Laissez Faire Vs Carteis

[publicado originalmente em Mentejearnica.blogspot.com]

Há um tempo na escola, uma colega minha estava alegremente falando sobre empreender e abrir uma loja de roupas -algo que não é raro na cidade, a proposito-, naturalmente, ela tinha toda aquela preocupação em ter um investimento fracassado e perder dinheiro que teoricamente seria dela e de outros “sócios”, conversa vai e vem e eis que outra menina fala algo sobre pedir a autorização de outros vendedores para poder vender suas roupas, isso iniciou toda a maquinação mental que culmina a esta publicação.

Carteis são agrupamentos de entidades econômicas que de alguma forma se juntam a fim de não competir por clientes, facilitando assim o controle que eles tem sob um mercado.

Imagine que há três lanchonetes, ambas oferecem os mesmo produtos, mas, os donos delas fizerem certas combinações: Lanchonete A venderá pizzas a um preço menor que as outras, Lanchonete B venderá sanduiches a um preço menor que as outras, e a Lanchonete C venderão salgados a um preço menor que as outras. Adicionalmente, cada uma delas não só vai se especializar nesses produtos como também diminuirão a atenção que dão aos outros produtos, para evitar uma concorrência direta com as outras lanchonetes. Dessa forma, cada uma das lanchonetes monopolizará as vendas sobre cada produto e não precisarão de muito esforço para manter esse status.

Outro exemplo foi o que aparentemente aconteceu na minha cidade, eu ouvi um cliente falando que comprava pão lá por afinidade [normal, você é livre pra gastar seu dinheiro com o padeiro que quiser], mesmo sabendo que outra padaria vende o pão mais barato (25 pra 35 centavos fazem um diferença enorme, por incrível que pareça), o dono da padaria não parece ter ficado contente, alegando que ele e outros padeiros haviam tratado em vender o pão ao mesmo preço. Nesse cartel das padarias, a concorrência ainda existiria, já que o pão teria o mesmo preço, os critérios de preferencia acabariam sendo de pura conveniência dos clientes (qual padeiro é mais amigo, qual padaria fica mais perto de casa, qual pão prefere, etc), o critério econômico, sobre comprar o pão de qualidade equivalente aos outros, mas de menor preço não existiria.

Esses são dois diferentes exemplos de cartéis ou oligopólios que acontecem e mostram certa manipulação sobre o mercado, provocada não pela vontade dos consumidores, mas sim dos vendedores.

De volta aos sonhos empreendedores de minha colega: se essa “autorização” para vender realmente existe, como funcionaria? Não sei, mas a existência dela é uma agressão ao principio de livre iniciativa, ou Laissez Faire.

Laissez Faire é um um termo francês, que significa “Deixe Fazer”, é um dos termos da frase “laissez faire, laissez aller, laissez passer” (deixai fazer, deixai ir, deixai passar), a frase pode ser entendida como uma exortação à autonomia individual e a tolerância que ela deve ter por outros indivíduos. A expressão Laissez Faire em um sentido econômico por si só refere-se à possibilidade de ser livre para empreender, de maneira ideal competindo com outras forças econômicas.

Laissez Faire é a iniciativa privada: é o ato de abrir uma farmácia que vende remédios a preços inferiores às outras, é abrir academias em uma cidade que nunca teve disso mas que tinha um publico que comprovadamente iria frequenta-las (Lei de Say: para haver um demanda, é necessário primeiramente haver uma oferta), é abrir uma loja de assistência técnica que além de concertar celulares e vender acessórios oferece comodidades até para quem não é cliente, como internet grátis.

Todas essas novidades vantajosas para os publico, junto à livre iniciativa dos empreendedores só foram possíveis através de outra grande coisa, a livre concorrência.

Há incentivos subjetivos e naturais para quem quer e sabe empreender:

>o cara da farmácia deve ter tido noção de que se vendesse mais barato atrairia publico, ele também deve ter percebido que se criasse filiais em povoados cujo alguns sequer tinham farmácias teria também atraído um publico, pela comodidade de não ter que vir até a sede do município.

>quem abriu a academia já tinha a vantagem de ser pioneiro, isso somado à natural vaidade das pessoas já de cara teria um grande publico o surgimento posterior de outra academia só provou isso, que por ter instalações melhores e talvez mais opções, não só deve ter atraído pessoas que não puderam se inscrever na primeira academia como também antigos clientes dela.

Esses incentivos só existiram por não haver impedimentos a eles. E se por motivos de força maior (e com isso quero principal e propositalmente dizer “Interferência Governamental”)…

…As farmácias deveriam vender tudo ao mesmo preço mínimo? E ainda por cima com baixo lucro?

(pode parecer até estranho, mas seria fácil usar como pretexto a importância dos remédios e como as pessoas de baixa renda se dariam mal com preços altos, então, simples: diminuam os preços ao mais próximo possível do preço de produção! Com isso, os preços cairiam e provavelmente os impostos cobrados ainda seriam os mesmos de sempre, bom pra todos os lados, menos pro farmacêutico, Sistemas Únicos de Saúde e Welfare State funcionam de maneira semelhante, penso eu.)

É de se imaginar que somente as farmácias mais antigas conseguiriam se adaptar a esse novo regime, já que estaria há tempos livres de qualquer divida, que a mais nova poderia falir por provavelmente ainda estar recuperando o investimento inicial e ainda por cima ninguém teria mais os grandes incentivos de abrir uma nova farmácia, já que o tempo necessário para conseguir ressarcir o investimento inicial demoraria bastante.

…A primeira academia ganhasse o direito de ser a única reconhecida pelo governo municipal?

Esse monopólio forçado pelo governo do município geraria duas coisas: 1) A Academia poderia oferecer seus serviços ao maior preço possível que existiria antes de chegar ao ponto das pessoas desistirem de frequenta-la, 2) como única academia, fazer um serviço por excelência em qualidade e quantidade seria opcional. Relacionando os itens 1 e 2, ela poderia fazer o que quiser, como cobrar barato e ter um serviço de má qualidade até cobrar caro e ter um serviço melhor, mas não tão bom quanto poderia ser se existissem outras academias.

O mais cômico desse segundo exemplo é que ele existe! Não com academias, não na minha cidade, mas em diversos lugares do mundo onde os serviços de taxi e transporte coletivo são concessionados pelos governos municipais a empresas privadas (ou publicas), e que qualquer “serviço clandestino” como, por exemplo o Uber, é combatido com paus e pedras pelos dois lados que se beneficiavam pelo monopólio do transporte.

Condensando tudo, é perceptível que só em um ambiente onde a iniciativa privada e a livre concorrência são protegidas e incentivadas, o Mercado se torna saudável e mantido pelas escolhas e votos de quem consume, num ambiente assim, o que prevalece não sãos as tentativas de monopolização das empresas, mas sim as preferencias dos consumidores, O Uber não cresceu por obrigar ninguém a usa-lo, mas sim pelas pessoas preferirem ele e suas características em vez dos táxis, a coisa mais sensata e respeitável para com os consumidores a se fazer é manter a concorrência e o esforço dos serviços pela preferencia das pessoas, sem que o Estado imponha coisas que os desigualam na competição.

Então como o ambiente pode ser saudável?

1 — O Governo ou qualquer instituição com algum poder não deve impedir pessoas e entidades de competirem livremente em alguma área, seja qual for, mantendo a igualdade entre elas.

2 — Carteis, Monopólios e Oligopólios não devem ser incentivados ou mantidos.

Voltemos às padarias, se realmente existe um cartel como ele pode ser desmantelado? Você pode abrir uma padaria e vender um produto bom e barato, ou algum dos padeiros poderem fazer isso, se forem capazes (até porque, com o aumento de preços de matérias primas tudo mais, é até previsível que o pão ter mudança de preço).

Num ambiente de livre concorrência, mesmo com a existência de carteis, há o incentivo de membros desses carteis o abandonarem, venderem mais barato que os que ficaram e ter mais clientes, que preferirão o que for mais barato.

Venda pão bom e barato e enriqueça às custas da burrice dos concorrentes.