A Espiral do ódio — parte II (a Casa Grande contra-ataca)

A Senzala não nasce Casa Grande, ela precisa conquistar sua posição. Daí quando ela conquista seu objeto de desejo que a permitiria fazer parte da Casa Grande e de sua bem-aventurança, mas ainda assim não sente essa bem-aventurança, ela passa a considerar que é outro o objeto de desejo correto, que ela teve olhando esse tempo todo para o lado errado. Mas a Casa Grande, os nobres, os bem-aventurados, eles já nascem bem-aventurados, em berços de ouro. Ele não tem esse recurso da Senzala, de considerar que talvez tenham se enganado. A Casa Grande se sabe o modelo a ser imitado. Mas o indivíduo que pertence a esse grupo também está consciente de não possuir a bem-aventurança. Então ele olha para os lados e vê todos os seus comparsas felizes. Ele olha mesmo a Senzala lutando para chegar a seu lugar e admira sua determinação, sua força de vontade, que lhe falta. A consciência da exclusão da Graça Divina, que antes era divida pela humanidade no mito do pecado original, agora é, não só uma carga individual, mas um segredo. O indivíduo sente que tem algo errado com ele, pois ele é o modelo encarnado, e ainda assim não é feliz. Ele tem tudo aquilo que (dizem) traz a felicidade, mas não é feliz. Há algo de errado com ele e ele se sente miserável por isso.

O indivíduo da Casa Grande se sente sozinho no mundo. Ele é miserável, todo mundo é feliz. Mas seu segredo é algo fácil de guardar: todo mundo já pensa que ele é feliz, então, se ele fingir isso, quem perceberá? Assim a Casa Grande percebe a saída para esconder seu caráter miserável e desprezível: ela finge, sem perceber que todos da Casa Grande tá fingindo também. E, quanto mais finge, mais os outros convencem-se de sua felicidade, pois já estão propensos a isso.

Se o pecado da Senzala é a inveja, o da Casa Grande é o esnobismo. O esnobe é aquele que pode esconder sua individualidade num modelo pré-concebido. O esnobe é aquele que só gosta daquilo que é permitido a seu grupo gostar, só desgosta daquilo que é permitido desgostar. Não é à toa que, no Brasil, ganhou o apelido de “Coxinha”, dada a homogeneidade desse grupo, pois só fazem o que é sancionado pelo modelo estabelecido.

A Casa Grande precisa defender a sua posição porque percebe que se perder seu status, perde o disfarce de seu terrível segredo e sua miserabilidade ficará exposta a todos. Por isso, ela precisa excluir. Ela precisa de uma classe abaixo dela, sonhando em ser ela, sonhando em ser tão feliz quanto ela, para que seu disfarce funcione. A Casa Grande é como a coquette, ela precisa que o outro a admire para lhe recusar os desejos. Como a coquette, ela não planeja ceder aos desejos do outro, mas, também, não pode prescindir deles, pois é esse desejo que faz dela o que ela é.

A Casa Grande não odeia a Senzala, nem a despreza, antes ,precisa dela, para esnobá-la. O que acaba, claro, alimentando o ódio da Senzala.

O erro moderno é que desigualdade social vai acabar com o conflito Casa Grande x Senzala pela redução das desigualdade. Mas, como vimos, a redução das desigualdades acaba atiçando ainda mais o ódio. Assim como a Senzala só passa a odiar de fato a Casa Grande quando vai se tornando parecida com ela, a Casa Grande vai sentir a necessidade de excluir mais e mais a Senzala quanto mais parecida ela se tornar com ela. O que caracteriza os grupos de nossos tempos é exatamente isso: a exclusão por bobeira. Não se trata mais de critérios com alguma importância, como a riqueza ou um nascimento nobre, mas antes ninharias tais como roupa que vestem ou a música que escutam, o time que torcem, o partido em que votam. É, para repetir a frase, aquela moça lá falando “com esse cabelo eu entro no hospital”, o cabelo é motivo de orgulho, de identificação. Ela se define pelo cabelo. Quanto mais as diferenças somem, mais nos identificamos com bobagens sem tamanho, mais cremos que nossa dignidade reside em ninharias.

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