A Conta do Bar

As noites sempre começam bem. A euforia nos leva a algum lugar inundado por mesas e pessoas. Queremos ver gente. Falar, rir, sentir com as pessoas. Queremos esquecer o dia, a gente comum que nos rodeia no trabalho e na faculdade; queremos fazer algo grande que se coloque no lugar das lembranças diurnas, como se no bar, à noite, pudéssemos nos tornar menos medíocres do que o que somos.

Então algumas cervejas são pedidas. Dependendo da situação, também alguma vodca e porções ou espetos. Por algumas horas todo mundo é feliz e as pessoas parecem lindas e interessantes.

Evoca-se algum acontecimento. Algum fato ocorrido noutra noite. Comenta-se, buscando sempre as nuances que passam despercebidas aos olhos da maioria. Um mico, uma fala, qualquer coisa se torna grande e digna de debate e apreciação.

E o tempo passa e o álcool vai se alojando no corpo. A alegria do início parece que se vai distanciando. Ficamos anestesiados, um tanto irritadiços. As pessoas já não são lindas. Se alguém nos olha diferente, torto, de imediato queremos tirar satisfação. Queremos falar verdades para as pessoas. É hora de ir embora.

O garçom chega com a conta. Nos entreolhamos. “Iremos dividir igualmente”, alguém diz. “Mas eu quase nem bebi nem comi”, ouve-se na outra ponta. E assim, discutindo pra ver quem consumiu mais, percebemos que somos tão medíocres como antes, só que agora não sentimos vergonha ao admitir.

As noites sempre terminam mal. Se não for pelo vômito secando na roupa ou pelos inimigos adquiridos no bar, é pelo simples fato de chegar ao fim , indicando o início de um novo dia.