A inenarrável odisseia de usar tênis de academia

Porque se sentir outra pessoa completamente diferente é essencial, pelo menos de vez em quando

Eu não uso tênis de academia. Acho muito feio. Apesar disso, resolvi usar um que meu irmão me deu pois não encaixou direito no pé dele; além do mais, meus outros estavam sujos.

Antes de tudo: a parte mais difícil de calçar um tênis não é o ato em si, mas achar um par de meias - iguais e limpas, de preferência- para colocar no pé de quem se propõe a tão nefasto ato.

Feito o trabalho hercúleo, procuro os tênis. Eles estão no armário, isso eu sei, a Rosa -nome fictício- colocou lá.

Acho-os e me sinto pleno: de certa forma, brancos e imponentes são bonitos, tal qual um árabe puro-sangue, imagino que devam ser bem tratados para que sejam utilizados para os mais nobre fins.

Calço-os e sinto a euforia de ter o mundo aos meus pés. Nunca imaginei que diria isso a uma alemã nascida na década de 50- exceto àquela avó do meu amigo, um amor-, mas Adidas, eu te amo.

Usar tênis de academia realmente levanta seu moral. Por onde passa você não é apenas uma pessoa normal, calcando aos pés a consciência de estar existindo. Você é o homem moderno, atribulado, que entrega suas coisas em dia e preza pelo conforto em tudo.

Você é aquele cara de tatuagem tribal que tira os óculos escuros pra entrar no banco, cruza os braços e espera na fila. Olha ao lado, todos te invejam de certa forma. “Olha que despojado, de blusa, bermuda e tênis de correr… Esse deve mesmo viver a vida”.

Você sai do banco, colocando a carteira no bolso, pensando no quão confortável está no momento. Ouve sertanejo no carro; sim, você é mesmo descolado. Nesse meio tempo baixa o vidro e encara aquele seu Tag Heuer do Duty Free que até seu chefe encara às vezes, com uma certa inveja por todo seu charme sutilmente exalado.

Você vai pra casa, tira os tênis, guarda-os. Passa um pouco de pó Granado, lógico, dá uma limpadinha com pano úmido e joga as meias no cesto de roupa suja, esperando que um dia eles voltem da dimensão alternativa para onde a funcionária os joga toda terça-feira.

Vai tomar banho, parece propaganda da Gillette (mas sem o kaká, ‘cause religion is bullshit). Você é mais o Cristiano Ronaldo (ele bateu uma Ferrari, combina muito mais com você), ou o Neymar, que pegou a Marquezine. Você é o cara. Todos sabem disso.

Você deita na sua cama gentilmente forrada por lençóis de algodão 700 fios e não tarda a pegar no sono. Cai nos braços de Morfeu com a mesma rapidez que aquele dinheiro das ações da Gerdau caem em sua conta. Fez seu dia. Hoje é sexta-feira, depois de amanhã é domingo e segunda-feira você sabe o que será: outra vitória. Par for the course.

(Que homem nunca se viu assim frente ao espelho?)

O que escrevi acima, ainda que que de modo sucinto, infelizmente não aconteceu comigo. Não de forma literal. Senti-me, claro, incrível, tal qual um César prestes a tomar uma grande decisão por seu povo, ou até mesmo um gladiador entrando na arena. Mas não tenho um Tag Heuer, muito menos dinheiro no banco. Devo, porém, tais sensações e devaneios única e exclusivamente a um confortável par de tênis com listras pretas. Imagino que nada mais agrada o homem que o conforto e a noção de que está seguro, coisa que logo senti ao envolver meus pés naquele conjunto de tecidos tão sutilmente costurados por crianças vietnamitas. Desculpa, crianças. Lutem por leis trabalhistas.

Concluo, então, minha resenha que, por tão positiva, posso chamar de Ode. Imagino, assim, que esse deva ser o ponto mais próximo que alguém pode chegar de usar as mitológicas asas que Hermes tinha nos pés: rápido, decidido, habilidoso e, além de tudo, um Deus grego. Danke, Adidas!