Por que não ser de direita (ou de esquerda).

Sou de direita.

Mas vou tentar explicar para mim mesmo o problema de ser de direita.

Há três modos de ser: maioria, minoria e indivíduo. Ou melhor, dois: multidão (maioria ou minoria) e indivíduo.

Ser maioria é mal, já nos dizia (advinhem?) Girard. É ruim porque dá todo aquele gostinho de pertencer a um grupo e se sentir justificado por isso. Quando um bando de populares lincham um suspeito, eles tão alimentados por esse sentimento de multidão. Como posso estar errados se todo mundo está fazendo a mesma coisa? Como posso estar errado se a maioria concorda comigo? Também o nazista na Alemanha dos anos 30 se sentia plenamente justificado só por ser a maioria. Ou o comunista na União Soviética. Ou o escravocata há dois séculos.

Ser minoria, porém, é mal também, porque a minoria é apenas um outro grupo ou multidão que ainda não é maioria. São os “excluídos”, todos unidos em nome de uma causa, todos fazendo o mesmo e, por isso, se sentindo justificados por isso. Como posso estar errado se falo em nome dos Negros, dos Gay, das Mulheres, dos Refugiados ou de qualquer outro grupo? Se o meu grupo (tão sofrido, tão prejudicado e, portanto, tão justificado) concorda comigo, como posso estar errado?

Maioria ou minoria são apenas outro nome para legião e Legião é apenas outro nome de você sabe quem (porque somos muitos…).

Ser indivíduo é a única forma verdadeira de vida.

E ser de direita, ou de esquerda, claro, é só mais uma forma de ser muitos, de ser legião, de pertencer a um grupo e se sentir legitimado para cometer as maiores atrocidades por isso.

Ser de direita, hoje, especialmente quando se é mais intelectualizado, é ser uma minoria. E o cara de direita tem todos os cacoetes de quem pertence a uma minoria (oh! como sofremos!, como somos perseguidos!, como devemos estar armados quando conversamos com alguém de esquerda!, etc).

E ser minoria é pior que ser maioria. Porque a maldade da maioria é aquela maldade ingênua do menino matando formigas com uma lupa, despreocupado, sem ressentimento e, portanto, mais próxima tanto do arrependimento quanto do perdão. A maldade da minoria é aquela que ainda se disfarça de justiça, dos valores em si, mas que só fala em nome de si mesmo, a maldade de “quem sofreu”, a maldade do pervertido que se sente justificada a tudo.