A espiral do ódio

“A CASA GRANDE SURTA QUANDO A SENZALA VIRA MÉDICA” é obviamente um bom exemplo de desejo triangular girardiano. A moça comemora ter virado médica não tanto pelo objeto em si, o diploma, mas pelo mediador (o outro), a Casa Grande, que agora está pirando.

É a mesma coisa do Dj Khaled quando ele fala: “The don’t want you to X, so X”. O desejo é provar para o outro algo, provar que você é capaz e, no fundo, provar que você está à altura dele, que ele achou que só os da classe dele conseguiriam conquistar o objeto em questão, mas você foi lá e conseguiu. Assim sendo, fica claro é que você deseja ser o outro, o mediador, no caso acima, a Casa Grande. Você quer provar para eles que é tão bom quanto eles, ou seja, que pode fazer parte do grupinho deles.

Só que o outro é, ao mesmo tempo, modelo e obstáculo. Se ele fosse só modelo, seria ótimo. A Senzala atingiria seu objetivo, comemoraria sua vitória, sua transformação em Casa Grande e tudo voltaria à normalidade. Mas o outro é obstáculo também. A Senzala não consegue o que ela quer, porque a Casa Grande já o possui e não quer compartilhar. Daí que o sentimento de admiração pela Casa Grande acaba se transformando em ódio e em inveja. A admiração vira concorrência e inimizade. Aí, mesmo quando a Senzala conquista o que queria, o objeto, no caso o diploma de medicina, ela não se satisfaz. Porque ela ainda não é um deles, ela ainda é Senzala. Ela não sabe o que fez de errado: ela conquistou o objeto, o diploma — era isso o que eles exigiam — mas as portas do paraíso não se abriram e ela não está satisfeita ainda. O que ocorreu de errado?

Ora, o erro é que você visou seu diploma como quem visa a felicidade, mas depois de consegui-lo, você percebeu que era só um pedaço de papel que te permitia atuar em certo campo de trabalho. E aí você vai trabalhar e começa a perceber que só escolheu toda uma nova classe de problemas. Você esperava a felicidade, mas não conseguiu, você foi enganado. E como todo enganado você está furioso. Você percebe o seu ridículo, o de querer que as portas do paraíso se abrissem com o diploma de medicina, mas não pode deixar de querer isso. Pior, você olha a sua volta e seus colegas de trabalho parecem tão felizes. Por que eles são felizes e você não? Você tem em suas mãos o mesmo objeto que elas! Não é possível algo assim! Então você começa a achar que o problema é contigo. Você tá fazendo algo errado. Você ainda não é Casa Grande. Eles conseguiram não deixar você entrar no clube, de algum modo. Você lutou sua vida inteira pelo objeto, conseguiu o objeto e não obteve o prêmio. É justamente agora, agora que você conseguiu o seu passe para entrar na Casa Grande que você a odeia mais do que nunca.

Bem, se você começou desejando o outro, mas no meio do caminho passou a odiá-lo, agora é você mesmo que não quer se integrar. Se integrar, agora, é fazer parte do sistema, desse mesmo sistema que você tanto criticou e odiou, que tanto mal te fez e que tanto mal ainda faz a seus entes queridos. Então você permanece Senzala, ao menos no coração. E aí mantém seus símbolos, continua no 13 confirma, com suas roupas, modos, etc. (a moça da foto diz em outro momento: “Com esse cabelo eu entro no hospital”, ou seja, se não era o diploma a porta de entrada à bem-aventurança plena, quem sabe é o cabelo que tá impedindo a integração plena?). E, claro, você continua amaldiçoando ainda mais a Casa Grande, a esnobe, que não te aceita mesmo depois de conseguir o objeto exigido. Eles agora exigem um penteado novo, exigem que você destrua sua dignidade, sua individualidade, que encaixe no grupo sem nenhuma diferença, que seja totalmente igual a eles - só assim você pertencerá ao grupinho, à Casa Grande, aos bem-aventurados. Você, todo mundo, percebe aí uma armadilha demoníaca e resiste, mas não consegue deixar de olhar de soslaio, com desejo. Quanto mais a Senzala se aproxima da Casa Grande, quanto mais parecida fica com ela, mais a odeia, mais a despreza, mais se desespera por não fazer parte dela.