O peso de uma criação conservadora
S. Paiva
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Oi querida!

Me identifiquei em boa parte do seu texto, exceto por eu ser quem eu sou: rebelde de primeira classe, desde os três anos de idade (que eu me lembre).

Sempre quis e fiz o contrário do que minha mãe me dizia. Meus pais vieram do interior do RS e eu vivi boa parte da vida no interior do GO, do TO e do PR. Mas a maior parte da vida no DF (uns 20 e poucos anos).

Digo, minha mãe me explicava que eu não podia colocar o dedo na tomada, senão levaria choque. Eu concordava com ela, mas assim que ela não estava eu colocava. Eu tinha essa de duvidar muito da minha mãe, sempre achava que ela queria me enganar.

Certa vez ela me mostrou uns grãos de soda cáustica e disse que aquilo não era sal grosso e que eu não deveria colocar na boca, senão eu derreteria e podia morrer. . . Lógico que eu achei de uma imaginação incrível que ela tinha para tentar me manter afastada do sal grosso. . . Eu apenas esperei a oportunidade de ela sair de casa (e me deixar sozinha em casa, com uns 4 anos de idade), para lembrar “o que é mesmo que ela disse pra eu não fazer? Ah é! O sal grosso…” e correr para o pote que ela me mostrou e guardou. Antes de colocar na boca eu me preparei, fiquei de frente ao tanque e pensei vamos ver qual é a desse sal “soda”… foi uma queimadura horrível na língua, ela só encostou na minha língua e eu já a cuspi no tanque e comecei a lavar a minha boca. Minha mãe chegou e eu estava lá chorando, com a língua em carne viva, com a boca embaixo da torneira aberta. Resultado: perdi e alterei muitas papilas gustativas nessa “malinagem”.

Mas isso não fez eu começar a confiar de vez na minha mãe. Só melhorou um pouco minha confiança nela. Quando eu fui morar com minha avó por uns dois ou três meses depois que meus pais se separaram, eu engordei muito. Muito mesmo, ao ponto de ser rejeitada pela minha mãe quando me viu e não me reconheceu como sua filha. Foi depois disso, de começar a sentir o preconceito na pele dentro e fora de casa, foi que comecei a me dedicar mais para tentar ser uma filha perfeita, para agradar minha mãe.

Percebi que ela, apesar de detestar minha forma física e de fazer uns terrorismos psicológicos comigo, me amava e cuidava do meu bem estar. Diferente de muita gente que não era da minha família.

Mas isso só durou alguns anos… quando eu fui para o ensino médio, meio que chutei o pau da barraca e voltei pra minha rebeldia nata. Despiroquei total, em Brasília.