A história de Frank Lucas

Nascido em La Grange, na Carolina do Norte. Frank Lucas tinha tudo para ser mais um garoto negro no sul americano, que trabalharia em empregos humildes para sustentar a sua família. Tinha tudo, mas não foi. Frank com seis anos, viu cruéis membros da Ku Klux Klan matar seu primo de doze anos com um tiro de espingarda na cabeça — tudo isso por supostamente ter olhado para uma garota branca. Essa imagem marcaria para sempre a personalidade e vida de Lucas, dando outro rumo à vida do garoto.

Como homem da casa, ele passou a cometer pequenos delitos para tentar sustentar a família. Frank roubava bêbados que ficavam em bordéis. Aos 12, segundo ele, Frank estava cumprindo pena por trabalho forçado no Tennessee por ter roubado uma loja. Aos 14, ele contrabandeava bebidas. E tempo depois começou a trabalhar com um homem branco, dono de uma empresa de tubulações. Frank dirigia caminhões. O rapaz se envolveu com a filha de seu chefe, e certo dia, os dois foram flagrados por ele. Frank acertou Bill, como o homem se chamava, na cabeça e fugiu com 400 dólares. O mesmo disse ao livro “O Gângster Americano” de Mark Jacobson, que queimou a fábrica.

Depois disso Frank foi para o norte graças a conselho de sua mãe, foi parar em Nova York, mais precisamente no Harlem. Bairro onde na época, só negros viviam. E lá, Frank continuou seus delitos. Começou a ser perseguido por muitos, desde policiais e outros criminosos, até que um dia ganhou o respeito de ninguém mais do que Ellsworth Raymond “Bumpy” Johnson — tido como o dono do Harlem, e que mantinha relações estritas com a família Genovese. Bumpy foi duas vezes preso e mandado para a notória prisão de Alcatraz. A partir daquele dia, Lucas passou a andar com Bumpy, ganhou respeito de todos. E ficou como o braço direito do notório criminoso. Bumpy passou a comprar roupas para Lucas, deu moradia e tudo mais. Certa vez, os dois foram a Cuba visitar ninguém mais do que Lucky Luciano. Bumpy morreu em um restaurante, nos braços de Lucas, e a partir daí o reinado no Harlem foi passado para ele.

Frank passou a dominar o Harlem com tremenda descrição que quando estava no seu ápice fazendo milhões por dia, ninguém o conhecia. Mas para ser tão bem sucedido traficante Frank teve uma ideia digna de gênio. Ao ver matérias sobre soldados americanos tendo overdoses enquanto estavam na guerra do Vietnã, viu que o poder da droga de tal lugar, era grande. E assim, resolveu ir ao Vietnã buscar heroína. Frank retratou o lugar como horrível, quase perdeu toda a sua droga para bandidos do lugar, mas o negócio valeu a pena. A heroína era quase 100% pura quando saía dos campos de papoulas. E foi assim, que o garoto que saiu da minúscula La Grange, começou a dominar o Harlem. Os “Country Boys” — formado por familiares e habitantes da cidadezinha — era a ‘gangue’ de Frank. Ele só confiava na família, esse era um traço de Frank. Apesar de ter pessoas nas ruas que não eram ligadas a ele no sangue. Sua droga era ‘batizada’ por mulheres usando máscaras cirúrgicas e segundo fontes, totalmente nuas. Lá ela perdia sua pureza graças a produtores químicos que eram misturados com a heroína vinda do Sudeste Asiático. Mesmo assim, a “Blue Magic” era a ‘top’ nas ruas. Tinha 10% de pureza, quando as melhores drogas do mercado tinham apenas cinco, e as normais tinham três. A “Blue Magic” marcou seu nome nas ruas, e levou Frank Lucas à riqueza, e isso sem aparecer nos holofotes.

A influência de Frank Lucas

Frank Lucas frequentava os melhores clubes da cidade. Neles, encontravam-se grandes jogadores de basquete como o mestre Wilt Chamberlain e pugilista como Sugar Ray Robinson. Frank era amigo de todos. Uma das maiores amizades de Frank Lucas era com o já falecido lutador de boxe, Joe Louis. Quando Frank conheceu Louis, ele já tinha parado de lutar, mas ainda era tido como um campeão e muito querido no Harlem. Frank uma vez pagou uma dívida de Louis que era de 50 mil dólares. Quando o pugilista morreu, Frank ficou bastante triste, pois levava Joe Louis como um pai.

Certa vez Lucas conheceu Howard Hughes. Na época, Hughes era um dos homens mais ricos do mundo, e exercia várias ‘profissões’. Aviador, engenheiro aeronáutico, industrial, produtor de cinema, diretor cinematográfico. Como engenheiro aeronáutico, ele criou o H-4 Hércules. Como diretor de cinema, ele dirigiu obras como a versão original de Scarface, de 1932. Mas o encontro dos dois foi só em uma noite.

O estilo e a personalidade do notório traficante

Familiar mas frio. Assim era Frank Lucas. Ele não hesitava em matar, bater em alguém. Certo dia, matou um traficante chamado Tango em frente de muitas pessoas no Harlem. Testemunhas dizem que ele não tinha hesitado em matar Tango, e hoje, Frank se lembra da história como se fosse um feito de se ter orgulho. Frank chegou a dar risadas quando relatava o fato ao livro de Mark Jacobson. Frank era muito frio para uma pessoa que era simpática com todos, e que parecia querer fazer amizades com as pessoas. Richie Roberts, um dos policiais que prendeu Lucas e que futuramente foi advogado de defesa do mesmo, disse que por mais que ele saiba dos horrendos feitos do traficante, ele não consegue não gostar dele, fazendo que isso fosse uma tarefa difícil. Mas nunca iremos saber, a não ser que falássemos com o próprio Frank.

Ele nunca queria atrair atenção para ele — tanto que passou tempos fora dos holofotes -, mas em certo dia do ano de 1971 sua esposa o deu um casaco de chinchila, bastante chamativo. No mesmo dia, ele e sua esposa foram à luta de Joe Frazier Vs. Muhammad Ali, e foi ali que supostamente os policiais começaram a ‘notar’ Lucas, e investigar o traficante. Richie diz que não foi o casaco que o entregou, apesar de Lucas dizer que sim. Fatos contam que os policiais ao verem Frank Lucas com tal casaco que era caríssimo e sentado nos melhores lugares — inclusive a frente de grandes mafiosos — deu a impressão que ‘aquele cara tinha algo a ser investigado’. Frank ainda fazia contatos com outros notórios bandidos da época enquanto assistia a luta.

A prisão

O império de Frank Lucas começou a cair em 1975. Em Janeiro daquele ano, uma força tarefa contando com dez agentes do “Group 22” da Narcóticos (DEA) e dez policiais de Nova York invadiram a casa de Frank Lucas. Eles acharam U$584,683 em dinheiro vivo. Frank foi preso, e indiciado a setenta anos de prisão. Ele saiu em condicional em 1981, mas em 1984 voltou para a cadeia por negociar uma troca de 28.35 gramas de heroína +US$13.000.00 por um quilo de cocaína. Saiu só em 1991. O curioso de tudo foi que seu advogado de defesa, foi Richie Roberts, um dos policiais que lutaram para colocar Frank atrás das grandes. Richie chegou a pagar escola para um filho de Frank, e hoje, os dois são amigos.

American Gangster, o Frank Lucas de Denzel Washington e a influência no Hip-Hop

Denzel Washington interpretou Frank Lucas.

Baseado na super matéria de Mark Jacobson para a NY Magazine, foi anunciado o filme American Gangster. O filme dirigido por Ridley Scott, contaria a vida de Frank Lucas após a morte de Bumpy Johnson. Sendo que Bumpy morre logo nos primeiros minutos. Para interpretar Frank, ninguém mais do que Denzel Washington, que fez um dos melhores papéis de sua carreira. O filme foi indicado a dois Oscars, um por melhor direção de arte, e outro pela melhor atriz secundária (Ruby Dee). American Gangster ainda conta com Russell Crowe como Richie Roberts, Cuba Gooding Jr. como o traficante Nick Barnes, Josh Brolin como o corrupto policial Reno Trupo e Ted Levine, famoso pela série Monk, como o Capitão Lou Toback. O filme é de 2007. O filme muda algumas coisas, e exagera no papel de Richie Roberts. Botando o policial como principal peça da prisão de Lucas, quando segundo o próprio Richie, não foi bem assim. Mas mesmo assim, é um ótimo filme.

Já no filme, sentimos uma presença muito grande do Hip-Hop. Temos Common, T.I. e RZA como personagens que aparecem frequentemente no filme. Os dois primeiros como familiares de Frank, e RZA como um dos policiais da operação de Richie Roberts. Fora do filme, temos Jay-Z. O rapper lançou o disco baseado no filme no mesmo ano e buscou trazer um pouco do ‘feeling’ da história de Frank para o disco. O conceito de American Gangster é o de uma história de um gângste, Jay-Z passa pelo crescimento do gângster, o sucesso, e a queda. Em várias partes do disco, o filme é sampleado, como na faixa Blue Magic e Success com o rapper Nas. Uma curiosidade é que apesar de ter muita influência no mundo do Rap, Frank Lucas não gosta nenhum um pouco do estilo. Ele prefere “muito mais um soul” de cantores como James Brown, Chuck Jackson e Dennis Edwards — cantores que ele conheceu pessoalmente.

E assim termino aqui um pouco da história do traficante Frank Lucas. História que renderia muito mais se eu entrasse em mais detalhes. Abaixo deixarei alguns links interessantes sobre o notório traficante. Não esqueça de visitar o Raplogia.

http://migre.me/csngD — Comparações entre os acontecimentos reais da vida de Frank Lucas e o filme. No link, tiramos várias dúvidas que pairaram após vermos a película de Ridley Scott.

http://migre.me/csnpz — Matéria “The Return of Superfly” de Mark Jacobson. Foi desse link que toda a inspiração para o filme surgiu, a matéria é do ano 2000. Fica como recomendação também o livro “O Gângster Americano e outras histórias de Nova York” do próprio Mark, que fala boa parte de Lucas e conta outras histórias das ruas de NYC.