O Menino e o Rei

Algumas horas já haviam passado desde o jantar quando o garoto acordou no vistoso sofá vinho que ficava em frente à televisão, ainda ligada. Tinha dormido tão profundamente que podia ver o formato de seu corpo esculpido pela gravidade naquelas almofadas e, com olhos ainda pesados, passou ainda alguns instantes hipnotizado pela sinfonia agradável do desenho que passava. Estava feliz: havia brincado a tarde inteira com seus primos, enchido a barriga com a deliciosa lasanha de sua mãe — que, claro, ninguém faz igual -, se esbaldado nas suculentas bombas de chocolate recheadas de creme e ainda assistido os 101 Dálmatas, que encheu a grande sala de estar com lágrimas e risadas. Esfregou os olhos e bocejou, tirado de seu transe pela esperança de conseguir mais um bocado de lasanha.

- Mãe?

Seus olhos arregalaram. Com as mãos tensas, agarradas ao sofá, olhou ao redor e percebeu o pior: estava sozinho. Um estranho calafrio o transportou em um instante da aconchegante terra dos Looney Tunes para o pântano dos monstros de Scooby-Doo. Tinha muito medo de ficar sozinho, pois seus pais sempre disseram para não ficar muito longe, para tomar cuidado em situações dessas, de solidão, e só poderia haver um motivo para isso: coisas ruins acontecem a crianças que são deixadas sozinhas, especialmente ali, naquela casa tão grande e, de repente, tão vazia. Mas ainda não havia se dado conta da gravidade de sua situação.

Como todo caso em que, ao invés de chamar o desespero de lado e pedir que se retire porque está atrapalhando os convidados, deixam que ele corra solto e estrague a festa, pensamentos ruins começaram a povoar sua cabeça. Aquela fazenda era antiga e o povo da cidadezinha falava de muitas lendas sobre o que aconteceu ali. Elas se estendiam agora, em sua imaginação, como uma longa tapeçaria grega que cantava não dos heróis, mas dos vilões de toda uma gente. Já havia pensado nelas antes, mas, estando sempre junto de alguém para tirar de sua atenção os morcegos, histórias eram apenas histórias.

Decidiu então que o mais esperto a se fazer era se levantar e tentar encontrar alguém. Foi quando a longa tábua gritou sob seus pés e ele, tomado agora pela certeza que estava sozinho em uma fazenda assombrada, levantou os olhos para encontrar os daquele estranho personagem de sorriso leve do quadro pendurado na parede oposta à porta. Os objetos ao redor dançavam com suas longas sombras e os estranhos olhos de tinta eram tão vivos que pareciam chamar-lhe, prontos para lançar a maldição antiga de algum bruxo. Não conseguiu pensar em nada: sua única reação foi correr — o mais rápido que pudesse.

Passou pelo corredor e viu apenas portas fechadas, aventurou-se na cozinha e lá só encontrou alguns vagalumes, vasculhou a copa e, mais uma vez, ninguém. Desesperado, continuou correndo de um lado para outro à procura de uma companhia, mas deteve-se quando se viu no hall. Por pior que fosse sua situação, a lógica simples deixava claro que haveriam muito mais monstros lá fora, em que a noite imperava sobre as árvores altas e a capelinha. Sem ideia do que fazer, sentou-se ao lado do piano e soluçou: o que poderia uma criança fazer, sozinha, para afastar tanta vilania?

Quando a primeira lágrima começou a percorrer seu rosto, ouviu barulho de passos. O medo tornou-se terror, mas, ao levantar a cabeça e ver, não muito longe, uma silhueta em frente ao quarto de seus pais, foi tomado por um sopro de esperança e saltou em sua direção. Alguém estava acordado, ele estava salvo. Quando abraçou aquela forma salvadora, foi lembrado por uma voz difusa de que a noite sempre encontra um jeito de cruzar o umbral.

- Quem é você, garoto?

Quase paralisado, observou a estranha figura. Um longo manto azul escuro cobria todo seu corpo e seu rosto, de que só podia se ver um olho. Imenso olho de marfim.

- Garoto, você está me ouvindo?

- E…eu…e…

- Fique tranquilo, pequeno, não vou te fazer mal. Respire fundo, limpe essa lágrima e me diga o seu nome.

- E.…eu…eu sou o.…o Fernando. E você?

- Você não me reconhece?

- Que?

- Você realmente não sabe quem eu sou?

- Não.

- Certo. Bom, eu sou um rei.

- Mas, mas…se você é um rei, cadê a sua coroa?

- Um verdadeiro rei não precisa de coroa.

- Mas, mas… você é rei de que?

- Tudo. Das menores criaturas às galáxias. Mas são apenas vocês, humanos, que parecem não entender minhas ordens.

O espectro pareceu calar-se e, por um instante, foi como se balançasse a cabeça em desabafo.

- Desculpe, pequeno. É que me esforço para que tudo sob minha vigia aconteça em plena sincronia, mas tantas pessoas se esquecem de minhas leis…se esquecem…de mim…

Ao ouvir os lamentos do estranho Rei, o menino não conseguiu entender com precisão o significado do que disse, mas sentia algo além de toda definição: empatia. Era muito curioso para o pequeno que alguém tão poderoso como o Senhor das Galáxias se sentisse assim, esquecido. Os filmes e desenhos que tinha visto sempre mostraram grandes cortes, cheias de pessoas sorridente e de vidas aventureiras. De qualquer forma, nunca havia conhecido um rei de verdade — e isso não importava.

- Entendi! Você está triste porque está sozinho, igual eu!

Nesse momento o rei transfigurou-se. Cresceu em tamanho e quase cobriu a sala inteira, com seu olho de marfim agora incandescente. Estranhas luzes começaram a entrar pela porta do hall e revoavam a seu redor. Encheu o peito e com a voz retumbante de um trovão bradou:

- Insolente! Como ousa comparar-se, uma criatura frágil, perene e ignorante, a mim, um rei, o Rei! Sob minhas areias dormem todos, com minhas voltas caem as montanhas e os sóis, eu deveria te castigar pelo simples pensamento…

O menino cobriu o rosto por instantes, mas em pouco tempo voltou a encarar o monarca. Por alguma razão, sabia que o rei não falava a verdade — talvez seu medo fosse menor que o dele, talvez o esquecimento fosse a pior forma de solidão. É certo que não pensou em nada disso, apenas sentiu. Pensamentos como esses não servem de nada, são algo que adultos aprendem para matar aquilo do que falam. As crianças são mais espertas. Foi então assim que, tomado por compaixão, ousou interromper o rei em meio a seu discurso de ódio — ou solidão.

- Senhor Rei, você quer ser meu amigo?

As palavras da criança calaram o soberano. Ainda imenso, sentia algo novo, desesperador: sentia-se frágil e desarmado. Acostumando com afrontas e maldições, aprendeu a ser implacável — apesar de nunca cruel-, colocando medo em todos que o desafiavam, afastando-se cada vez mais para um plano seguro, metafísico. Era temido pelos antigos magos e pelos grandes investidores, imperadores e cavaleiros, e ele, um simples garoto, não virava os olhos, mas estendia-lhe a mão. Foi então que respirou profundamente e, revigorado pela intenção genuína e ingênua do menino, retornou ao tamanho inicial, gargalhando copiosamente uma risada de leveza. Agachou ao lado dele e disse, com uma voz difusa e calma:

- Tenho uma proposta, pequeno.

-Proposta? Que é isso?

- Um trato! — E riu mais uma vez.

- Qual, qual?

- Se você prometer não me esquecer, prometo que jamais sentirá essa solidão novamente.

- Então a gente vai ser amigo?

- Seremos grandes amigos! Você promete?

- Prometo! Como você chama?

- Não se preocupe com isso, pequeno. Você descobrirá meu nome na hora certa.

Nesse momento, o imenso relógio cuco acordou para anunciar a chegada da meia-noite. O menino assustou-se e olhou para o lado. Ao voltar-se, notou que o rei havia sumido, e então começou a chorar. Um pouco tempo depois, a porta de madeira à sua frente se abriu.

- Filho? O que você está fazendo aqui sozinho?

Ainda soluçando, o garoto lembrou do trato que fez há pouco. Lembrou-se do rei. Foi subitamente tomado por uma calma que não sabia descrever e, limpando o rosto, disse veemente:

- Eu não estou sozinho, o rei está comigo!

- Rei? Que rei, filho?

- Ele é rei de tudo e é meu amigo!

- Vem dormir, filho, você viu televisão demais.

A lógica do cansado pai jamais poderia explicar o que se passou com o menino. Diria que foi tudo fruto da imaginação fértil da criança, que coisas como aquela são reservadas a histórias. Mas o garoto não duvidava de nada e, desde então, nunca mais sentiu-se sozinho.