Sem Rosto

Ilustração de Renata Motta

A Cabula crescia, e o governo já não tinha mais o que fazer. O vice-rei esperava que os líderes militares tivessem uma solução ao menos razoável, mas o último conselho tinha acabado numa briga de egos entre a capitã da infantaria e o general da central de inteligência. Cada um achando que tinha um plano melhor do que o outro. Nenhum dos dois com a verba necessária para colocar os planos em movimento. O problema era o apoio fanático de grande parcela da população. Não era gente ruim, era apenas o povo e mais um líder messiânico que sabia exatamente que botões pressionar.

No balcão de seu quarto, o vice-rei observava, ao longe, as luzes fortes vindas diretamente do bairro da Cabula. Ele não recorda de ver essas mesmas luzes cerca de 3 anos antes. E ele se pega pensando em como foi rápida a expansão dos casebres e cortiços vindos daquele bairro, lentamente ocupando e tomando outros lugares da cidade. Tudo quando aquele que se denominava Líder de Cabula apareceu. Uma figura misteriosa. Nesses 3 anos de convivência com ele, o vice-rei e sua inteligência não tinham descoberto nem um nome, nem um rosto, para colocar na figura. Tudo o que eles sabiam eram a mensagem do Líder e aquela máscara sem expressão que ele usava em todas as aparições e propagandas. Há mais de um ano que ele não tentava infiltrar um agente nas castas da Cabula, depois de mais de uma dúzia de frustrações, ele não via mais possibilidades de isso acontecer.

Ele enxergava, bem ao centro do bairro, os palacetes de figuras proeminentes dentro da seita. Os sacerdotes alvi-negros. Os únicos que tinham rosto nas castas mais altas. Figuras populares e, por vezes, importantes. Atrizes, músicos, empresárias. E, no meio de todos, um grande espaço escuro. “O Líder de Cabula”, ele pensou. “Nem seus fiéis sabem onde ele dorme, exatamente”.

Outra coisa que ele sabia era sobre a conversão. Aliás, ele não sabia exatamente como se dava a conversão, mas sabia que ninguém nunca tinha voltado atrás depois de passar pelos ritos de iniciação. Mesmo não sendo um homem apegado a superstições, ele frequentemente questionava a existência de algo sobrenatural agindo naquele bairro. Porque depois que a Cabula bate à sua porta, você se torna um seguidor ferrenho do Líder.

Sua última manobra política havia sido tentar proibir, legalmente, manifestações da Cabula. Ele sabia que seria frustrado, como foi, mas não podia fazer mais nada antes de uma movimentação militarizada contra a seita. Foi naquele momento que ele viu a força do Líder, que organizou protestos por toda a cidade, parou o abastecimento de hospitais e supermercados. Durante duas semanas, a força policial foi cortada pela metade, 18 pessoas morreram em protestos e cerca de 3 morreram de frio ou fome. Ele achava engraçado, na medida que alguém pode rir dessa situação, como o preto e o branco da Cabula significavam a volta a valores antigos, como um programa de TV que não tinha envelhecido bem.

Ele se deitou para dormir, sem saber o que ia fazer no dia seguinte. Quando começou a sonhar, foi subitamente acordado por batidas em sua porta. Ao levantar e atender, viu um de seus seguranças. Ele não entedia muito bem o que ele estava falando, mas entendeu que deveria acompanhá-lo. Aos poucos, se concentrando nos barulhos, ele começou a ouvir as batidas, do que ele só podia presumir ser um aríete, tentando derrubar suas portas. Ele correu, junto do seu segurança, até a passagem secreta por trás da escadaria principal da casa. A cada batida na porta, seu coração pulava do peito, temendo o desconhecido.

Ele desceu a escada e deu a volta por baixo dela. Assim que a passagem secreta se abriu, ele olhou para a porta principal a tempo de ver a madeira ceder. Antes de descer pelas escadas, ele sabia exatamente o que estava acontecendo: a Cabula estava à sua porta.