que de alguma forma tentam justificar a escolha pelo curso, usando subterfúgios diversos:

Reprodução/Facebook
Reprodução/Facebook

O Brasil conta com aproximadamente 2558 atividades regularizadas, o que pelo menos em tese, deveria conceder mais espaço e poder de escolha a todos nós. Porém, o que acontece é exatamente o contrário, graças a cultura profissional limitante que nos cerca, algumas profissões ainda ganham mais destaque e reconhecimento. Fica clara a pressão que a sociedade ainda impões quanto à escolha e ao sucesso profissional.

Dessa forma, algumas profissões são em detrimento de outras, sinônimos de status e sucesso. Enquanto isso, outras são destacadas como sinônimo de esforço menor, ou indecisão quanto às suas próprias escolhas.

Diante desse cenário, cabe a cada um de nós a revitalização da civilidade, o respeito em relação a profissão escolhida pelo outro. Basta abandonar a cultura do julgamento vazio, tendo em mente que cada agente profissional é necessário e responsável pela construção de uma sociedade diversa e ao mesmo tempo, humana.

É muito fácil julgar o desconhecido, mas é muito mais prazeroso entender o mundo do outro. Cada profissão tem os seus dilemas, dificuldades e merecimentos, saiba entender isso!