Matt Damon é Bourne, Jason Bourne — e o que o cinema de ação ganhou com isso

Matt Damon em três tempos como o espião Jason Bourne nos cartazes dos filmes “A Identidade Bourne”, “A Supremacia Bourne” e “O Ultimato Bourne”, respectivamente

Matt Damon hoje é um dos mais rentáveis nomes de toda a indústria Hollywoodiana. Seu currículo, além de diversos sucessos de bilheteria, inclui parcerias com muitos diretores de peso do cinema, como Martin Scorsese (“Os Infiltrados”, 2006), Steven Sodebergh (“O Desinformante!”, 2009 e “Contágio”, 2011), Terry Gilliam (“O Teorema Zero”, 2013), Clint Eastwood (“Invictus”, 2009 e “Além da Vida”, 2010), Irmãos Coen (“Bravura Indômita”, 2010), Christopher Nolan (“Interestelar”, 2014) e, mais recentemente, Ridley Scott (“Perdido em Marte”, 2015), num papel que lhe rendeu a segunda indicação ao Oscar como Melhor Ator (sendo a primeira por “Gênio Indomável”, 1997) — tendo perdido, desta vez, para outro veterano que há tempos batalhava pela estatueta. E não acaba por aí: para 2017, seus projetos incluem um filme dirigido por George Clooney (“Suburbicon”) e outro por Alexander Payne (“Downsizing”). Soa como a definição de um grande astro, não?! Porém, há 15 anos atrás, difícil talvez seria imaginá-lo consagrado e respeitado no alto escalão da sétima arte.

Embora indiscutível tenha sido seu triunfo com “Gênio Indomável” — incluindo um careca de ouro em parceria com seu amigo de longa data, Ben Affleck — o começo do milênio para o ator norte-americano foi pautado por irregularidades, e o verdadeiro prestígio que ajudou a estabelecer o Matt Damon que o século XXI atualmente conhece só foi alcançado com uma sequência de filmes que mudaria os rumos não apenas de sua carreira, mas também do gênero em que estão inseridos.

Na trama de “A Identidade Bourne” (“The Bourne Identity”, 2002), um homem é encontrado flutuando no oceano e é resgatado pelos navegantes de um barco pesqueiro. Além de duas balas presentes nas costas, em seus quadris encontra-se uma espécie de documento à laser, possuindo a numeração de uma conta bancária localizada em Zurique, Suíça. Ao despertar, pouco o sujeito fala e sabe dizer sobre sua existência, dando claros indícios de ter sofrido amnésia. Diante disso, o estranho (tanto para si, quanto para nós) se vê obrigado a seguir aquele único indício que poderia ajudá-lo a restaurar a sua memória e história.

O desenvolvimento do mistério, que aos poucos vai ocorrendo em cada uma das sequências que se alternam entre a fuga de Bourne — e Marie, outra personagem “à deriva”, vista naturalmente como sua metade da laranja — versus os operários de uma agência de investigação, é o fio de “A Identidade”. A busca pelo que se é, embora não assuma postura tão filosófica quanto se propõe em teoria, está implícita na história, e é acompanhada pelo espectador que, a cada instante, junto ao protagonista, vai desvendando mais sobre a existência daquele homem e mais se questiona sobre seu real caráter.

A performance enérgica de Damon, o time composto por outros nomes reconhecidos e relativamente novatos, como Julia Stiles, Chris Cooper, Brian Cox, Clive Owen e Franka Potente, além das belíssimas paisagens dos países europeus que serviram como cartão de visita para o filme, estabeleceram uma forma de marcação para o que viria a seguir.

Para a surpresa de Doug Ligman, que batalhou com o estúdio durante as filmagens e produção para conceber como deveria ser a roupagem para a adaptação homônima do romance do espião Jason Bourne de Robert Ludlum, lançado em 1980, “A Identidade” se tornou um sucesso de bilheterias e crítica. E não apenas isso. O longa foi além. Muito além: acabou impulsionando um novo patamar para o que deveria ser esperado dali para frente de um filme de ação.

O cenário, também, era outro, e, de certa forma, contribuiu: um mundo recém abalado pelo atentado de 11 de Setembro de 2001 teve de reformular o seu conceito de fazer (e enxergar) cinema no Ocidente. O antes e depois da queda das torres gêmeas se tornou o novo paradigma para a delimitação da contemporaneidade na arte e cultura, e, neste pós, as mirabolâncias e improbabilidades contidas no gênero onde quase tudo era possível talvez não fossem tão mais atrativas. Assim como um protagonista repleto de glamour (como seu rival indireto Bond, James Bond) ou de físico evidente para o combate (como os galãs da década de 80) não eram mais sinônimos de frescor e necessidade.

Inclusive, não que esta trilogia não possua certos exageros. Afinal, no mundo concreto, qual a probabilidade de um sujeito possuir as habilidades físicas e intelectuais invejáveis superdesenvolvidas como as de Jason Bourne?! Entretanto, a diferença estava na maneira de se contar a história, que ocorreu de forma muito mais realista e palpável, sendo especialmente salientada nas continuações seguintes.

Êxito alcançado, dois anos depois, com a saída de Doug Liman e a promessa de uma nova narrativa em mãos, o quase desconhecido diretor britânico Paul Greengrass foi o responsável para encabeçar o retorno do superespião ao lado do elenco restante, no eletrizante A Supremacia Bourne” (“The Bourne Supremacy”).

As diferenças entre Liman e Greengrass é nítida logo nas primeiras montagens dos filmes. Cada um possui seu mérito e a maneira de capturar os frames de ambos é admirável, mas, ouso dizer, pouquíssimos cineastas colocaram tanto estilo quanto este último nas sequências de ação dos últimos anos. O impacto foi tanto que sua assinatura registrada viria a ser replicada à exaustão no cinema, independente do gênero.

Greengrass e sua “shaky cam” injetaram tudo o que a saga Bourne necessitava e não sabia que era preciso: um maior senso de imediatismo e de energia à flor da pele. De repente, era como se as próprias remexidas da câmera configurassem como o estado mental e físico do protagonista e seu universo, e o público, imerso como espectador ao visualizar a trama se desenvolver sob os olhos, conseguisse captar isso mais nitidamente.

Neste “A Supremacia”, porém, faço uma pequena ressalva (mesmo que o admire bem mais que o antecessor e não tenha discorrido a respeito). É um filme excelente, certamente. Há sequências incrivelmente tensas, bem construídas e de tirar o fôlego, e os machucados de Bourne (tanto no exterior quanto no interior, ocorridos após uma das mais importantes sub-tramas da saga nos primeiros minutos de projeção) o tornam muito mais humano e ajudam com o tom de “talvez esse cara não seja assim tão invencível”. Mas, ao mesmo tempo, a câmera de Greengrass treme em excesso. É difícil discernir em algumas cenas, por exemplo, o que é que acontece e quem é que está sendo atingido. A proposta é válida, mas a execução, por vezes, é confusa.

Entretanto, o diretor parece ter aprendido a sua lição posteriormente. Há discordâncias, no entanto. Alguns preferem as lutas de “A Supremacia”, seu tom escancaradamente mais próximo ao thriller que da ação do primeiro longa e acreditam que sua direção é menos “balançada”; outros — como eu -, acreditam que o encaixe perfeito entre a estética e os gêneros afins se fundiram em “O Ultimato Bourne” (“The Bourne Ultimatum”, 2007), o último filme da trilogia — que contem em sua estante três prêmios da Academia do ano em que foi lançado.

“O Ultimato”, como o melhor exemplar da saga, é um dos filmes definitivos de ação dos últimos 10, até 20 anos (ou talvez de todos os tempos?!). As sequências ambientadas em Marrocos e na estação Waterloo são perfeitos exemplos de como filmar (e editar) um momento que deveria ser — e, bem, acaba sendo — sinônimos da mais pura tensão.

Não apenas inusitado ao registrar suas cenas de tirar o fôlego, a última parte da trilogia “original” igualmente emprega uma história que expõe a corrupção e ambiguidade por dentro dos espaços governamentais americanos — uma escolha que se difere das opções também surgidas pós-11/9, em que muitas vezes o Ocidente, em especial a Terra do Tio Sam, era vista como uma espécie de “salvadora da pátria”, em detrimento de um Oriente constantemente demonizado.

É compreensível então perceber que assistir e apreciar a trilogia Bourne, até para quem não se coloca como grande fã do gênero, é uma experiência singular. As lutas e os conflitos, talvez atualmente, não tenham tanto a sensação de novidade para alguns, já que vieram a ser imitadas com tanta frequência nos últimos anos; às vezes satisfatoriamente, às vezes não. No entanto, há o reconhecimento de que foi ali onde tudo começou, e a observação disso, atrelada ao crescimento do protagonista (dentro e fora das telas), tornam a trilogia um marco cinematográfico dos últimos 15 anos.

O singelo sorriso de Julia Stiles como classificação para os filmes da trilogia:

“A Identidade Bourne” (“The Bourne Identity”, 2002)
“A Supremacia Bourne” (“The Bourne Supremacy”, 2004)
“O Ultimato Bourne” (“The Bourne Ultimatum”, 2007)

Em 2016, Jason Bourne voltou para as mãos daqueles que o consagraram, após uma sequência não tão bem recebida como as demais, encabeçada por Jeremy Renner (“O Legado Bourne”, 2012). Por mais que, de antemão, sua existência não seja vista como necessária — afinal, não foram abertas margens para continuações, a julgar pelo incrível e satisfatório final de “O Ultimato” —, não deixará de ser assistida e contemplada, por conter Damon nas mãos do personagem que o lançou ao estrelato e, também, pela empolgação que é escutar Extreme Ways repaginada com o rolar dos créditos finais.