O Abismo da Existência

“No princípio eram apenas dois, um homem e uma mulher…”

Ecoou, atravessando o abismo da existência, do qual preparavam-se para se jogar os dois camponeses, Gabriel e Joaquim.

“Adianto, continuou a voz, antes de dizer qualquer outra coisa, o que da boca deles saiu: Aquele que bom for em terra, bem será tratado no reino dos mortos. Aquele que em terra não foi bom, castigado será, sofrendo, no mesmo reino, as maiores torturas, que só não o matarão porque morto já estará.”

Nunca ninguém havia dito aos nossos camponeses tais palavras. Nunca ninguém falara sobre o primeiro homem e a primeira mulher ou sobre um reino pós-morte. Algum efeito aquelas palavras causariam no decorrer dos séculos.

Joaquim foi que primeiro a retroceder. A poeira já se misturava com a escuridão do abismo quando ele deu um passo para trás.

— Gabriel, vamos ouvir o que o homem tá dizendo.

— Não, eu não quero! Vou me jogar logo. não suporto um por do sol a mais.

— E se existir o que ele falou?

— Não seja idiota! o que esse homem poderia saber? Ele é tão ferrado como qualquer um de nós!

— Pois eu não vou! Sinto muito…

Joaquim se virou na direção contrária a do abismo e saiu andando, sem olhar para trás.

Não via as pedras em que pisava ou os galhos que pareciam se precipitar contra ele. Estava em transe, com a mente sendo preenchida apenas pelas palavras que ouvira.

Quando voltou a si, estava na frente de sua cabana, onde entrou e deitou-se na velha esteira de palha. A cabana era escura, coberta por folhas e revestida por galhos e barro. O cheiro de palha mofada não lhe atrapalhou o sono.

Acordou sentindo-se estranho. Não era uma sensação ruim. Muito pelo contrário. Joaquim se sentia leve. Sentia como se pudesse pular do chão e chegar ao topo da cabana, sem responder às leis da gravidade. Pela primeira vez ele tinha um objetivo e sentia que a vida valia a pena.

Levantou-se e foi ao roçado atrás da cabana, onde trabalhou durante todo o dia, parando apenas quando sentiu fome e ao entardecer.

O sol ia longe e a lua preparava-se para se aproximar quando ele chegou ao riacho perto da encosta e encheu sua cuia com água. Tirou os trapos que cobriam o corpo e se banhou. No caminho de volta a cabana as palavras da véspera vieram à mente. Ele caminhava e pensava, quando chegou à cabana.

As semanas se passaram e Joaquim seguiu trabalhando no roçado. Agora sempre que topava com alguém falava sobre o primeiro homem e mulher e sobre os dois lados do reino. Falava o que ouvira e inventava outras coisas para convencer mais facilmente os ouvintes. Mas as pessoas não demonstravam interesse por suas palavras, pois elas também tinham ouvido a voz e demonstravam saber mais que Joaquim.

Joaquim só ouviu a voz novamente quando chegou o dia da colheita. Ele arrancava pés de feijão quando ouviu:

“Joaquim, ouça, para entrar no lado bom do reino é necessário passar por provas e sacrifícios. Por isso estou aqui para levar uma parte de sua colheita. Mas lembre-se, não é para mim, é para o reino.”

— Mas o quê? pra que isso? eu já não sou bom o suficiente?

“Não questiones o reino, Joaquim, aqueles que antes de você questionaram não estão em condições de o fazer agora.”

Joaquim não questionou. Recolheu metade da colheita e a levou embora, deixando a outra metade para o desconhecido.

Os anos se passaram e as doações foram se repetindo. Joaquim não se incomodava, pois sentia que estava cada vez mais perto do lado bom do reino. Foi nessas condições que adoeceu.

No dia da morte recebeu algumas visitas. Nos último anos havia se formado um pequeno povoado a cinco quilômetros de sua cabana e de lá vieram algumas pessoas visitá-lo.

A última visita chegou rodeada por homens que pareciam guardas. Eles ficaram do lado de fora da cabana quando o homem entrou. Pelas roupas, Joaquim deduziu quem era. Só pode ser o dono do povoado, pensava, aquele que foi escolhido diretamente pelo reino para guiar os homens da terra, o qual nunca pude visitar ou ver o rosto.

O espanto foi grande quando Joaquim percebeu que embaixo daquelas roupas estava alguém que ele já conhecia.

— Olá, irmão. Já faz tempo… — Disse o homem.

— Não acredito… não pode ser! Gabriel! eu pensei que…

— Eu sei, eu sei… aquelas palavras também tocaram a mim, irmão.

— Eu sabia! Então você não pulou… Eu sofri tanto por isso… mas agora você está aqui, e com certeza fazendo o bem para entrar no lado bom do reino.

— Sim e não. Já alcancei o reino irmão. Quero o melhor lado do reino, sim, mas não é o mesmo reino que o seu. O meu reino é em vida.

— Mas, mas…

— Quando ouvi aquelas palavras e a influência que elas tinham sobre você, percebi o quão poderosas elas eram. Percebi o quão longe eu poderia ir se me apossasse delas, percebi que não precisaria abaixar a cabeça para nenhum brutamontes e carregar todo o peso do mundo nas costas. Então fui procurar quem as tinha dito. Encontrei um homem, atormentado, que dizia coisas sem nexo, alguém como nós que não se matou antes, como iriamos fazer, por ter enlouquecido antes. Então uni-me a esse homem e perambulamos por aí, falando coisas para as pessoas. Em pouco tempo as palavras se espalharam e depois disso foi curto o tempo para espalharmos que eu tinha sido eleito pelo reino dos mortos. Logo eu pude pegar parte da colheita de todos, inclusive da sua. Pude montar meu próprio reino em terra. Não acho errado o que fiz. Dei um motivo para você e todos viverem. Dei esperança de dias melhores, mesmo que após a morte…

Os olhos de Joaquim se fecharam e a escuridão se fez eterna.