Celeste

em meio ao meu caos interno, perdia-me
dizia-me o quanto eu brilhava
mas pra mim, nunca uma estrela lúcida
uma luz, no máximo crepitante
tentando clarejar a escuridão abrangente
e no meu mínimo senso de gente,
perdia-me
novamente

a ascensão, então verossímil
acabava por me dilacerar as asas
que erguiam-me em direção ao topo
ao mesmo tempo que você, dissimulado
fisgava meus pés de volta ao chão
e com um olhar desvairado
mandava-me de volta a jaula
a gritos em reverberação

por mais que me cegasse os sentidos
por mais que estivesse desnorteado
afogando em minha própria sanidade
sabia, que no fundo, essa auto sabotagem
talvez estivesse mais amena sem você
que ao mesmo tempo que juntava meus pedaços
quebrava-me numa viagem sem volta
para o caminho de seus braços

num último suspiro misericordioso
mando-te de volta ao inferno de onde viestes
junto ao seu ventriloquismo lastimável
não me perderei, como adição, em seu olhar insidioso
pois quando toda a confusão interior terminar
acolhido por corpos celestes, observarei seu ato falho
de reconciliar o inevitável
e perder-se
em seu
próprio

— João Pedro Furtado