Analisando as vencedoras de Melhor Atriz da década no Oscar

A melhor vitória na categoria da década (e não aceito opinião contrária a isso)

Existe uma série de fatores contribuintes para que uma vitória seja anunciada: a performance em si (mesmo que não seja o que ocorra algumas vezes), o tom de “estamos atrasados em premiar determinado artista” e, é claro, um dos mais polêmicos, a campanha. Todo ator/atriz (e o post de ator virá em breve) atinge um momento na divulgação de seu filme em que é praticamente necessário marketar o seu trabalho: seja em capas de revista, seja em escolhas de projetos durante o ano, seja entrevistas em talk-shows, agradecimentos em premiações, aparições em eventos, etc. O importante é promover o filme e se auto-promover, de certa forma. Embora possa ter um tom pejorativo, não há nada de errado nisso (mesmo que, eventualmente, atinjam níveis que pareçam absurdos, como os FYC da Melissa Leo na temporada 2010–2011, para citar um exemplo mais recente). A questão é se todo o buzz gerado em determinado performer/interpretação corresponde ao título de “melhor do ano”.

Sendo assim, seguindo o molde do post anterior recapitulando os vencedores na categoria de Melhor Filme nesta década do Oscar, chegou a vez de falar sobre as atrizes principais que carregaram a desejada estatueta dourada para casa e se o prestígio veio em momento certeiro ou não.

ATENÇÃO: haters da Jennifer Lawrence, fãs intensos de Meryl Streep e Natalie Portman — leiam por sua conta e risco. E não se esqueçam de que o fator “merecimento” é baseado na, muitas vezes, superestimada o p i n i ã o.

2016: BRIE LARSON, por “O Quarto de Jack”
Acima de Cate Blanchett, por “Carol”, Jennifer Lawrence, por “Joy”, Charlotte Rampling, por “45 Anos” e Saoirse Ronan, por “Brooklyn”

Foi uma vitória celebrada? Embora pouquíssimas pessoas soubessem o que é uma Brie Larson antes de “O Quarto de Jack” existir (infelizmente, perdendo assim a época em que ela se aventurou na música, bem antes de “Scott Pilgrim”), sua vitória foi bem vista a partir do instante em que as pessoas descobriram e começaram a assistir “O Quarto de Jack”. Então, sim, foi uma vitória celebrada. 
Foi uma vitória merecida? Sabe, um dos parâmetros que utilizo para julgar uma boa atuação é a intensidade com que o ator/atriz faz você se importar com quem ele interpreta, sem exageros. Se é alguém que deve ser adorado e você consegue adorá-lo, sem exagerar, ponto. Se é alguém que deve ser odiado e você consegue odiá-lo, sem exagerar, ponto. Se é alguém para quem você tem que torcer e esperar que tudo fique bem ao final, peloamordedeus, e ele consegue te passar isso, sem exagerar, DING DING DING, parabéns! A Brie Larson em “O Quarto de Jack” é isso, sem exagerar (o que é bem difícil dada a história de sua personagem e as circunstâncias em que vivia). 
Haviam melhores na categoria? Ano passa e ano vem e a vontade que tenho é a de que possam estender as indicadas a categoria de Melhor Atriz. Tem sido uma das mais fortes há anos — com ressalvas, claro -, e em 2016 não foi diferente. Embora eu goste muito da Brie em “O Quarto de Jack”, ela concorria contra Cate Blanchett em “Carol”. Meu bem, ninguém em 2016 foi melhor que Cate Blanchett em “Carol”. Ninguém. Na verdade, Cate Blanchett em “Carol” não deveria nem estar ali, e sim em coadjuvante, com Rooney Mara ocupando seu lugar na categoria principal. Mas também, em 2016, ninguém foi principal melhor que Rooney Mara em “Carol”.

2015: JULIANNE MOORE, por “Para Sempre Alice”
Acima de Marion Cotillard, por “Dois Dias, Uma Noite”, Felicity Jones, por “A Teoria de Tudo”, Rosamund Pike, por “Garota Exemplar” e Reese Witherspon por “Livre”

Foi uma vitória celebrada? Claro que foi. É a Julianne Moore. Esperávamos há anos uma estatueta em suas mãos.
Foi uma vitória merecida? Aí é que tá. Juju Moore teve um ano bem interessante, se pararmos para analisar por alto: participou de um blockbuster (a saga “Jogos Vorazes”), participou de um filme que não foi muita gente que se preocupou em assistir (“Sem Escalas”), participou de um filme que lhe rendeu o Oscar e fez muita gente se comover (“Para Sempre Alice”) e participou de um filme do Cronenberg em que teve a chance de interpretar o futuro da Lindsay Lohan, conseguindo um prêmio em Cannes como Melhor Atriz (“Mapa Para as Estrelas”). Só pela descrição, já dá para sacar que ela concorreu pelo filme errado, se buscamos falar de merecimento.
Haviam melhores na categoria? Olha, aí é que tá de novo. Não é que seja ruim, mas haviam vitórias mais interessantes (Cotillard e Pike, para citar duas). Agora, se estivéssemos falando sobre “Mapa Para as Estrelas”….

2014: CATE BLANCHETT, por “Blue Jasmine”
Acima de Amy Adams, por “Trapaça”, Sandra Bullock, por “Gravidade”, Judi Dench, por “Philomena”, Meryl Streep, por “Álbum de Família”

Foi uma vitória celebrada? É claro que foi. Qualquer prêmio para Cate Blanchett é uma vitória celebrada, justamente. Até os fãs mais absurdos de Meryl Streep, provavelmente, brindaram em suas casas em respeito a vitória de Cate Blanchett.
Foi uma vitória merecida? Qualquer prêmio para Cate Blanchett não somente é um prêmio celebrado como também é um prêmio merecido. 
Haviam melhores na categoria? Não. Nem o figurino da Amy Adams em “Trapaça”, que é a única salvação daquele filme, foi melhor que Cate Blanchett em “Blue Jasmine”. Melhor vitória na categoria da década sem qualquer disputa. Todos os prêmios sempre que possível para Cate Blanchett.

2013: JENNIFER LAWRENCE, por “O Lado Bom da Vida”
Acima de Jessica Chastain, por “A Hora Mais Escura”, Emmanuelle Riva, por “Amor”, Quvenzhané Wallis, por “Indomável Sonhadora” e Naomi Watts, por “O Impossível”

Foi uma vitória celebrada? Ah, aqui chegamos. Aqui chegamos numa das vitórias mais controversas dos anos 2010, independente da categoria. Aqui chegamos no momento em que a sementinha do hate a atriz mais hypada de Hollywood hoje em dia criou raízes. Aqui chegamos a um possível prelúdio para o que possa vir a acontecer em 2017, caso uma estrela em ascensão (Emma Stone) vença e bata uma veterana (Isabelle Huppert) e uma adorada (Natalie Portman). Bom, aqui chegamos aos fatos também e ao maior textão deste post que por si só já é um textão. 
Se você pegar a lista de Jennifer Lawrence no IMDB, vai reparar que é como se sua carreira tivesse sido estrategicamente programada para dar certo no momento certo. Vamos em pontos:
- De 2010 para trás: foda-se, ninguém tem muito o que comentar a respeito. Talvez só a Jennifer Lawrence sabia antes de 2010 o que é uma Jennifer Lawrence; 
- 2010: “Inverno da Alma”, o filme responsável pela sua primeira (e merecida) indicação ao Oscar de Melhor Atriz. Em 2010, só sabia quem era Jennifer Lawrence quem assistiu Jennifer Lawrence em “Inverno da Alma” ou quem a viu trajando um Calvin Klein vermelho na cerimônia de premiação;
- 2011: “Loucamente Apaixonados”, “Um Novo Despertar” e “X-Men: Primeira Classe”. Dois filmes pequenos de festivais e um filme de super-herói já estabelecido. As pessoas começavam a falar um pouco sobre Jennifer Lawrence, afinal, ela era a nova Mística, mas sem muita euforia;
- 2012: primeiramente, vamos esquecer, para a saúde de todos os envolvidos, que “A Última Casa da Rua” existiu, ok?! Ok. Segundamente: “Jogos Vorazes” e “O Lado Bom da Vida”. BOOM! Uma franquia e um filme que tem cara de OSCAR!!! já que é produto dos Weinstein. As pessoas já sabiam quem era Jennifer Lawrence, apesar de ainda não odiarem Jennifer Lawrence;
- Início do blablabla sobre indicações: tudo bem indicarem a Jennifer Lawrence. Nós gostamos da Jennifer Lawrence em “O Lado Bom da Vida” e nós acreditamos que gostamos da Jennifer Lawrence, em geral; 
- Quando Jennifer Lawrence foi indicada a categoria de Melhor Atriz: aí começou a complicar. Nós gostávamos dela, porque ela era a nova Mística e o novo “X-Men” foi um filme gostável. Nós gostávamos dela, porque ela foi uma das responsáveis para que gostássemos de “Jogos Vorazes”, que inicialmente consideramos que poderia vir a ser um “Crepúsculo” reloaded, mas que felizmente não foi e não era. E nós gostávamos dela, porque a achamos boa em “O Lado Bom da Vida”. Então, sim, pode vir, Jennifer Lawrence, nós gostamos de você. Entretanto, ela parecia ser a próxima queridinha jovem de Hollywood, e só o fato de você poder ser intitulada de próxima queridinha jovem de Hollywood já é motivo para que as pessoas comecem a te odiar. Mas bem, ainda assim, as pessoas não queriam odiar a Jennifer Lawrence somente por ela parecer ser a nova queridinha jovem de Hollywood. Nós gostávamos dela, não gostávamos?!
- Quando Jennifer Lawrence começou a ganhar prêmios de Melhor Atriz por “O Lado Bom da Vida”: talvez nós não gostemos tanto assim de Jennifer Lawrence. Ela insiste em parecer que é uma garota comum, quando na verdade é a maior estrela em ascensão de Hollywood e ela fala demais;
- Dia 24 de fevereiro de 2013, Teatro Dolby, Hollywood, Califórnia. Um tombo a caminho do palco, uma estatueta dourada nas mãos e um discurso: ALGUÉM POR FAVOR PARE JENNIFER LAWRENCE;
- O mês seguinte: NÃO AGUENTO MAIS JENNIFER LAWRENCE;
- O ano seguinte: JENNIFER LAWRENCE É A TAYLOR SWIFT DO CINEMA;
-Atualmente: NÃO AGUENTO JENNIFER LAWRENCE SER INDICADA POR RESPIRAR AR NOS FILMES DO DAVID O. RUSSELL. PAREM JÁ JENNIFER LAWRENCE E DAVID O. RUSSELL. ELA É A PIOR ATRIZ DE TODAS. TIREM JENNIFER LAWRENCE DAÍ. JENNIFER LAWRENCE É O NOVO HITL;
- Daqui alguns anos: acho que a Jennifer Lawrence irá sobreviver, apesar de tudo.
Não precisava ter escrito tudo isso, mas foi divertido recapitular a saga de hate a JLaw (eu detesto esse apelido porque ele me lembra o Jude Law, então não sei porque estou o utilizando) de maneira reduzida. 
E bem, em suma: não, não foi uma vitória celebrada. Talvez tenha sido pela fanbase da Jennifer Lawrence, que deve existir em algum lugar, porque toda queridinha jovem de Hollywood tem uma fanbase em algum lugar. Mas num geral, por uma parcela, foi uma vitória “tá, beleza”; por outra, foi heresia uma novata vencer uma veterana no que poderia vir a ser um de seus últimos papéis com chance de reconhecimento e que, olhando agora, em retrospecto, foi como se tivesse sido mesmo. Entretanto, não foi uma vitória odiada, só veio a ser no dia seguinte. 
Foi uma vitória merecida? Embora no meio de todo esse ódio as pessoas acabem se esquecendo de focar na atuação para avaliar o artista ou o que o fulano está sendo na indústria, a vitória de Jennifer Lawrence não foi todo esse absurdo como tentam pintar. Nem exatamente um choque. Ela estava se tornando a queridinha jovem de Hollywood, estava em filmes que muitos gostaram (tanto público, quanto críticos), estava fazendo campanha intensamente e, embora concorresse de frente com uma veterana (Riva), e com sua maior rival no início da temporada (Chastain), sua vitória foi aceitável porque sua performance em “O Lado Bom da Vida” era boa sim, e porque, antes de tudo, ela é boa atriz e já estava provando isso.
Haviam melhores na categoria? Bom, aí já é outro caso. Não assisti “Amor” porque tenho medo do que ele possa provocar no meu emocional, portanto, não posso falar sobre a Riva, mas naquele ano eu torcia bastante pela sutileza da Jessica Chastain. Ainda assim, como disse, foi uma boa vitória, porque, sim, a Jennifer Lawrence estava bem em “O Lado Bom da Vida” e porque, sim, como também já disse, ela é boa atriz e, é, a essa altura do campeonato, ela já provou isso.

2012: MERYL STREEP, por “A Dama de Ferro”
Acima de Glenn Close, por “Albert Nobbs”, Viola Davis, por “Vidas Cruzadas”, Rooney Mara, por “Os Homens que não Amavam as Mulheres” e Michelle Williams, por “Sete Dias com Marilyn”.

Foi uma vitória celebrada? É preciso compreender que não há atriz em Hollywood capaz de unir todas as tribos (tal qual o Norvana) como a Meryl Streep. Todos amam Meryl Streep. Todos veneram Meryl Streep. Todos da indústria e todos fora da indústria (exceto um presidente laranja, mas foda-se ele pra lá) querem construir um pedestal para Meryl Streep. E se você, por um breve instante, ousar em discordar disso, estará cometendo um atentado contra sua própria vida e sanidade. Isso não é nenhuma novidade. Foi uma vitória celebrada, óbvio, mesmo que o filme tenha sido um lixoooo e mesmo que as pessoas compreendam que a Margaret Thatcher não é das indivíduas mais agradáveis dos livros de história. 
Foi uma vitória merecida? Aí é que tá. Celebrada foi, mas merecida, hmmm, há controvérsias. Há quem defenda a vitória de Meryl Streep com o argumento de que ela é a Meryl Streep e que seu último Oscar na categoria principal fora há mais de 30 anos atrás, com “A Escolha de Sofia”. Há também, no entanto, quem acredite que o filme era puro lixoooooo, foda-se essa merda, Meryl Streep tá vivendo uma caricatura e era hora de, enfim, premiarem a Glenn Close. Ou era hora de começarem a reconhecer a Viola Davis. 
Haviam melhores na categoria? Pra se ter uma ideia, até a Rooney Mara, que tinha 0 chances de vitória e que deixou os cabelos do cy arrepiados de quem acompanhou a temporada e viu, com surpresa, seu nome junto ao das indicadas, merecia mais a estatueta de Melhor Atriz.

2011: NATALIE PORTMAN, por “Cisne Negro”
Acima de Annette Bening, por “Minhas Mães e Meu Pai”, Nicole Kidman, por “Reencontrando a Felicidade”, Jennifer Lawrence, por “Inverno da Alma” e Michelle Williams, por “Namorados Para Sempre”.

Foi uma vitória celebrada? Bom, foi. A Natalie Portman tem uma fanbase calorosa dentro dos adoradores de cinema, que a acompanham há anos e que ficaram extremamente felizes com seu reconhecimento num momento certeiro. E “Cisne Negro”, de alguma forma, também tem uma fanbase calorosa que achou que nenhuma atriz chegava a seus pés naquele ano e nenhum filme também. Foi celebradíssima. 
Foi uma vitória merecida? A vitória de Natalie Portman acompanha a pequena controvérsia de que não era ela na maioria das cenas de balé de “Cisne Negro”. Era a Natalie sim, mas somente em 5%. Há os defensores do Oscar que alegam que foda-se, não importa se era uma dublê, porque a presença da Natalie no filme não se restringe as cenas de dança; e, claro, aqueles que discordam, argumentando que é uma farsa, um conto do vigário para que ela pudesse vencer a estatueta e os votantes pudessem ficar impressionados com sua dedicação, sendo que, na verdade, era uma personificação do nada acontece(u), feijoada. E os dois lados são aceitáveis: “Cisne Negro” não é mesmo sobre uma sucessão de imagens de balé, o que logo favorece a Natalie Portman por sua performance conturbada; ao mesmo tempo em que parece ofensivo que tenham deixado baixo o fato de terem utilizado uma dublê para que pudéssemos pagar pau para a Natalie Portman. Meio merecido, se você concorda com isso.
Haviam melhores na categoria? Embora qualquer fanático pela Natalie Portman ou por “Cisne Negro” queiram me dilacerar por isso, eu prefiro a Michelle Williams, que não utilizou nenhuma dublê e não precisou de nenhuma transformação para viver seu papel em “Namorados Para Sempre”. Mas a vitória de Natalie é justa. Meio justa, se você concorda com isso.

2010: SANDRA BULLOCK, por “Um Sonho Possível”
Acima de Helen Mirren, “A Última Estação”, Carey Mulligan, por “Educação”, Gabourney Sidibe, por “Preciosa” e Meryl Streep, por “Julie & Julia”

Foi uma vitória celebrada? É claro que foi. Sandra Bullock é queridinha em Hollywood pelo público e se você não é queridinha jovem e nem a Jennifer Lawrence, você não somente é queridinha em Hollywood como também é uma queridinha universal com poucas probabilidade de ódio. 
Foi uma vitória merecida? Errr… Quando a temporada engatou, as pessoas já sabiam que a Sandra Bullock era a favorita, porque ela tinha uma narrativa, era uma queridinha e sua performance em “Um Sonho Possível” havia sido elogiada. Entretanto, olhando em retrospecto, é uma das vitórias em que esperávamos que a Academia pudesse colocar a mão na consciência e esperar que quem sabe, algum dia, talvez, Sandra Bullock pudesse participar de um filme melhor e que seria mais fácil de defender sua vitória como a queridinha que é.
Haviam melhores na categoria? Sim. Eu, particularmente, daria o voto a um tipo de performance que surge de tempos em tempos e que quase sempre é menosprezada por alguns, por ser algo pequeno, mas que exige carisma e presença, como foi a Carey Mulligan, em “Educação”.