Um conto sobre mercúrio retrógrado ou a zona sul é paz no caos

Jéssica Silva
Aug 23, 2017 · 3 min read

Já faz um tempo que eu ando me interessando por filosofia. Precisava compreender um pouco mais do mundo em que vivo. E também já não fazia mais sentido morar apenas na minha cabeça. Estudar filosofia é como estabelecer uma ponte que liga o mundo em que estou imersa ao caos que acontece aqui fora. Não que minha cabeça seja menos caótica, sim, mas… lá eu me sinto segura. Aquela frase besta de “minha bagunça é organizada”, o meu caos é bem mais belo do que reina aqui fora.

Pois bem, é o segundo curso de filosofia que faço sobre Deleuze e sempre é no Rio de Janeiro. No horário que eu chamarei de “o caos” do caos: seis horas da tarde. Nesse horário, não importa muito o lugar de onde seja o curso, vai ser difícil chegar na hora. E pontualidade não é meu ponto forte. Mesmo morando há dez anos no subúrbio de Niterói, parece que eu não aprendi muita coisa sobre o trânsito das “grandes cidades” (entre aspas porque Niterói não é lá exatamente uma grande cidade). E como hoje eu sei que não importa o lugar que eu more, eu sempre vou acabar chegando um pouco atrasada se me deixar levar pelos tantos contratempos que me acontecem, eu posso dizer que amo morar no subúrbio. Principalmente o de Niterói (não que eu tenha morado em algum outro), mas o de Niterói parece ser um buraco no espaço que me leva para uma cidade pequena. E ele ainda tem uma ligação secreta e direta à ponte Rio-Niterói, que me quebra inúmeros galhos por sair sempre em cima da hora.

Mas, como eu gosto de astrologia e de arranjar um grandioso porquê para todas as coisas que me ocorrem, hoje que foi dia seguinte ao eclipse, rolou alguma coisa de diferente. Um pouco pior do que o eclipse, uma situação que me afeta bem mais, mas que de fato só faz sentido se você acreditar e entender um pouquinho de astrologia: mercúrio está retrógrado. Quando mercúrio está retrógrado eu costumo pegar o metrô para o lado errado (sim, no Rio mesmo que só tem duas linhas), e hoje não podia ser diferente. Já estava bastante atrasada quando esperava a baldeação para o museu que o curso acontece, quando, sem demora, passou o ônibus que supostamente passaria perto do museu. Como um bom período de mercúrio doidão, ele não passou perto e eu também só fui perceber que estava em outro caminho quando já estava para lá da metade da viagem. Que tonta. Enquanto tocava ao fundo da cabeça a banda nova que eu descobri no Spotify há uns dois meses atrás, fiquei matutando qual seria a melhor solução para o pequeno dilema que eu acabara de entrar. Tentaria ir para o curso sem muito sucesso? Iria direto para o local que estou alocada por uma noite e choraria minhas pitangas por ser tão fracassada? Não. Decidi fazer uma coisa que eu achava que nunca tinha feito e em segundos estava decidida: iria ao cinema sozinha.

E foi não menos do que incrível. Escolhi o cinema que eu preferia por saber que a exibição é quase sempre boa, escolhi o filme que eu queria ver, no horário que eu queria. Enfim, vários somente “eu” que respondiam às perguntas necessárias. E foi bom e tem sido bom. Comer uma fatia de pizza com uma Heineken sem pronunciar uma palavra. E quando pronuncio é pra falar sozinha mesmo. Um silêncio total e irrestrito. Falo o que quero, quando quero; faço o que quero, quando quero. Não sei se eu não gostava da solidão, acho que eu só não tive tempo de ter alguma familiaridade com ela.

Esse era pra ser um texto triste sobre os momentos que tudo dão errado. Mas é mais uma máxima clichê que o errado serve pra ensinar o caminho certo… Bom, não sei se descobri esse caminho certo, mas sei que o “errado” me dói menos e a solidão… Ela não me dói. A solidão é como um oásis num frenesi que eu aguento todo dia do “não faça isso”, “se comporte desse jeito”, “você é uma mulher agora”.

E é na solidão que eu descubro de fato a mulher que eu sou.

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