Fascismo, Alguém? (Laurence W. Britt, 2003, Tradução)

Traduzi um texto do Laurence W. Britt. Dele saiu uma lista que circulou pela internet sobre características em comum a diversos estados fascistas no mundo. Essa lista ficou em parte conhecido por ter sido resumida em uma placa que é vendida no museu do Holocausto de Washington, como lembrança.

O texto original foi publicado na revista acadêmica “Free Inquiry”, publicada pelo “Council for Secular Humanism”. O “Humanismo Secular” que rege o pensamento de alguns estudiosos que se consideram, grosso modo, “quem acredita nos princípios do livre inquérito, da ética baseada na razão e no comprometimento com a ciência, democracia e liberdade” (palavras de Paul Kurtz, fundador da revista).
Existe uma tradução do
Daniel Werneck, também aqui no medium. Mas essa tradução dele recorta o texto nos itens que compõem a famosa lista com descrições resumidas. É interessante por trazer ilustrações do cenário atual. Minha intenção aqui, entretanto, não é induzir a conexões no texto, permitindo que cada um reflita em relação aos dias de hoje. Essa era a intenção do autor na análise, então apresento o texto traduzido na íntegra.
Original no site da Free Inquiry.

original por Laurence Britt
tradução e adaptação: João Marcos Nascimento

*Existe uma filosofia política arquetípica que é o anátema aos princípios do humanismo. É o fascismo. E os princípios do fascismo estão pairando no ar hoje, veladamente mascarados como outra coisa, desafiando tudo que defendemos. O cliché de que pessoas e nações aprendem de sua história não é sobreutilizado, mas superestimado; frequentemente falhamos em aprender pela história, ou tirar as conclusões errados. Infelizmente, a amnésia histórica é a norma.

Nós estamos a duas gerações e meia removidos dos horrores da Alemanha Nazista, entretanto constantes lembretes sacudem a consciência. O fascismo alemão e italiano formam os modelos históricos que definem a visão política de mundo deturpada. Mesmo que esses modelos não existam mais, a visão de mundo e as características desses modelos foram imitadas por regimes protofascistas em vários momentos no século XX. Tanto os modelos originais alemão e italiano e os póstumos regimes proto-fascistas mostram características notavelmente similares. Apesar de diversos acadêmicos questionarem conexões diretas com esses regimes, poucos podem disputar suas similaridades visuais.

Além do visual, mesmo um superficial estudo desses regimes fascistas e protofascistas revelam absoluta convergência dos seus modus operandi. Por vezes é útil no interesse da perspectiva reafirmar os fatos, e ao fazê-lo esclarecer circunstâncias atuais.

Para o propósito dessa perspectiva, vou considerar os seguintes regimes: Alemanha nazista, Itália fascista, Espanha de Francisco Franco, Portugal de Salazar, Grécia de Papadopoulos, Chile de Pinochet e Indonésio de Suharto. Por garantia, eles constituem um grupo diverso de identidades nacionais, culturais, níveis de desenvolvimento e história. Mas todos seguiram modelos fascistas ou protofascistas no obtenção, expansão e manutenção do poder. Além disso, todos os regimes foram depostos, então um quadro mais ou menos completo de suas características básicas e seus abusos é possível.

A análise desses sete regimes revelam 14 pontos que costuram todos em padrões reconhecíveis de comportamento nacional e abuso de poder. Essas características básicas são mais predominantes e intensas em alguns regimes do que em outros, mas todos compartilham pelo menos algum nível de similaridade.

1) Expressão poderosa e continuada do nacionalismo:

Desde a proeminente ostentação de bandeiras e bandeirolas até pingentes de lapela, o fervor por mostrar nacionalismo patriótico tanto por parte do próprio regime quanto por parte dos cidadãos pegos em seu frenesi sempre foi óbvio. Slogans cativantes, orgulho no poderio militar e demanda por unidade foram temas comuns de expressão desse nacionalismo. Foi frequentemente aliado a uma suspeita de coisas estrangeiras rodeado pela xenofobia.

2) Desdém pela importância dos direitos humanos:

Os próprios regimes viam os direitos humanos com pouco valor e um obstáculo da realização dos objetivos da elite dominante. Através de inteligente uso da propaganda, a população foi levada a aceitar os abusos aos direitos humanos ao marginalizar, até mesmo demonizar, aqueles de quem são alvos. Quando o abuso era flagrante, a tática era o uso de sigilo, negação e desinformação.

3) Identificação de inimigos/bodes expiatórios como uma causa unificante:

A mais significativo linha em comum entre esses regimes foi o uso de bodes expiatórios como um meio de divergir a atenção das pessoas de outros problemas, para transferir culpa pelos fracassos e canalizar frustrações em direções controladas. Os métodos de escolha — implacáveis propagandas e desinformação — foram frequentemente efetivas. Muitas vezes os regimes iriam incitar “espontâneos” atos contra os bodes expiatórios, costumeiramente comunistas, socialistas, liberais, Judeus, minorias étnicas e raciais, inimigos nacionais tradicionais, membros de outras religiões, secularistas, homossexuais e “terroristas”. Oponentes ativos desses regimes foram inevitavelmente rotulados como “terroristas” e foram tratados de acordo.

4) A supremacia militar/militarismo exacerbado:

Elites dominantes sempre se identificaram de forma próxima com o militarismo e a infraestrutura industrial que o sustenta. Uma desproporcional parcela dos recursos nacionais foi alocada aos militares, mesmo quando necessidades domésticas eram agudas. Militares foram vistos como uma expressão do nacionalismo, e foram usados sempre que possível para garantir objetivos nacionais, intimidar outras nações, e aumentar o poder e prestígio da elite dominante.

5) Sexismo desenfreado:

Para além do simples fato de que a elite política e a cultura nacional tiveram dominância masculina, esses regimes inevitavelmente enxergaram mulheres como cidadãs de segunda classe. Eles foram inflexivelmente anti-aborto e também homofóbicos. Essas atitudes foram costumeiramente codificadas em leis Draconianas que se valeram de um forte apoio da religião ortodóxica do país, assim dando cobertura para o regime de seus abusos.

6) Mídia de massa controlada:

Sob alguns dos regimes, a mídia de massa esteve sob controle rígido direto e poderia ser confiada a nunca divergir da linha partidária. Outros regimes exerceram um poder mais sutil para garantir a ortodoxia da mídia. Métodos incluíram o controle de licenciamento e acesso a recursos, pressão econômica, apelo ao patriotismo e ameaças implícitas. Os líderes da mídia de massa foram frequentemente politicamente compatíveis com a elite de poder. O resultado foi muitas vezes o sucesso em manter o público geral desinformado dos excessos do regime.

7) Obsessão com a segurança nacional:

Inevitavelmente, um aparato de segurança nacional esteve sob controle direto da elite soberana. Foi muitas vezes um instrumento de opressão, operando em segredo e sem qualquer restrição. Suas ações eram justificadas sob a rubrica de proteção da “segurança nacional”, e questionar suas atividades era tido como atitudes antipatrióticas e mesmo de traição.

8) Religião e elite dominante entrelaçadas:

Diferente de regimes comunistas, os regimes fascistas e protofascistas nunca foram proclamados como desprovidos de Deus por seus oponentes. Na verdade, a maioria dos regimes se associaram à religião predominante do país e escolheram se apresentar como militantes defensores dessa religião. O fato de que o comportamento da elite dominante era incompatível com os preceitos da religião era constantemente varrido para debaixo do tapete. Propaganda sustentou a ilusão de que as elites dominantes eram defensores da fé e seus oponentes eram “desprovidos de Deus”. Uma percepção foi fabricada de que se opor ao poder da elite era o mesmo que um ataque à religião.

9) Poder de corporações protegidos:

Apesar da vida pessoal do cidadão comum ter estado sob rígido controle, a habilidade de grandes corporações de operar em relativa liberdade não era comprometida. A elite dominante viu a estrutura corporativa como uma forma não só de assegurar a produção militar (em estados desenvolvidos), mas também como um meio adicional de controle social. Membros da elite econômica foram frequentemente mimados pela elite política para garantir a continuada reciprocidade dos interesses, especialmente na repressão de cidadãos desprovidos de poder.

10) Força de trabalho suprimida ou eliminado:

Já que a força de trabalho organizada era vista como o centro de poder capaz de desafiar a hegemonia política da elite dominante e seus aliados corporativos, era inevitavelmente destruída ou debilitada. Os pobres formavam uma sub-classe, vista com suspeição ou total desprezo.

11) Desdém e supressão dos intelectuais e das artes:

Intelectuais e a inerente liberdade de ideias e expressões associadas a eles eram uma abominação a esses regimes. Liberdade intelectual e acadêmica eram consideradas subversivas à segurança nacional e ao ideal patriótico. Universidades foram estreitamente controladas; faculdades politicamente ameaçadoras eram hostilizadas ou eliminadas. Ideias não-ortodoxas ou expressões de divergência foram fortemente atacadas, silenciadas ou massacradas. Para esses regimes, arte e literatura deveriam servir aos interesses nacionais ou não teriam o direito de existir.

12) Obsessão com crime e punição:

Muitos desses regimes mantiveram sistemas Draconianos de justiça criminal com enormes populações carcerárias. A polícia era frequentemente glorificada e tinha um poder praticamente irrestrito e consequente abuso desenfreado. Crimes “comuns” e políticos eram muitas vezes combinados em acusações criminais falsas e às vezes usadas contra oponentes políticos do regime. Medo e ódio de criminosos ou “traidores” foram muitas vezes disseminados entre a população como pretexto por mais poder da polícia.

13) Fisiologismo e corrupção desenfreados:

Aqueles nos círculos de negócios e próximos do poder da elite frequentemente usavam sua posição para enriquecerem a si mesmos. Essa corrupção funcionava em ambas as frentes; o poder da elite receberia concessões financeiras e propriedade da elite econômica, que em troca ganharia o benefício do favoritismo do governo. Membros da elite de poder estiveram em uma posição que os permitia arrecadar vastas fortunas de outras fontes: por exemplo, ao roubar recursos nacionais. Com o aparato de segurança nacional sob o controle e a mídia silenciada, essa corrupção era totalmente desimpedida e não bem entendida pela população geral.

14) Eleições fraudulentas:

Eleições na forma de plebiscitos ou enquetes de opinião pública eram constantemente fraudadas. Quando eleições de fato com candidatos aconteciam, elas comumente eram desvirtuadas pela elite de poder para alcançar o resultado desejado. Métodos comuns incluíam manutenção de controle de um maquinário eleitoral, intimidando e reprimindo eleitores de oposição, destruindo ou desautorizando votos legais, e, como último recurso, se voltando a um judiciário entregue ao poder da elite.

Algum desses pontos chamam atenção? Claro que não. Afinal, isso é a América, oficialmente uma democracia regida pela lei, uma constituição, liberdade de imprensa, eleições honestas, e um público recém-informado constantemente se guardando contra os males. Comparações históricas como essas são somente exercícios de ginástica verbal. Talvez, talvez não.

*Antes de iniciar o texto é colocado o seguinte:

Leitores da Free Inquiry podem pausar e ler o texto “Afirmações do Humanismo: Uma Declaração de Princípios” no interior da revista. Para um humanista secular, tais princípios parecem lógicos, certos e cruciais. Ainda assim…

e então começa de fato o texto.

Talvez, sem levar em conta o humanismo seja impossível considerar importantes as questões trabalhadas.

Que sejam questionadas as comparações, e que sejam feitas com uma análise séria. Termino com uma citação em um vídeo recomendado que expande a noção de fascismo de forma mais extensa.

[O fascismo] tende a ser diferente quando é um movimento social ou projeto de poder, e quando consegue o poder do Estado. Quando é um movimento social, ele adota uma retórica populista contra o regime em vigor. Apelando para o emocional, tocando em assuntos como corrupção, podridão do governo, a fraqueza das instituições, da economia, da nação. […] Depois que ele chega ao poder, ele é autoritário, rigidamente hierárquico e elitista; e trabalha pela manutenção do status quo — desde que esse status quo esteja sob o seu comando. O fascismo não tem uma quintessência. Ele é uma mistura de ideias políticas inclusive contraditórias.
O que é Fascismo? — Conceitos Históricos
Icles Rodrigues

João Marcos Nascimento

Written by

Sonhando alto. Com cinema, com quadrinhos, com animações, cada dia uma coisa.

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