Amar (Azar)

Fabinho, se permitem a este narrador a observação, nunca foi sujeito de sorte. Todos, principalmente seus amigos, família e as raríssimas namoradas, sabiam desse seu infortúnio.

Para encontrar justiça entre as injustiças do acaso, Fabinho sempre precisou compensar, e muito, a falta de sorte com seu esforço. Trabalhador, estudioso e até carismático. Do azar, Fabinho tirou grandes lições de vida e hombridade.

Desde pequeno, sua inimizade com a dádiva da sorte lhe fez diferente de outros azarados por aí, que só reclamam e não fazem nada a respeito, Fabinho sempre acreditou que azar escolhe a dedo seus fiéis, mas cabe a eles optar por seguir esta fé.

Destemido, ria sempre na face do perigo e, ainda mais, depois de ser surrado por ele. Contou-me entre gargalhadas desconfortadas, imobilizado em uma cama de hospital, sobre seus encontros infortúnios e mais assíduos do que o recomendado com o velho amigo azar. Aos 14 anos, quebrou, em quatro lugares diferentes, a falange do dedo ao cair da cama, diagnóstico esse de veracidade, até hoje, contestada pela comunidade médica. Aos 18, quando viajava pela primeira vez para fora do país, foi preso pela Interpol, que o confundiu com um dos três terroristas mais procurados do planeta, Iuri Gladonovič, que não podia ser mais distinto que Fabinho. Gigante com um metro e noventa centímetros de altura, loiro e de olhos esverdeados, nada tinha de parecido com nosso amigo, que não passava dos um e setenta, tinha olhos castanhos e cabelo mascavo. Mesmo assim, ficou detido por 48 horas em uma pequena saleta da imigração no aeroporto Charles De Gaulle e, logo depois, deportado de volta ao Brasil.

Mas Fabinho nunca perdeu a esperança, afinal de que vivem os tolos senão de sonhos e expectativas.

Não me leve a mal, Fabinho, aos olhos de qualquer desconhecido, era um sujeito normal. Não era feio, chato ou fedido. Sua carreira não era brilhante, mas tão pouco era medíocre. Seu único, e inescapável, problema era a simples falta de sorte.

Sabendo de sua condição, todos seus amigos, familiares e até especialistas em sorte do mundo inteiro, tentaram de tudo para acabar com seu azar. Mas a sorte, que diferente do azar é criteriosa e de teimosia inebrandável favorece àqueles quem ela escolhe e não os que são impostos à ela.

Foi apenas aos 22, como que por puro golpe do acaso, que, finalmente, ela pareceu ceder. Fabinho encontrou um grande amor e, pela primeira vez, pareceu ser correspondido. O encontro estava marcado. Os amigos saltavam de euforia com a notícia. A mãe acendeu vela e rezou quinze ave-marias. E lá foi Fabinho, com seu sorriso de praxe e confiança inabalável para seu primeiro encontro.

Na semana anterior, Fabinho já planejara tudo. Tinha descoberto a banda favorita da menina e, comprado os dois últimos ingressos disponíveis para o show de despedida do grupo, dá pra acreditar? Logo o Fabinho?!

Chegando no show se comprimentaram de forma tímida, envolvida por encabulamentos e pequenas risadinhas. Conversaram sobre os lançamentos da banda, seu grandes hits e até do caso do baterista com a irmã do vocal, que quase acabou com a famosa turnê de 2016. Todos esses fatos Fabinho tirava de sua cola no celular, resultado de duas madrugadas viradas pesquisando, ouvindo e sofrendo com o som terrível da banda de grunge metal. Tudo estava indo bem. Trocavam olhares, leves carícias e cochichos no ouvido. Fabinho pensava, finalmente tirei a sorte grande e olhava fundo nos olhos serenos da menina. Chegou o momento, pensou Fabinho. Tinha pensado em tudo, não teria como dar errado. Sua pesquisa apontava uma eficácia de 100% na tática pensada minuciosamente por ele. Olhou para o telão e viu os tweets aparecendo um por um. Ele sabia que demoravam, em média, trinta segundos para aparecerem no ar. Tirou o celular do bolso e começou a escrever. Em sua cabeça, apenas a certeza de que aquilo iria funcionar. Enviou a mensagem e virou-se para a garota.

  • Sabe, desde que te conheci, sempre quis te dizer uma coisa…
  • Ah é? O quê?
  • Dá uma olhada no telão…

Os dez segundos seguintes foram os mais demorados de sua vida. Não conseguia nem olhar. Seu estômago estava revirado e o coração galopava forte em seu peito. Não tirava os olhos dela, queria vivenciar cada milésimo de segundo de sua reação. Até que ela finalmente vira, e lhe dá um forte tapa na cara. Desnorteado, Fabinho olha para o telão e vê a mensagem:

  • Maria Julia, quer emagrecer comigo?

Maldito autocorretor.