2016, o ano que não acaba

Começamos o ano preocupados com uma possível desaceleração chinesa e o processo de impeachment. A primeira não ocorreu, a China desacelera o seu crescimento, mas não na magnitude esperada pelo mercado. Já a segunda ocorreu, com o processo de impeachment e o vice-presidente, Michel Temer assumindo. 
O mercado dava como certo a não aprovação do Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia), o referendo do acordo do governo da Colômbia com a FARC, a eleição da democrata Hillary Clinton. A grande maioria das pesquisas estava errada. Tivemos a aprovação do Brexit, com a maioria no Reino Unido optando pela saída da União Europeia, o que gerou a renúncia do primeiro-ministro, David Cameron.

Na Colômbia, a maioria optou pelo “não” ao acordo entre governo com as Farc. Já nos EUA, as eleições foram extremamente acirradas, com a maioria das instituições de pesquisas afirmando que a vitória seria dos democratas (Clinton), porém, para a grande surpresa, a vitória foi do republicano, Donald Trump, que venceu pelos votos distritais, mas perdeu na maioria absoluta. 
Após isso, tivemos agora no início de dezembro, o referendo na Itália e mais um primeiro-ministro que deve sair do poder após a derrota no referendo. 
Ou seja, o receio da China se passou, tivemos o impeachment e uma agenda econômica e política, mas terminamos o ano preocupados com outros assuntos e outros países.

Voltando a falar sobre o cenário doméstico. O governo Temer encerra o ano de forma inusitada, para um desavisado que leu os jornais pela última vez no dia de sua efetivação, o plano vem sendo cumprido como esperado, PEC do Teto de gastos passou na Câmara e em primeiro turno no Senado, a Reforma da Previdência foi encaminhada ao Congresso, e o Banco Central já se viu em condições de iniciar o ciclo do corte de juros, inclusive sinalizando que acelerará o mesmo. No entanto, o quadro atual é de instabilidade política, tivemos mais um ministro do governo que pedindo demissão, novos protestos espalhados pelo país, e o avanço da Lava Jato chegando a assinatura do acordo de leniência da Odebrecht, o que reforça uma postura do investidor mais cautelosa.

O mês de dezembro traz a primeira crise política mais forte para o Planalto, que deve ser bem suscetível a dias assim, durante todo seu mandato até 2018. O governo já teve uma baixa de 6 ministros de sua formação original, sendo que 2 foram do chamado núcleo duro, Romero Jucá e Geddel Vieira Lima. Fora as baixas internas, a disputa entre o Judiciário e o Legislativo ajudou a aumentar a insegurança política, inclusive com o primeiro respingo no programa econômico, após o afastamento do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Marco Aurélio Mello. A consequência direta é a transferência do cargo para o vice-presidente do Senado, Jorge Viana (PT), que argumentou e votou contra a PEC do Teto de Gastos, e deve atrasar a votação em segundo turno, previamente marcada para o dia 13 de dezembro, embora o resultado final dificilmente será afetado.

Mesmo com a crise econômica se mostrando pior do que a esperada, pelo governo e mercado, as medidas tidas como essenciais estão progredindo, além do avanço rápido da PEC, com votações expressivas na Câmara e no Senado, a Reforma da Previdência foi enviada para o Congresso já em dezembro, data importante, pois a estimativa é de que até a proposta seja votada em segundo turno pelo Senado, ela demore entre 6 e 8 meses. Com o envio, a base do governo já consegue se articular para que a proposta comece a correr na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

O novo questionamento reside na força do governo, após a queda de mais um ministro importante e a demora para os primeiros sinais de recuperação econômica comecem a surgir, a incerteza em torno da possível aprovação da Reforma da Previdência se mostra maior. A equipe econômica começa a ser questionada por políticos, inclusive com críticas crescentes em torno do ritmo do corte de juros pelo Banco Central. Também verificamos uma apreensão maior em torno da assinatura do acordo de leniência da Odebrecht, o que aumenta o clima negativo no governo, com a dúvida em torno dos políticos que, possivelmente, serão implicados em denúncias de corrupção. Mesmo com uma base aliada numerosa e coesa em 2016, o risco de um enfraquecimento desse apoio parece ter crescido com a crise política recente, o que piora quando considerado que a Reforma da Previdência será um assunto bem mais polêmico para um congressista votar.

Nós seguimos monitorando os desdobramentos políticos recentes, mesmo com o recesso parlamentar programado para ter início nas próximas semanas e, por enquanto, com duração estimada até o final de janeiro. Esse período deve ser preenchido por articulações políticas em torno das presidências da Câmara e do Senado, algo que o governo estará bem envolvido, com o desejo de criar um ambiente propício para suas propostas tramitarem. Outro ponto para acompanhar será o possível aumento de espaço do PSDB no governo, verificando se entrariam mais na equipe econômica ou na articulação política. 
 
Junto a parte doméstica, vale ressaltar que o quadro externo se modificou rapidamente no mês de novembro, após a vitória de Donald Trump na disputa presidencial dos Estados Unidos. Como dito em nossos relatórios sobre o episódio, seu governo deve ser marcado por corte de impostos e ampliação nos gastos com infraestrutura, o que gera preocupações em economias emergentes, como o Brasil, de uma possível interferência maior do Fed. Em outras palavras, a instituição poderia subir os juros mais rapidamente para conter uma possível aceleração da inflação local.

Dado o cenário de maiores incertezas, tanto externas quanto internas, avaliamos que o risco se elevou, pois com o aumento das incertezas, menor o apetite a risco por parte dos investidores. Aliado a isso, enfrentamos um período, no curto/médio prazo, mais conturbado, mais volátil, principalmente, na política brasileira. Aliado a isso, a economia não demonstra recuperação, o que pode prejudicar ainda mais o cenário político. Assim sendo, com as incertezas sobre a política interna e a economia não apresentando reação, apesar do envio da Reforma da Previdência e a menor interferência governamental na Petrobras, como já destacamos, a informação é extremamente relevante, pois quebra-se o paradigma e reduz-se o risco de receio de interferência na companhia, como foi no passado, para conter os preços de combustíveis e “segurar” a inflação, ponto positivo para a empresa e para o país, mas o cenário ainda é incerto.

Para resumir, nossa opinião de investimentos, em bolsa, aumentamos a nossa exposição a ativos dolarizados, antes tínhamos apenas Gerdau, agora incluímos Fíbria, e recomendamos aumento da proteção no curto/médio prazo (até abril/2017) de ativos na bolsa, via produtos estruturados até que tenhamos uma “clareza” maior em relação aos fatos no curto prazo.

Reafirmamos aqui, nossa visão positiva para Bolsa no longo prazo, porém, as incertezas do curto prazo, nos deixam mais cautelosos em nossa exposição a Bolsa, recomendando proteção via produtos estruturados.

Fonte: XP Investimentos

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