Sempre nos falta algo

Com dez anos Pedrinho não vê a hora de chegar aos vinte. Ele aproveita a infância, mas, mesmo com tudo à mão, sente que ainda lhe falta algo e acredita que esse algo será ganho com a idade.

Pedrinho queria mesmo era ser como o seu pai, Jorge. Não apenas como o pai. Pedrinho queria ser como todos os adultos. Ele queria ter dinheiro para comprar a quantidade de doces que desejasse; ir aonde quisesse e voltar a hora que bem entendesse; Pedrinho queria o poder de tomar suas próprias decisões e sente que sem isso algo lhe falta e se falta, sua felicidade não é completa.

Aos vinte, algo ainda lhe falta. O que antes lhe parecia grandioso e belo agora perde a beleza e o tamanho. A responsabilidade que sempre quisera, a consideração e o reconhecimento agora parecem não ter o valor que tinham quando era criança.

Agora o que ele quer é dinheiro. Dinheiro é tudo, pensa, é ter e ser reconhecido, é que move o homem. Então, Pedro, que agora quer ser como Jair, seu chefe, se engaja numa jornada dupla, dividida entre estudos e trabalho; mesmo não gostando de fazer nenhuma das duas coisas.

Concluída a faculdade, casa-se. Junta suas economias com as da esposa e compram uma casinha num bairro bom. Mas um carro ainda faz falta ao casal. Trabalharemos mais, pensa, com um carro a qualidade de vida melhora e a felicidade é alcançada.

Nisso vão se passando os anos; enquanto pelas janelas do escritório ele via as folhas das arvores caírem durante o outono; as chuvas durante o inverno. Tudo passando.

Aos sessenta anos Sr. Pedro conseguiu alcançar todos os objetivos que tinha quando jovem: uma casa grande, dois carros, dinheiro no banco, prestígio, reconhecimento…, mas, mesmo com tudo isso, o passado, dos anos sofridos, parece ter sido melhor.

Aposentado, viúvo, ele costumava passar as tardes embaixo e uma mangueira no grande quintal de casa. Lembranças do passado eram recorrentes; parecia que tudo era bom. A infância principalmente. E os anos que passara trabalhando duro, aqueles em que estudava até de madrugada; a época em que conheceu a falecida esposa; tudo era lindo… mas o agora parece triste e sem cor. Ele trocaria tudo para viver um único ano daquela época.

No meio desses devaneios ele costumava se perguntar:

“Afinal de contas, será que fui feliz durante toda a minha vida e não soube reconhecer ou será que a vida vai sempre piorando e por isso a sensação de que antes era mais feliz? ”